Ontem, dia 9 de novembro, no final da tarde, a querida Carmo Sennfelt «inclinando a cabeça, entregou o espírito». Partiu serenamente acompanhada em sua casa por filhos e netos, num momento de profunda serenidade e interioridade. Para a Comunidade da Capela do Rato, a Carmo foi um forte elo de ligação entre todos nós. Sentimos a tristeza da sua partida, agradecemos o dom da sua vida. Mulher com mundo, de vasta cultura, terapêutica, poliglota, mãe e avó dedicada, resistente e de fortes convicções, amiga discreta e leal, a Carmo representava o melhor de todos nós. Juntamente com a família e amigos, a Comunidade da Capela do Rato vai honrar a memória da Carmo agradecendo o dom de sua vida e da sua presença.
As exéquias terão lugar na Capela do Rato, Calçada Bento da Rocha Cabral, 1, B, Lisboa, com o seguinte horário:
10.11.2025, Segunda-feira
18h: Início do velório
21h: Celebração da Eucaristia
11.11.2025, Terça-feira
11h30: Eucaristia de exéquias
Reflexões que a Carmo Sennfelt partilhou com a Comunidade:
Westerbrok (19.06.2017), ligando a memória de Etty Hillesum à memória de familiares mortos Auschwitz / Birkenau
https://www.capeladorato.org/curso-dos-dias-2017/
O Amor, publicado no site do Secretariado Nacional da Cultura
https://www.snpcultura.org/o_amor.html
Solidões, meditação feita em tempo de confinamento
https://www.capeladorato.org/2020/04/04/que-sentido-tem-tudo-isto/
HOMILIA DO PE. ANTÓNIO MARTINS NA CELEBRAÇÃO DAS EXÉQUIAS
Perante o mistério da vida e da morte, estaremos sempre no limiar, debruçados perante o abismo. Ao excesso de sentido, das coincidências, de tudo dar certo, chamamos Deus, palavra banal e gasta, mas necessária para dizer a grandeza humilde da vida, a graça de viver e de morrer.
Perante o milagre que é a vida de cada um(a) de nós, que foi a vida da Carmo ontem consumada, estamos descalços, como Moisés diante da sarça ardente, despojados das nossas certezas e das nossas máscaras. Que mistério é esse do apagamento daquela que amamos como mãe, avó, amiga, companheira incondicional da nossa viagem, a Carmo? Aqui estamos todos, congregados como família, como comunidade, como amigos, para nos despedirmos da Carmo. A amiga fiel e discreta de todas as horas, as de alegria e as de dor.
No seu silêncio atento, ou na sua palavra assertiva, a Carmo representa e encarna o melhor da nossa Comunidade, na singularidade única da sua biografia. Uma grandiosa história de vida, de coração alargado à diversidade das pessoas, das culturas, dos povos, das religiões, dos afetos. Saúdo os amigos e familiares da Carmo espalhados pelo mundo inteiro e aqui presentes. Vindos da Holanda, de Espanha …
Herdeira, por herança familiar, de uma memória judaica, via paterna, e de uma memória católica, via materna, a Carmo cumpriu-se como síntese viva de diálogo inter-religioso e intercultural. Como ninguém, sabia unir os contrários, habitar o paradoxo, cozer o disperso, unir brechas.
Aqui estamos para agradecermos o enorme privilégio (a graça) que foi termos conhecido a Carmo, com ela convivido em tantas cumplicidades, conspirações e projetos. Em momentos orantes ou em viagens, na serenidade de longas conversas sobre a evolução política do mundo, as reformas do Papa Francisco, o último livro do Padre Tolentino, … ou simplesmente à volta da sua mesa, em que nos preparava a «pastasciuta» enquanto o Joy (o simpático gato) passeava delicadamente por entre copos e pratos.
No seu silêncio e na sua discrição, de quem quase não se notava, a Carmo era, para todos nós, um poderoso elo de ligação. Uma âncora, uma pedra angular. Na família e na Comunidade da Capela do Rato. Mas também na sociedade civil, com as suas causas pela justiça, pela ecologia, pela dignificação das vítimas de abusos, próprias de quem sabe e quer ajudar a curar as feridas do coração e do ambiente, a dar nome às próprias sombras.
