Março

2020/03/09 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Sophia de Mello Breyner Andresen
Está disponível para ouvir a sessão de Maria Andresen de Sousa Tavares sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

Mais informações sobre o curso aqui.

2020/03/08 - Evitar o contágio do medo (homilia)
Queridas irmãs
Queridos Irmãos
Íamo-nos habituando e interiorizando que o viral era virtual. Estávamos habituados que tudo podia ser acético, higiénico, e o virtual da rede ajudava-nos a falar de contaminação de conhecimento, de notícias e vídeos virais na net. Assim crescíamos em nossas ilusões, como se viral não tivesse virulência, e o vírus fosse coisa inofensiva, uma potencialidade das redes. A epidemia do coronavírus, que se propaga sem fronteiras, obriga-nos a repensar que o viral se tornou mesmo real. O vírus, que segundo as estatísticas é de baixa mortalidade mas de elevado grau de contágio, atravessa fronteiras, não se deixa capturar pela rígida vigilância dos aeroportos, não diferencia espaços laicos de religiosos. Propaga-se, transmite-se, contagia silenciosamente.

De repente acordamos atónitos e angustiados, porque o viral, com a sua virulência, é uma realidade possível perto de nós e até dentro de nós. Uma realidade a exigir cuidados, prudência nos contactos e nas sociabilidades, medidas sanitárias adequadas. De repente, o medo do outro altera o nosso quotidiano, impõe quarentenas, contenção de gestos e de expressões de afeto, distância nas relações sociais, a evitar contacto o mais possível. O corpo do outro, da pessoa mais próxima, do vizinho, do colega, de quem connosco segue no mesmo transporte, frequenta a mesma escola, o mesmo espaço público pode ser corpo transmissor, que contagia e infeta.

Não nos deixemos contaminar e infetar pelo medo do outro, pela angústia da infeção. Se a contaminação é dimensão séria, preservar uma serenidade interior, uma sanidade de consciência e de reflexividade, sem entrar nas ondas emotivas irracionais, está ao alcance de todos nós. Alertava, no princípio da semana, Andrea Ricardi, o fundador da comunidade de Santo Egídio: «Não à propagação da epidemia do medo». A prudência é necessária, mas não nos deixemos dominar pelo medo.

Este tempo de Quaresma, com o seu apelo à interioridade, pode ser a oportunidade, no contexto social e sanitário que estamos a atravessar, para cuidar de não nos deixarmos contaminar pelo medo. Podemos evitar o contágio, mas não sacrifiquemos a nossa identidade comunitária de cristão, o encontro em assembleia, a capacidade de rezar juntos e de agir juntos. Os irmãos mais fragilizados, as pessoas idosas mais vulneráveis não fiquem ainda mais isoladas. Não deixemos que o vírus do individualismo e do isolamento triunfe sobre a nossa capacidade de relação e de encontro. Para o melhor e para o pior, somos todos interdependentes, estamos ligados uns aos outros. Somos corpo exposto permanentemente à ameaça. Porque viver é conviver, porque somos carne.

Sublinho a passagem do evangelho. Jesus precisa de tranquilizar os seus discípulos, após o anúncio da sua paixão em Jerusalém e da reação violenta de recusa por parte de Pedro. Os discípulos estão em crise; Jesus fala-lhes de um destino de perigo e de morte, mas também de triunfo de vida (ressurreição) que eles não entendem. Era-lhes, mentalmente, impossível aceitar e seguir um Messias exposto ao sofrimento e à morte. Jesus faz com o núcleo duro dos discípulos (Pedro, Tiago e João) uma pedagogia da consolação. Uma cura para a crise no seguimento. Introdu-los na sua intimidade com o Pai, na sua eterna relação de Filho muito amado. Isso provoca nos discípulos uma perplexa ambiguidade: ao mesmo tempo dá-lhes gozo e temor, entram na luz e na sombra da nuvem.

O que ali experimentam no monte desconcerta-os, é uma experiência excessiva. Depois da transfiguração luminosa («o seu rosto ficou resplandecente como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz») são invadidos e envolvidos por uma nuvem. A luz dá lugar a uma palavra dita na obscuridade: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». «Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: “Levantai-vos e não temais”».

No meio dos nossos medos e angústias contemporâneos, é a nós que Jesus hoje nos diz: «Levantai-vos e não temais». Não vos deixeis vencer pelo medo, pela angústia do contágio. Pela incerteza do presente, pelos prejuízos económicos, pela falta de funcionamento das escolas e das universidades. Atentos, prudentes, ativos, mas não vencidos pelo medo; por aquele vírus interior que nos pode desmobilizar dos laços sociais, da capacidade de compaixão, de solidariedade. Possa ser a exigência deste nosso tempo um tempo oportuno, não para fugirmos dos desafios, nem nos isolarmos, mas para crescermos em confiança e em solidariedade, em compaixão e em cuidado pelas pessoas mais vulneráveis. E até há um toque de Jesus, uma expressão corpórea, um sinal concreto de que aquelas palavras são encarnadas, dirigidas a pessoas concretas.

Aquela experiência mística que os discípulos vivem, introduzidos na eterna relação de amor entre o Filho e o Pai em sua comunhão divina, é narrada em termos de beleza, de gozo, de vida transfigurada, luminosa e resplandecente: eles viram o invisível, vislumbraram um rasgo divino luminoso em Jesus de rosto e vestes transfiguradas. Receberam ali a graça do inesperado, do imprevisível. No meio do medo e da crise pode haver beleza e encontrar-se luz; no meio da doença e do sofrimento pode haver transfiguração; no meio de relações rasgadas pode-se encontrar sinais de transparência, de consolação e de pacificação. A transfiguração de Jesus diante dos discípulos diz-nos uma possibilidade da ação e da presença de Deus em nossas vidas: há rasgos de beleza, traços luminosos, ainda que fugazes, ainda que breves. São esses traços, por vezes tão subtis, que nos revelam que a beleza nunca fica fora da nossa vida. Ela vem, acontece, não pode deixar de se manifestar.

A realidade não está encerrada na obscuridade, não está bloqueada pela crise, pelo medo. Ficamos encantados e comovidos com o testemunho sentido de Pedro: «Senhor, como é bom estarmos aqui!». Estejamos abertos à graça do presente, à beleza que se manifesta nas pequenas coisas quotidianas, na surpresa dos encontros e das pessoas. A beleza é uma possibilidade sempre presente em nossas vidas: a visita de outra dimensão, do não quantificável, do que não é eficaz nem programado, a visita do gratuito, do excessivo, do intenso. A beleza diz-nos a abertura da vida ao divino, ou a revelação do divino a nós no traço de um rasgo de luz, de um rosto luminoso e sorridente.

Uma última referência ao belo texto da primeira leitura, a convocação que Deus fez a Abraão para deixar enraizamentos geográficos, laços familiares, carreira comercial e tribal de sucesso e partir em nome de um futuro prometido, ser dom para outros (bênção para os povos) e pai de uma nova tribo. Abraão saiu por convite livremente aceite; o seu foi um caminho de liberdade, em nome de uma promessa futura. Podemos ver na história de Abraão a parábola, ao contrário, de tantos homens, mulheres e crianças que, pela violência, pela guerra, pela fome, pela miséria, deixam os seus países de origem, atravessam, em risco de vida, terras e mares, são vítimas de redes de tráfico, ficam retidos nas fronteiras em campos de acolhimento que se tornam campos de concentração. Na longa espera e infindáveis burocracias de documentos vão perdendo a esperança na sua terra prometida. A abertura das fronteiras da Turquia aos refugiados coloca as fronteiras europeias sobre pressão. Estamos numa crise humanitária a exigir rápidas soluções: porque há vidas humanas a salvar e a preservar. Mas se a Europa só se quer preservar da avalanche de refugiados preservando a sua qualidade de vida, não é apenas uma crise humanitária que está a acontecer; é a crise da nossa própria humanidade, da nossa capacidade de compaixão e de solidariedade. A crise que pode ser o fim do humanismo fundador da União Europeia.

Tantos medos, tantos riscos e tantos perigos em nossos tempos. Mas também tantas oportunidades de beleza, de esperança, de solidariedade. De testemunho da nossa humanidade. Porque não podemos deixar de acreditar e de testemunhar: «a terra está cheia da bondade do Senhor».

Pe. António Martins, Domingo II da Quaresma

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2020/03/02 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Agustina Bessa-Luís
Está disponível para ouvir a sessão de Maria Filomena Molder sobre a obra “Um bicho de terra” de Agustina Bessa-Luís, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

Mais informações sobre o curso aqui.

2020/03/01 - Com Cristo nos nossos desertos (homilia)
Queridas Irmãs
Queridos Irmãos
Somos guiados pela Palavra de Deus: ela é o nosso critério de vida, a nossa orientação. Nestes domingos da Quaresma, os textos bíblicos que ouvimos, do Antigo e do Novo Testamento, são uma preciosidade. Foram mesmo escolhidos a dedo para serem nosso alimento, nosso critério de discernimento. Peregrinamos, neste tempo de Quaresma, ao ritmo da Palavra de Deus, que cada um de nós acolhe no contexto concreto de nossas vidas.

A vida cristã é uma experiência corpórea. Tanto em termos pessoais como comunitários. Somos sempre corpo. Cada pessoa é corpo singular, cada comunidade forma um corpo de corpos concretos. Cada um de nós, de corpo presente, dá corpo à Igreja. Interagimos uns com os outros. Cada um de nós tem uma história única, tem um passado, um presente e um futuro. A Igreja, humanamente falando, a Igreja é uma realidade concreta porque é a nossa realidade, na grandeza e na miséria de cada um de nós. Somos corpo edificado e transfigurado pelo Espírito, que nos une em nossas diferenças. Somos corpo que se relaciona através dos sentidos: cheiramos, ouvimos, comemos, tocamos, vemos. Toda a nossa vida, as nossas relações, o nosso acontecer no mundo passam pela sensibilidade.

A leitura de hoje do livro dos Génesis oferece-nos, com grande beleza e realismo, uma antropologia existencial dos sentidos. Viver é respirar. A vida é esse grande acontecimento de respiração, do nascer ao morrer. Entramos no mundo por uma inspiração (esse choro inicial pelo qual o nosso sistema respiratório começa a funcionar) e deixamos o mundo expirando. A nossa vida é um processo contínua de inspirações e expirações. Somos a nossa respiração. Precisamos de um bom ar, de um bom ambiente; precisamos também de dilatar os pulmões, de respirar fundo, de tranquilizar a nossa própria respiração, por vezes tão agitada, tão tensa, tão oprimida.

Possa a Quaresma ser um tempo oportuno para dilatar e distender a nossa respiração, para respiramos com mais folgo e maior profundidade. O ar que respiramos é graça de Deus que nos faz viver: «O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo». A respiração liga-nos a todos os seres vivos que respiram, na comunhão vital do ar. Saibamos agradecer o dom da nossa respiração, e criar condições de um ar/ambiente menos poluído: «Todo o ser que respira louve o Senhor» (Sl 150,6).

Ainda na primeira leitura do livro do Génesis encontramos essa passagem fascinante e problemática sobre a origem misteriosa do mal, que nos fascina e dilacera, que nos atrai e destrói. No meio do jardim está a árvore da vida. Sobre a mesma Deus tinha dito: «podeis comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comerdes, morrereis». Deus dá-nos uma abundância de árvores de fruto, mas ao mesmo tempo impõe-nos limites. Limitando o nosso desejo, Deus preserva-nos de uma mortal voracidade. Comer tudo significa matar e acabar por morrer. A disciplina do desejo e dos limites preserva a vida. A salvação da nossa existência está na permanente disciplina do desejo, nessa incessante aprendizagem a viver com os limites, e a salvaguardar a vida das outras criaturas.