A leitura do livro de Tobias (I Leitura) pretende honrar, precisamente, a herança hebraica da Carmo e a sua opção de terapeuta psicanalista. Segundo o texto bíblico lido, o pai Tobite, sentindo-se em sua cegueira a habitar as sombras da morte, chama um jovem, um anjo, de nome Rafael, para guiar e acompanhar seu filho Tobias a uma região longínqua, chamada Média. «Rafael» quer dizer «Deus cura», é nome terapêutico. Ele conhece os caminhos para o desconhecido, as montanhas e as planícies. Rafael é palavra e presença que alegra e cura: «A alegria esteja sempre contigo»; «Coragem! Deus não tardará acurar-te».
Atrevo-me a dizer que todo o terapeuta é figura do anjo Rafael, aquele ou aquela que anuncia e testemunha a alegria da cura interior, companheiro de viagem pelas montanhas e planícies de Média, as profundezas dos nossos abismos. Para nos aceitarmos em nossa obscuridade, para nos reconciliarmos com as nossas feridas e fazer delas bênção e fonte de vida. O terapeuta é guia interior, revelador de nós mesmos; ajuda a tornar consciente o inconsciente. Na figura do anjo Rafael podemos interpretar a dimensão terapeuta da Carmo e de todos os psicanalistas e terapeutas.
O evangelho de João narra os últimos momentos da vida de Jesus. Quem o acompanhou, o que disse, como morreu. Três mulheres e um jovem, o discípulo amado, permanecem junto de Jesus até ao fim. Ali, junto da cruz, a maternidade de Maria, a mãe de Jesus, alarga-se para além dos laços de sangue. «Disse Jesus ao discípulo: “Eis a tua mãe”», e depois disse à mãe: «Eis o teu filho». A Carmo cumpriu-se por inteiro em sua maternidade de sangue para com os filhos. Mas a sua maternidade alargava-se para além da própria família, abria-se à Comunidade, a outras relações. E para mim a Carmo foi figura materna, um lugar seguro.
Que mistério é esse quando a morte se aproxima, silenciosamente, e fixa no rosto o definitivo de uma vida cumprida? E esse rosto, sereno depois da agonia, é vislumbre de eternidade e de paz. Que mistério é esse quando nos é dado testemunhar, sem o percebermos bem o que está a acontecer, a última expiração, a tranquilidade do coração, o relaxamento muscular? Tomamos consciência, perplexos, de que aquela vida se consumou, como Cristo, com Cristo, na sua última respiração: «E, inclinando a cabeça, entregou o espírito». A morte entra como suave apagamento, abraço e pacificação. A Carme consumou-se, ou foi consumada, segundo as palavras do evangelho, diante dos nossos olhos, dos olhos de filhos e netos, enquanto rezávamos e traçávamos o gesto da unção: «Por esta santa unção e pela Sua infinita misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo». Experiência inédita, perplexa e reveladora, de graça tremenda e de perturbadora consolação me foi dado viver, ontem, quando a Carmo «entregou o espírito». No mesmo abraço de fé, de esperança e de unidade familiar. Tudo isto diante de nós, imensamente maior do que nós.
Aqui estamos para continuar a história de amor da Carmo que em Deus começa e acaba. Somos herdeiros, de certo modo, do testemunho da sua vida inteira. No belo hino de Paulo, da Primeira Carta aos Coríntios, temos o elogio do amor desinteressado, não possessivo, paciente, sem orgulho nem arrogância. Esse amor que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Esse amor que é sinal de Deus em nós, que nos torna semelhantes a Deus: «O amor jamais passará». Com palavras que a Carmo escreveu: «Há tantos caminhos do Amor e para o Amor como existem os corações».
Num belo texto intitulado «Amor», publicado em 2014, a Carmo usou a metáfora dos pirilampos, esses pequenos animais que transportam «fogo» e cintilam na noite. Também nós queremos ser buscadores de pirilampos, pois somos chamados a descobrir em nós e nos outros a centelha do fogo divino, o amor, que nos faz viver e atiçar em nós a nossa mais profunda humanidade.
Essa é a nossa responsabilidade, essa a nossa opção em cada dia a renovar: sermos nós próprios pirilampos, portadores de fogo, buscadores de luz. Nas palavras da Carmo: «Não deixar apagar a luz da Fé, da Esperança e da Caridade».