Mas há uma dificuldade em aceitar os limites. O fruto daquela árvore suscita um desejo irresistível; aparece como belo e bom: «A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência». Quem é que não queria este fruto? Quem é que não queria uma coisa bela, atraente, fascinante, que entra pelos olhos dentro, está acessível à apropriação da mão, apetece tocar e comer. Esta é a dimensão enigmática do mal, que vem a nós e é experimentado por nós como dimensão atraente e fascinante, irresistível. Uma proposta de vida sedutora, de prestígio, uma bela carreira internacional sacrificando família, a possibilidade de uma empresa com lucros garantidos sem custos sociais, a novidade de uma relação apaixonada e arrebatadora atrai-nos e fascina-nos. É o fruto sedutor. A sedução do mal, com a aparência fascinante de bem e de belo, fratura-nos e dilacera-nos por dentro.

E já estamos no campo das tentações de Jesus no deserto, outro modo de apresentar o fruto sedutor da árvore, agora em propostas de vida bem sucedidas. O campo de combate de Jesus é uma dimensão permanente da nossa existência de crentes; a de um combate sem tréguas ao longo da vida. Diz o tentador a Jesus: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Parece um jogo de crianças, que bem recordamos nas disputas da nossa infância e adolescência quando alguém nos desafiava, provocando: «Não és homem não és nada….»; «mostra que és capaz». Todos nós queremos mostrar que somos homens ou mulheres com força e capacidade. Porque dar parte de fraco é humilhante. O ego narcisista afirma-se sobre o eu profundo (a verdade da consciência).

A tentação de Jesus, e nossa, está em mostrar que é capaz, que é Filho de Deus, com força e poder para desafiar e superar os limites, atravessar a fome com a abundância de pão. Podemos dizer que a vitória de Jesus foi resistir a não sair dos limites da normalidade da humanidade, a não querer para ele, e por ele mesmo, excecionalidades, vida facilitada e diferenciada. Também Jesus aprendeu a disciplinar o seu desejo de comer, de possuir; também aprendeu a dominar o seu narcisismo: «‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Vivemos de outros alimentos; vivemos do pão da relação, dos amigos, da natureza, do silêncio, das leituras. Tudo isso é nosso pão quotidiano. Tudo isso é Palavra que sai da boca de Deus e nos alimenta.

Jesus é também nosso Mestre nesta disciplina do ver e do comer. O tempo da Quaresma aí está para ser vivido como uma oportunidade a (re)educarmos o nosso desejo. Apetece-nos tantas coisas, mas precisamos de experimentar a renúncia, de atravessar os nossos desertos de privação, de fome, de solidão, de impotência, de ausência, fazendo a radical experiência dos limites e da vulnerabilidade. Esses lugares desérticos são terríveis, tremendos lugares de tentação, que nos põem à prova, onde todas as seguranças e esperanças são questionadas, quando não demolidas.

O Espírito Santo conduz Jesus ao deserto para ser tentado. Confesso que não percebo bem esta passagem do evangelho… O Espírito conduz-nos e está presente no lugar da prova, da fratura, do confronto, do perigo entre a vida e a morte. O deserto da tentação não fica fora de Deus; e para aí vamos e aí estamos marcados pela presença do Espírito. Não combatemos sozinhos, meramente entregues às nossas forças. O Espírito Santo é nosso aliado, e talvez combata até por nós, quando caímos mesmo em tentação.

Termino referindo a segunda leitura, da Epístola de Paulo aos Romanos. A experiência do mal pode ser devastadora, dilacerante, mortal até, mas não é uma fatalidade. O mal não tem a última palavra. Se Adão é o símbolo universal da humanidade ferida pelo pecado e pela morte, há um outro Adão, Jesus Cristo, que nos garante o reino da vida: «Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo». Onde abundou o pecado, superabundou a graça.

É nesta esperança que nos confessamos como pecadores, mas sobretudo como filhos e filhas que tudo esperam de Deus em Cristo.

Pe. António Martins, Domingo I da Quaresma

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Fevereiro

2020/02/29 - Dia de Paragem de Quaresma

Publicam-se os textos que serviram de apoio para do dia de paragem de Quaresma, vivido pela Comunidade da Capela do Rato, no dia 29 de Fevereiro, no Convento Franciscano da Luz.

Na parte da manhã, a proposta de meditação «Educar o desejo: comer e tocar (a boca e a mão)» foi uma reflexão existencial sobre o jejum.

Na parte da tarde, a proposta de meditação «Sonhar o futuro do mundo e da Igreja, com o Papa Francisco (por uma conversão ecológica e sinodal)» inspirou-se na exortação apostólica do Papa Francisco «Querida Amazónia».

O dia terminou com a celebração da via sacra, no jardim do convento, por entre flores, árvores e pássaros. Seguimos o texto da Via Sacra no Coliseu de Roma, do ano passado, escrita pela Ir. Eugenia Bonett, italiana, que tem consagrado a sua vida à luta contra a escravatura feminina e ao acolhimento de mulheres refugiadas e imigradas em Roma (pode consultar aqui as meditações da Via Sacra)

Meditação da Manhã – Educar o desejo: comer e tocar (a boca e a mão)

  1. Atravessar a própria fome (tentação da posse e da apropriação/ingestão)

 «O homem, enquanto homem, não se nutre apenas de comida, mas de palavras, de gestos trocados, de relações, de amores, de tudo o que dá sentido à vida nutrida e sustentada pela comida (…). Com o jejum aprendemos a conhecer e a moderar os nossos apetites através da moderação do apetite fundamental e vita: a fome, e aprendemos a disciplinar as nossas relações com os outros, com a realidade externa e com Deus, relações sempre tentadas pela voracidade. O jejum é ascese da necessidade e educação do desejo» (Enzo BIANCHI, Le parole della spiritualità, Rizzoli, Milão 1999, 157-158)

Não aceitar os limites mata: Porque comer devora, e tocar destrói:

«Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspeto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu. Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus, coseram folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas, como se fossem cinturas, à volta dos rins» (Gn 3,6-7).

Jejuar, uma forma de educar o desejo (a carência e a fome). Aceitar a carência para acolher a alteridade e a diferença:

«Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» (Mt 4,1-4).

Opção por um estilo de vida frugal:

«Deparamo-nos no dia a dia com o apelo ao consumo desenfreado, tropeçamos na dependência de comprar coisas e objetos para fazer face aos vazios da nossa alma. Experimentamos a fome de acumular coisas. De um modo determinista ciclicamente sentiremos de novo a mesma fome… como num eterno retorno, um ciclo destrutivo sem fim.

Mas essa “fome” pode ser vencida pela confiança na Palavra de Deus, Ele proverá o alimento na hora certa, da forma certa, sem inverter a realidade das coisas com os valores inerentes a ela: “não vos preocupeis… olhai os lírios do campo… as aves do céu… a cada dia basta seu mal; o amanhã cuidará de si mesmo” (Mt 26,26). Em contraponto à fome de ter, em jeito de transformação escolhamos uma frugalidade de vida: vivamos com menos e sejamos muito; tenhamos consciência de que os recursos do planeta são limitados, portanto há que usar responsavelmente aquilo que nos foi dado; façamos face às alterações climáticas através do compromisso com uma vida mais simples, reduzida ao essencial, em que deixar de “ter” se pode transformar numa forma de “ser” mais e melhor. Escolhamos o “decrescimento” como forma de fazer face ao crescimento desenfreado» (Reflexão da Comissão Nacional de Justiça e Paz, Quaresma de 2020). 

 

  1. O tocar da mão: entre a ternura e o abuso:

O tato é o mais elementar e visceral, e ao mesmo tempo, o mais sublime e delicado de todos os sentidos. Pelo tato as coisas, o mundo e os outros entram em relação connosco: tocam o nosso corpo, e pelo nosso corpo são tocadas. Pelo tato acontece o contacto, a relação entre os corpos. No encontro de pele expressa-se o encontro íntimo.

Mas o tato também pode ser apropriação, manipulação, violência, posse, instrumentalização. Cada gesto, cada toque tem a sua ambiguidade; é suscetível de interpretações e reações opostas. Daí a sua fragilidade e delicadeza. Pelo tato acontece a ternura, mas também o abuso, a violência, a invasão íntima. Por onde passa a fronteira? Quem a pode definir? Caminho pessoal e permanente, sem tréguas, de discernimento, de combate.

O toque como abuso:

« E aconteceu que uma tarde Da­vid levantou-se da cama, pôs-se a pas­sear no terraço do seu palácio e avistou dali uma mulher que tomava banho e que era muito formosa. Da­vid pro­­curou saber quem era aquela mulher e disseram-lhe que era Betsa­bé, filha de Eliam, mulher de Urias, o hitita. Então, David en­viou emissários para que lha trou­xessem. Ela veio e David dormiu com ela, depois de puri­ficar-se do seu período menstrual. Depois, vol­tou para sua casa. E, vendo que concebera, mandou dizer a David: «Estou grávida.» (2 Sam 11,2-5)

O toque como afeto e ternura:

«Um fariseu convidou-o para comer consigo. Entrou em casa do fariseu, e pôs-se à mesa. Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume.» (Lc 7, 36-38)

Avaliar e discernir o próprio tocar e contacto à luz da Palavra de Deus, entre sombras e luz, promessas e perigos. Cada gesto é ambíguo; pode ser expressão de bondade e de cuidado, ou de invasão e agressão.

Ouça aqui a meditação da manhã

Meditação da Tarde – Sonhar o futuro do mundo e da Igreja, com o Papa Francisco (por uma conversão ecológica e sinodal). Passagens selecionadas da exortação «Querida Amazónia» (QA)

 

  1. A indignação como resistência à convivência com o mal

«É preciso indignar-se, como se indignou Moisés (cf. Ex 11, 8), como Se indignava Jesus (cf. Mc 3, 5), como Se indigna Deus perante a injustiça (cf. Am 2, 4-8; 5, 7-12; Sal 106/105, 40). Não é salutar habituarmo-nos ao mal; faz-nos mal permitir que nos anestesiem a consciência social, enquanto «um rasto de delapidação, inclusive de morte, por toda a nossa região, (…) coloca em perigo a vida de milhões de pessoas, em especial do habitat dos camponeses e indígenas». Os casos de injustiça e crueldade verificados na Amazónia, ainda durante o século passado, deveriam gerar uma profunda repulsa e ao mesmo tempo tornar-nos mais sensíveis para também reconhecer formas atuais de exploração humana, violência e morte» (QA, 15).

  1. A sensibilidade de consciência para discernir (e corrigir) os vícios autodestrutivos

«Muitas vezes deixamos que a consciência se torne insensível, porque “a constante distração nos tira a coragem de advertir a realidade dum mundo limitado e finito”. Se nos detivermos na superfície, pode parecer “que as coisas não estejam assim tão graves e que o planeta poderia subsistir ainda por muito tempo nas condições atuais. Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e consumo. É a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não os ver, luta para não os reconhecer, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido”» (QA, 53).

  1. Qual a nossa voz profética?

«O diálogo não se deve limitar a privilegiar a opção preferencial pela defesa dos pobres, marginalizados e excluídos, mas há de também respeitá-los como protagonistas. Trata-se de reconhecer o outro e apreciá-lo “como outro”, com a sua sensibilidade, as suas opções mais íntimas, o seu modo de viver e trabalhar. Caso contrário, o resultado será, como sempre, “um projeto de poucos para poucos”, quando não “um consenso de escritório ou uma paz efémera para uma minoria feliz”. Se tal acontecer, “é necessária uma voz profética” e, como cristãos, somos chamados a fazê-la ouvir» (QA, 27).

  1. Cultivar o sentido estético e contemplativo

«Despertemos o sentido estético e contemplativo que Deus colocou em nós e que, às vezes, deixamos atrofiar. Lembremo-nos de que, “quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos”. Pelo contrário, se entrarmos em comunhão com a floresta, facilmente a nossa voz se unirá à dela e transformar-se-á em oração: “Deitados à sombra dum velho eucalipto, a nossa oração de luz mergulha no canto da folhagem eterna”. Tal conversão interior é que nos permitirá chorar pela Amazónia e gritar com ela diante do Senhor» (QA, 56).

  1. O carisma das mulheres na Igreja

«Numa Igreja sinodal, as mulheres, que de facto realizam um papel central nas comunidades amazónicas, deveriam poder ter acesso a funções e inclusive serviços eclesiais que não requeiram a Ordem sacra e permitam expressar melhor o seu lugar próprio. Convém recordar que tais serviços implicam uma estabilidade, um reconhecimento público e um envio por parte do bispo. Daqui resulta também que as mulheres tenham uma incidência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na guia das comunidades, mas sem deixar de o fazer no estilo próprio do seu perfil feminino» (DA, 103) 

  1. Cultivar o diálogo, superar a dialética do confronto

«O conflito supera-se num nível superior, onde cada uma das partes, sem deixar de ser fiel a si mesma, se integra com a outra numa nova realidade. Tudo se resolve “num plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste”. Caso contrário, o conflito fecha-nos, “perdemos a perspetiva, os horizontes reduzem-se e a própria realidade fica fragmentada”» (DQ, 104).

«Isto não significa de maneira alguma relativizar os problemas, fugir deles ou deixar as coisas como estão. As verdadeiras soluções nunca se alcançam amortecendo a audácia, subtraindo-se às exigências concretas ou buscando culpas externas. Pelo contrário, a via de saída encontra-se por «transbordamento», transcendendo a dialética que limita a visão para poder assim reconhecer um dom maior que Deus está a oferecer. Deste novo dom recebido com coragem e generosidade, deste dom inesperado que desperta uma nova e maior criatividade, brotarão, como que duma fonte generosa, as respostas que a dialética não nos deixava ver» (QA, 105).

  1. A força que nos une

«Num verdadeiro espírito de diálogo, nutre-se a capacidade de entender o sentido daquilo que o outro diz e faz, embora não se possa assumi-lo como uma convicção própria. Deste modo torna-se possível ser sincero, sem dissimular o que acreditamos, nem deixar de dialogar, procurar pontos de contacto e sobretudo trabalhar e lutar juntos pelo bem da Amazónia. A força do que une a todos os cristãos tem um valor imenso. Prestamos tanta atenção ao que nos divide que, às vezes, já não apreciamos nem valorizamos o que nos une. E isto que nos une é o que nos permite estar no mundo sem sermos devorados pela imanência terrena, o vazio espiritual, o cómodo egocentrismo, o individualismo consumista e autodestrutivo» (QA, 108)

 

Ouça aqui a meditação da tarde

 

 

2020/02/17 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Mário de Carvalho
Está disponível para ouvir a sessão de José Pedro Serra sobre a obra “Um Deus passeando pela brisa da tarde” de Mário de Carvalho, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

Mais informações sobre o curso aqui.

2020/02/10 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Thomas Mann
Está disponível para ouvir a sessão de Teresa Seruya sobre a obra “A montanha mágica” de Thomas Mann, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

Clique aqui para aceder à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2020/02/03 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Dulce Maria Cardoso
Está disponível para ouvir a sessão de Maria Isabel Rocheta sobre a obra “O Retorno” de Dulce Maria Cardoso, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

Clique aqui para aceder à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2020/02/02 - A riqueza dos anos (homilia)

Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

A festa de hoje da apresentação do Senhor une o Natal à Páscoa. O texto do evangelho de Lucas pertence ao ciclo da infância de Jesus. Cristo ressuscitado é luz que vence as trevas da morte. É isso que celebramos na Vigília pascal, de velas acesas A profecia dramática de Simeão dirigida a Maria, «uma espada trespassará a tua alma», foi interpretada, na piedade medieval, como pré-anúncio das dores de Maria, junto à cruz, pela perda do Filho. Neste acontecimento da infância de Jesus, que bem poderemos chamar natalício, já está prefigurado o drama da cruz («sinal de contradição») e a luz radiosa da madrugada da páscoa. Vigilantes na noite da dor, da dúvida, do desânimo, da inquietação, levamos a luz frágil da fé acesa, a força interior do Espírito que, continuamente, pedimos quais pobres necessitados. Para que os nossos dias possam ser vividos com esperança resistente, e expectante serenidade.

Se quisermos dar um cenário cinematográfico ao evangelho de hoje, podemos imaginar um jovem casal com um bebé nos braços a subir a imponente escadaria do templo de Jerusalém, ricamente adornado em todo o seu esplendor. Recordamos que Lucas privilegia as periferias, as marginalidades, as pessoas de condição pobre. Jesus nasce numa periférica cidade, Belém, por acaso, numa circunstância de passagem. Nasce num estábulo de animais e tem como primeiras visitas uns marginais pastores. Mas no texto do evangelho de hoje, Lucas apresenta o Menino a ser levado ao templo de Jerusalém por José e Maria. Estamos no coração da vida religiosa judaica. Este jovem casal leva um par rolas, ou pombinhos, para oferecer em sacrifício, cumprindo, assim, os ritos de purificação exigidos à mãe após o parto. Não tinham dinheiro para comprar um cabrito ou um cordeiro para o sacrifício. Maria e José são um casal jovem e pobre que apresenta o Menino para consagrá-lo a Deus.

Exigia a lei judaica que cada filho varão fosse consagrado (oferecido) a Deus. Para resgatar o filho, os pais pagavam um tributo de dois dias de trabalho; era um preço simbólico, a assinalar que o filho não lhes pertencia. Lucas intencionalmente não refere o gesto do resgate. Essa ausência indica um profundo sentido teológico: não são os pais que resgatam o Menino, é o Menino que a todos vai resgatar e salvar. Vai resgatar-nos em sua Páscoa, dando a vida (e este é o preço) para nos adquirir para o Pai, libertos de alienações e de perigos. Ele é a salvação ao alcance de todos os povos, de cada pessoa, em qualquer lugar; é o dom da vida que vivifica sem restrições, dom universal, sem fronteiras.

Com certeza que estavam lá os sacerdotes com as suas vestes solenes e o equipamento litúrgico para os rituais da circuncisão e da purificação. Mas Lucas não está interessado em narrar isso que é pressuposto. Lucas narra, sim, um acontecimento inesperado, um encontro improvável: por acaso estão ali no templo dois anciãos, Simeão e Ana, que se maravilham com o Menino e profetizam palavras de esperança e de futuro. São os dois leigos, nada têm a ver com o culto. As sua vidas estão ancoradas na força profética da Palavra, através de uma espera paciente e resistente. Era normal pessoas idosas viverem na proximidade do templo, fisicamente o mais perto possível do lugar da presença de Deus: esse era o desejo mais profundo da piedade judaica, «uma só coisa peço ao Senhor, ardentemente a desejo: poder sentar-me na casa do Senhor todos os dias da minha vida» (Salmo 27,4). Simeão vai ao templo, não para cumprir uma obrigação ou um ritual, mas pela ação livre e interior do Espírito, pelo seu sentir profundo, livre e consciente.

Eis-nos perante o quadro lindíssimo que inspirou tão intensamente a história da pintura: O velho Simeão (e aqui «velho» é uma palavra honrosa) acolhe em suas mãos o Menino. Que belo gesto de ternura: a carne rugada e calosa de um idoso acolhe, ternamente, a carne lisa e suave de uma criança. Que intensa ternura naquele acolhimento. Simeão é ali o colo de Jesus. Duas gerações ali se encontram e se abraçam: o idoso, que serenamente se despede da vida, e a criança que é promessa de futuro.

Simeão é a expressão de um idoso feliz, de uma vida vivida na esperança, de um chegar ao fim inteiro e sem ressentimento, sem lamento nem acusação dos outros. Não diz que no seu tempo é que era bom, e agora tudo é desgraça. Simeão encantam-se e rejubila diante do Menino que é o futuro, a esperança cumprida. Pode partir em paz: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação». Simeão recorda-os que as crianças precisam do dom das pessoas idosas, que lhes acrescentam sentido, alegria e esperança. Que belo quando um idoso se encanta com uma criança e nela acredita no futuro.

Sem sabermos entra em cena Ana que também se maravilha com o Menino e profetiza. Ana tem algo de enigmático e misterioso com ela: não sabemos como aparece no templo; apenas que ali estava, em sua viuvez, servindo a Deus, desde a juventude, «noite e dia, com jejuns e orações». Pobre, frágil, indefesa, mas resistente. Na idade que avança e a debilita, continua a viver agradecida, cumprindo-se no dom de si mesma e no serviço. A vida vida continua a ser fecunda, mesma não tendo filhos. Ana é uma mulher do norte de Israel, da tribo de Asser, uma tribo do norte, da zona fértil, que se perdeu na história, dissolvida nos outros povos vizinhos. A tribo de Asser foi considera uma tribo contaminada, que se perdeu na história sem deixar saudade e grande memória. Mas Ana, mulher viúva da tribo contaminada perdida e de Asser, representa o Israel fiel, os pobres de Iaveh que poem unicamente em Deus a sua esperança e confiança. Também ela «começou a louvar a Deus e a falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém». Ana assinala também o imprevisível de Deus, que o evangelho não conhece fronteiras e pode fazer do contexto concreto de cada vida profecia, bênção, caminho de futuro.

Na passada semana decorreu em Roma o I Congresso Internacional de Pastoral dos anciãos. Em seu discurso aos participantes, disse o Papa Francisco: «A riqueza dos anos é a riqueza das pessoas, de cada pessoa que tem nas suas costas tantos anos de vida, de esperança e de história»; «a vida é um dom, e quando é longa, é um privilégio, para si e para os outros»; «a indiferença e a recusa que a nossa sociedade manifesta em relação aos idosos, apelam não só a Igreja, mas a todos a uma séria reflexão para aprender a acolher e a apreciar o valor da velhice».

Os anciãos não são só passado, são também o presente e o futuro da Igreja. Através dos idosos, o Senhor continua a escrever «novas páginas, páginas de santidade, de serviço, de oração». São o presente e o futuro de uma Igreja, que juntamente com os jovens, «profetiza e sonha», num mútuo reconhecimento, partilhando dons e experiências reciprocas. O Papa recorda mesmo o episódio do evangelho de Jesus. As palavras e os gestos de Simeão e Ana indicam, para todos nós, para a Igreja de cada tempo e de cada lugar, a «revolução da ternura»: «A profecia dos anciãos realiza-se quando a luz do evangelho entra plenamente nas suas vidas: quando, como Simeão e Ana, tomam nos braços Jesus e anunciam a revolução da ternura, a boa notícia d’Aquele que veio ao mundo trazer a luz do Pai».

Saibam as comunidades cristãs de hoje acolher e integrar a profecia e o dom dos idosos. Eles são um carisma e um serviço para os mais jovens. Resgatar da solidão as pessoas idosas é a grande urgência da vida cristã nas grandes cidades. Uma urgência que passa por cada um de nós.

Pe. António Martins, Apresentação do Senhor

Janeiro

2020/01/27 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Viriato Soromenho Marques
Está disponível para ouvir a sessão de Viriato Soromenho Marques sobre a sua obra “Depois da queda. A União Europeia entre o reerguer e a fragmentação”, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

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Mais informações sobre o curso aqui.

2020/01/20 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Alberto Caeiro
Está disponível para ouvir a sessão de Miguel Tamen sobre a obra “Poesias” de Alberto Caeiro, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

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2020/01/13 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Fernando Savater
Está disponível para ouvir a sessão de Maria Luísa Ribeiro Ferreira sobre a obra “O valor de educar” de Fernando Savater, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

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2020/01/05 - Concerto de Reis
Realiza-se no próximo dia 5, pelas 16h na Capela do Rato, um Concerto de Reis pelo Coro Aquae Cantatae e pelo Coro Organum Vocale.

2020/01/05 - Mistério e revelação (homilia)
Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

Encanta-nos e enternece-nos a narrativa dos Magos, vindos das terras orientais, do Sol nascente (anatólia). Aparecem, em Jerusalém, sem sabermos de onde vieram e que caminhos percorreram para chegar. São personagens enigmáticas, cuja origem se desconhece; eles representam a diversidade e a universalidade da humanidade que se reencontra diante do Menino acabado de nascer. Porque este Menino é dom de Deus para todos os homens e mulheres; não é propriedade de um povo, de uma igreja, de uma raça. Nele as fronteiras entre povos e crenças são superadas e reconciliadas.

Também nós nos podemos interpretar, com o texto de Mateus, quais Magos que procuram Jesus, por caminhos insólitos, através de sinais improváveis, com histórias únicas e ousadas, as nossas, tão pessoais, tão únicas. Cada ser humano, cada um de nós, pode-se compreender como um mago que procura identificar sinais da presença de Deus nas coisas que faz, nas suas tarefas quotidianas, no profundo da sua inquietação, no grito silencioso e intenso do seu desejo. Cada um de nós pode-se acolher como um viajante de Deus, um peregrino do absoluto, desejoso de amplos céus estrelados, de imensas paisagens, de estradas longínquas, de caminhos novos. Como um mago.

No texto do evangelho de hoje, cada um de nós pode-se descobrir como alguém que está em procura, cuja luminosidade e certeza na orientação por vezes desaparece e tem de caminhar na esperança, corajosamente, sem evidências tangíveis.

Como os magos que viram a estrela no oriente e só a voltaram a ver já perto de Belém. Viajaram com a memória inicial de um brilho invulgar que os fez pôr a caminho. Podemos imaginar que a ausência da estrela, na maior parte do seu percurso, lhe tenha sido difícil e acrescentado incertezas. Mas não os desorientou, não lhes alterou a intensidade do desejo e da procura. Por isso andaram, viajaram, chegaram, apareceram. Sem sabermos como.

Chegaram, mas não acertaram à primeira. Começaram por bater à porta errada, à porta do tirano Herodes. Viveram pensando que o rei anunciado pela estrela só poderia nascer numa cidade capital e num palácio; e nisto eram herdeiros da mentalidade comum. Com a sua inocência quase que se tornam instrumentos da política homicida de Herodes. E logo provocam uma crise, pois o tirano não admite concorrência: «Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado, e, com ele, toda a cidade de Jerusalém». Na narrativa dos magos, da sua chegada a Jerusalém, conjuga-se, em contradição, a inocência da infância e a violência da tirania, a alegria da vida que se inicia e a morte deliberada como instrumento de poder.

A verdade profunda do coração e a mentira como máscara e falsificação emergem no texto do evangelho. Os magos procuram o rei dos judeus acabado de nascer para o adorar. Herodes envia os magos a Belém, após ter mandado consultar as escrituras e os escribas, como seus informadores secretos, dizendo que também quer ir adorar o Menino. Mas sabemos que o seu dizer era falso, não correspondia à verdade do seu sentir. Em Herodes há poder absoluto que não admite concorrência. E o Menino será para abater. A narrativa dos Magos é também o desmascarar de todo o poder assente na tirania, na mentira, na falsidade, na instrumentalização das pessoas, na violência. A chegada dos Magos ao palácio de Herodes é uma parábola política de profunda atualidade: tantos Herodes de turno, hoje, a semear violência e morte, a permitir que crianças continuem a morrer.

A solenidade de hoje tem o nome litúrgico de Epifania, que significa manifestação. Indica a manifestação-revelação do Messias para todos os povos, para além das fronteiras judaicas, simbolizada nas enigmáticas personagens dos magos vindo do Oriente. Era mentalidade comum, na época, que a manifestação de Deus acontecia através de sinais prodigiosos, com gestos grandiosos, excecionais. No Antigo Testamento a revelação de Deus é acompanhada de trovões e relâmpagos, sinais do seu prodígio e da sua força. Mas no evangelho a Epifania (manifestação de Deus ao mundo) acontece do modo mais humano, mais terno, mais vulnerável possível.

A Epifania é a manifestação de um Menino vulnerável e indefeso ao colo da mãe que o sustem e o sustenta, e assim o apresenta. Deus manifesta-se vulnerável no Menino acabado de nascer: «Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O». Deus abraça e comunga da nossa frágil humanidade. E uma criança é a sua plena manifestação, a sua Epifania. Que mais belo e subversivo prodígio do que uma mãe que apresenta um filho acabado de nascer. Para nos lembrar que todo a criança acabada de nascer é manifestação/epifania de Deus. Uma criança recém-nascida, carente, débil, indefesa, é a definitiva e plena revelação/manifestação de Deus.

O impensável para Herodes, na arrogância despótica do seu poder, é cumprido pelos magos num gesto de prostração e de adoração. Uma adoração que mobiliza todo o corpo, que compromete a pessoa por inteiro. Prostram-se diante do Menino (rei) apresentado no colo da (rainha) mãe. O cristianismo é a afirmação da beleza e inocência da infância, num tempo em que as crianças não contavam. Perguntemo-nos: com que gesto corpóreo queremos nós expressar, hoje, que seguimos, acreditamos e adoramos esse Menino que é dom de Deus para cada um de nós, aquele que nos dignifica, cura, restaura, santifica? O Menino, que adoramos, reconcilia-nos com o menino que somos e recusamos ser, instaura-nos na santidade da infância. Acolhamo-lo com todo o nosso ser, de corpo inteiro.

Um último pensamento: «E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho». Já conhecemos como Mateus faz dos sonhos um lugar de revelação de Deus. Eles são interpretados como um modo de Deus nos falar nas nossas profundezas, para além dos estados de consciência e de vigília. Deus também nos fala pelas cavernas noturnas do nosso psiquismo, por essa dimensão que escapa à nossa racionalidade e à nossa consciência. Nenhuma dimensão da nossa humanidade fica fora da revelação de Deus a nós, do seu modo tão humano de estar connosco e de se tornar presente.

«Regressam à sua terra por outro caminho». Se voltassem pelo mesmo caminho, teriam caído nas garras de Herodes e consentido em ser por ele instrumentalizados. Trair-se-iam a si mesmos e ao Menino que os levou a aventurar-se no desconhecido. A exigência de voltar à terra da sua identidade e da sua origem por outro caminho, é a exigência da conversão, essa reorientação do sentido da nossa vida, essa ousadia em introduzir na nossa vida outros caminhos, outros horizontes, fora do habitual, do conhecido. Como exigência de liberdade. Regressar à sua terra pode ser o símbolo do regresso de cada um a si mesmo, à região da sua identidade e verdade mais profundas.

Que outros caminhos nos pede hoje o Senhor para regressarmos à nossa terra, à verdade original de nós mesmos?

Pe. António Martins, Epifania do Senhor

2020/01/01 - Cardeal D. José Tolentino Mendonça presidiu à eucaristia da solenidade de Santa Maria Mãe de Deus e do Dia Mundial da Paz
O cardeal D. José Tolentino Mendonça presidiu hoje à missa na capela do Rato, em Lisboa, tendo sublinhado a incansável proximidade de Deus com cada ser humano, que sempre possibilita os recomeços, e destacou que cada pessoa pode ser ser bênção e agente de transformação da cultura.

«Deus é favorável, Deus está disposto a dar um investimento de vida, Deus é um sim à nossa vida», e não uma porta fechada», porque a humanidade «não é uma coisa perdida», declarou na homilia, antes de frisar: «Deus ama a nossa humanidade, Deus extasia-se como a nossa humanidade, com aquilo que somos».

Na história de cada ser humano, que «é de luta, mendicante», uma das tarefas mais difíceis «é a de nos amarmos a nós próprios», o que só é possível «se formos ajudados pelo amor incondicional de Deus».

Ao regressar a uma comunidade a que presidiu até 2018, quando foi nomeado arcebispo pelo papa Francisco, o cardeal Tolentino lançou um convite para «o primeiro dia do ano», Dia Mundial da Paz, em que «o coração como que bate de novo pela primeira vez»: Sintamo-nos amados, que esse amor nos cure e transforme».

«Deus é cúmplice dos nossos recomeços», ao investir em cada pessoa «a confiança necessária» para fazer «do tempo uma história» em que «a vida se relança, ilumina, resgata, consolida», afirmou, para a seguir acentuar que n’Ele se encontra «o porto de abrigo, o Pai misericordioso, o Pai compassivo, sempre disposto a ver o bem».

Ao comentar as leituras bíblicas da celebração que assinala a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, o bibliotecário e arquivista da Santa Sé interrogou: «Do ponto de vista racional, parece um absurdo: como é que uma humana, Maria, pode ser mãe de Deus?».

«A tradição mais antiga eclesial celebrou Maria com este título, um dos mais primitivos títulos marianos», atingindo um «plano que a razão declara como absurdo», mas «a fé como verdadeiro».

Para D. Tolentino, «o grande remédio» da existência «é o amor», e uma das suas sementes é ter a capacidade de dizer «o bem»: «Vivemos dentro de uma cultura que é o contrário, que lamentavelmente nos leva a viver numa crítica constante, pouco construtiva, em que vemos sobretudo o mal; os nossos olhos parecem profissionais que só veem a parte negativa, deixamo-nos consumir numa espécie de lamúria, lodaçal escuro, noturno, onde só vemos o mal».

Um dos propósitos prioritários do novo ano devia ser «abençoar»: «Há uma bênção quotidiana, secular, humana, que todos podemos dar uns aos outros», desejando «o melhor para cada um», em contraposição a uma cultura «onde o bem é silenciado, como se não tivesse lugar no espaço público».

«Só conseguiremos domar o lobo que existe no coração» se houver a capacidade de transformar «a agressividade e escuridão numa forma de luz, numa coisa que se acende», porquanto a humanidade de cada pessoa «é o lugar para hospedar e expandir Deus no mundo».

E dado que a paz é um dom que se recebe e partilha, é necessário que o ser humano se comprometa com um estilo de vida marcado pela «compaixão, a misericórdia, o bem», assinalou.«Que os propósitos que o Espírito Santo faz vir ao nosso coração» no primeiro dia do ano sejam acolhidos como «um programa de vida», para que a existência de cada pessoa não seja apenas «a passagem do tempo», mas «um tempo oportuno» para a relação com Deus, concluiu.

Rui Jorge Martins
(in https://www.snpcultura.org/Deus_e_um_sim_a_vida_nao_porta_fechada_cardeal_tolentino_mendonca.html)

Para ouvir a homilia, clique aqui: