Fevereiro

2020/02/10 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Thomas Mann
Está disponível para ouvir a sessão de Teresa Seruya sobre a obra “A montanha mágica” de Thomas Mann, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

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2020/02/03 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Dulce Maria Cardoso
Está disponível para ouvir a sessão de Maria Isabel Rocheta sobre a obra “O Retorno” de Dulce Maria Cardoso, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

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2020/02/02 - A riqueza dos anos (homilia)

Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

A festa de hoje da apresentação do Senhor une o Natal à Páscoa. O texto do evangelho de Lucas pertence ao ciclo da infância de Jesus. Cristo ressuscitado é luz que vence as trevas da morte. É isso que celebramos na Vigília pascal, de velas acesas A profecia dramática de Simeão dirigida a Maria, «uma espada trespassará a tua alma», foi interpretada, na piedade medieval, como pré-anúncio das dores de Maria, junto à cruz, pela perda do Filho. Neste acontecimento da infância de Jesus, que bem poderemos chamar natalício, já está prefigurado o drama da cruz («sinal de contradição») e a luz radiosa da madrugada da páscoa. Vigilantes na noite da dor, da dúvida, do desânimo, da inquietação, levamos a luz frágil da fé acesa, a força interior do Espírito que, continuamente, pedimos quais pobres necessitados. Para que os nossos dias possam ser vividos com esperança resistente, e expectante serenidade.

Se quisermos dar um cenário cinematográfico ao evangelho de hoje, podemos imaginar um jovem casal com um bebé nos braços a subir a imponente escadaria do templo de Jerusalém, ricamente adornado em todo o seu esplendor. Recordamos que Lucas privilegia as periferias, as marginalidades, as pessoas de condição pobre. Jesus nasce numa periférica cidade, Belém, por acaso, numa circunstância de passagem. Nasce num estábulo de animais e tem como primeiras visitas uns marginais pastores. Mas no texto do evangelho de hoje, Lucas apresenta o Menino a ser levado ao templo de Jerusalém por José e Maria. Estamos no coração da vida religiosa judaica. Este jovem casal leva um par rolas, ou pombinhos, para oferecer em sacrifício, cumprindo, assim, os ritos de purificação exigidos à mãe após o parto. Não tinham dinheiro para comprar um cabrito ou um cordeiro para o sacrifício. Maria e José são um casal jovem e pobre que apresenta o Menino para consagrá-lo a Deus.

Exigia a lei judaica que cada filho varão fosse consagrado (oferecido) a Deus. Para resgatar o filho, os pais pagavam um tributo de dois dias de trabalho; era um preço simbólico, a assinalar que o filho não lhes pertencia. Lucas intencionalmente não refere o gesto do resgate. Essa ausência indica um profundo sentido teológico: não são os pais que resgatam o Menino, é o Menino que a todos vai resgatar e salvar. Vai resgatar-nos em sua Páscoa, dando a vida (e este é o preço) para nos adquirir para o Pai, libertos de alienações e de perigos. Ele é a salvação ao alcance de todos os povos, de cada pessoa, em qualquer lugar; é o dom da vida que vivifica sem restrições, dom universal, sem fronteiras.

Com certeza que estavam lá os sacerdotes com as suas vestes solenes e o equipamento litúrgico para os rituais da circuncisão e da purificação. Mas Lucas não está interessado em narrar isso que é pressuposto. Lucas narra, sim, um acontecimento inesperado, um encontro improvável: por acaso estão ali no templo dois anciãos, Simeão e Ana, que se maravilham com o Menino e profetizam palavras de esperança e de futuro. São os dois leigos, nada têm a ver com o culto. As sua vidas estão ancoradas na força profética da Palavra, através de uma espera paciente e resistente. Era normal pessoas idosas viverem na proximidade do templo, fisicamente o mais perto possível do lugar da presença de Deus: esse era o desejo mais profundo da piedade judaica, «uma só coisa peço ao Senhor, ardentemente a desejo: poder sentar-me na casa do Senhor todos os dias da minha vida» (Salmo 27,4). Simeão vai ao templo, não para cumprir uma obrigação ou um ritual, mas pela ação livre e interior do Espírito, pelo seu sentir profundo, livre e consciente.

Eis-nos perante o quadro lindíssimo que inspirou tão intensamente a história da pintura: O velho Simeão (e aqui «velho» é uma palavra honrosa) acolhe em suas mãos o Menino. Que belo gesto de ternura: a carne rugada e calosa de um idoso acolhe, ternamente, a carne lisa e suave de uma criança. Que intensa ternura naquele acolhimento. Simeão é ali o colo de Jesus. Duas gerações ali se encontram e se abraçam: o idoso, que serenamente se despede da vida, e a criança que é promessa de futuro.

Simeão é a expressão de um idoso feliz, de uma vida vivida na esperança, de um chegar ao fim inteiro e sem ressentimento, sem lamento nem acusação dos outros. Não diz que no seu tempo é que era bom, e agora tudo é desgraça. Simeão encantam-se e rejubila diante do Menino que é o futuro, a esperança cumprida. Pode partir em paz: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação». Simeão recorda-os que as crianças precisam do dom das pessoas idosas, que lhes acrescentam sentido, alegria e esperança. Que belo quando um idoso se encanta com uma criança e nela acredita no futuro.

Sem sabermos entra em cena Ana que também se maravilha com o Menino e profetiza. Ana tem algo de enigmático e misterioso com ela: não sabemos como aparece no templo; apenas que ali estava, em sua viuvez, servindo a Deus, desde a juventude, «noite e dia, com jejuns e orações». Pobre, frágil, indefesa, mas resistente. Na idade que avança e a debilita, continua a viver agradecida, cumprindo-se no dom de si mesma e no serviço. A vida vida continua a ser fecunda, mesma não tendo filhos. Ana é uma mulher do norte de Israel, da tribo de Asser, uma tribo do norte, da zona fértil, que se perdeu na história, dissolvida nos outros povos vizinhos. A tribo de Asser foi considera uma tribo contaminada, que se perdeu na história sem deixar saudade e grande memória. Mas Ana, mulher viúva da tribo contaminada perdida e de Asser, representa o Israel fiel, os pobres de Iaveh que poem unicamente em Deus a sua esperança e confiança. Também ela «começou a louvar a Deus e a falar acerca do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém». Ana assinala também o imprevisível de Deus, que o evangelho não conhece fronteiras e pode fazer do contexto concreto de cada vida profecia, bênção, caminho de futuro.

Na passada semana decorreu em Roma o I Congresso Internacional de Pastoral dos anciãos. Em seu discurso aos participantes, disse o Papa Francisco: «A riqueza dos anos é a riqueza das pessoas, de cada pessoa que tem nas suas costas tantos anos de vida, de esperança e de história»; «a vida é um dom, e quando é longa, é um privilégio, para si e para os outros»; «a indiferença e a recusa que a nossa sociedade manifesta em relação aos idosos, apelam não só a Igreja, mas a todos a uma séria reflexão para aprender a acolher e a apreciar o valor da velhice».

Os anciãos não são só passado, são também o presente e o futuro da Igreja. Através dos idosos, o Senhor continua a escrever «novas páginas, páginas de santidade, de serviço, de oração». São o presente e o futuro de uma Igreja, que juntamente com os jovens, «profetiza e sonha», num mútuo reconhecimento, partilhando dons e experiências reciprocas. O Papa recorda mesmo o episódio do evangelho de Jesus. As palavras e os gestos de Simeão e Ana indicam, para todos nós, para a Igreja de cada tempo e de cada lugar, a «revolução da ternura»: «A profecia dos anciãos realiza-se quando a luz do evangelho entra plenamente nas suas vidas: quando, como Simeão e Ana, tomam nos braços Jesus e anunciam a revolução da ternura, a boa notícia d’Aquele que veio ao mundo trazer a luz do Pai».

Saibam as comunidades cristãs de hoje acolher e integrar a profecia e o dom dos idosos. Eles são um carisma e um serviço para os mais jovens. Resgatar da solidão as pessoas idosas é a grande urgência da vida cristã nas grandes cidades. Uma urgência que passa por cada um de nós.

Pe. António Martins, Apresentação do Senhor

Janeiro

2020/01/27 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Viriato Soromenho Marques
Está disponível para ouvir a sessão de Viriato Soromenho Marques sobre a sua obra “Depois da queda. A União Europeia entre o reerguer e a fragmentação”, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

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2020/01/20 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Alberto Caeiro
Está disponível para ouvir a sessão de Miguel Tamen sobre a obra “Poesias” de Alberto Caeiro, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

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2020/01/13 - Curso “O prazer de ler e pensar” – Fernando Savater
Está disponível para ouvir a sessão de Maria Luísa Ribeiro Ferreira sobre a obra “O valor de educar” de Fernando Savater, no Curso “O prazer de ler e pensar”.

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2020/01/05 - Concerto de Reis
Realiza-se no próximo dia 5, pelas 16h na Capela do Rato, um Concerto de Reis pelo Coro Aquae Cantatae e pelo Coro Organum Vocale.

2020/01/05 - Mistério e revelação (homilia)
Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

Encanta-nos e enternece-nos a narrativa dos Magos, vindos das terras orientais, do Sol nascente (anatólia). Aparecem, em Jerusalém, sem sabermos de onde vieram e que caminhos percorreram para chegar. São personagens enigmáticas, cuja origem se desconhece; eles representam a diversidade e a universalidade da humanidade que se reencontra diante do Menino acabado de nascer. Porque este Menino é dom de Deus para todos os homens e mulheres; não é propriedade de um povo, de uma igreja, de uma raça. Nele as fronteiras entre povos e crenças são superadas e reconciliadas.

Também nós nos podemos interpretar, com o texto de Mateus, quais Magos que procuram Jesus, por caminhos insólitos, através de sinais improváveis, com histórias únicas e ousadas, as nossas, tão pessoais, tão únicas. Cada ser humano, cada um de nós, pode-se compreender como um mago que procura identificar sinais da presença de Deus nas coisas que faz, nas suas tarefas quotidianas, no profundo da sua inquietação, no grito silencioso e intenso do seu desejo. Cada um de nós pode-se acolher como um viajante de Deus, um peregrino do absoluto, desejoso de amplos céus estrelados, de imensas paisagens, de estradas longínquas, de caminhos novos. Como um mago.

No texto do evangelho de hoje, cada um de nós pode-se descobrir como alguém que está em procura, cuja luminosidade e certeza na orientação por vezes desaparece e tem de caminhar na esperança, corajosamente, sem evidências tangíveis.

Como os magos que viram a estrela no oriente e só a voltaram a ver já perto de Belém. Viajaram com a memória inicial de um brilho invulgar que os fez pôr a caminho. Podemos imaginar que a ausência da estrela, na maior parte do seu percurso, lhe tenha sido difícil e acrescentado incertezas. Mas não os desorientou, não lhes alterou a intensidade do desejo e da procura. Por isso andaram, viajaram, chegaram, apareceram. Sem sabermos como.

Chegaram, mas não acertaram à primeira. Começaram por bater à porta errada, à porta do tirano Herodes. Viveram pensando que o rei anunciado pela estrela só poderia nascer numa cidade capital e num palácio; e nisto eram herdeiros da mentalidade comum. Com a sua inocência quase que se tornam instrumentos da política homicida de Herodes. E logo provocam uma crise, pois o tirano não admite concorrência: «Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado, e, com ele, toda a cidade de Jerusalém». Na narrativa dos magos, da sua chegada a Jerusalém, conjuga-se, em contradição, a inocência da infância e a violência da tirania, a alegria da vida que se inicia e a morte deliberada como instrumento de poder.

A verdade profunda do coração e a mentira como máscara e falsificação emergem no texto do evangelho. Os magos procuram o rei dos judeus acabado de nascer para o adorar. Herodes envia os magos a Belém, após ter mandado consultar as escrituras e os escribas, como seus informadores secretos, dizendo que também quer ir adorar o Menino. Mas sabemos que o seu dizer era falso, não correspondia à verdade do seu sentir. Em Herodes há poder absoluto que não admite concorrência. E o Menino será para abater. A narrativa dos Magos é também o desmascarar de todo o poder assente na tirania, na mentira, na falsidade, na instrumentalização das pessoas, na violência. A chegada dos Magos ao palácio de Herodes é uma parábola política de profunda atualidade: tantos Herodes de turno, hoje, a semear violência e morte, a permitir que crianças continuem a morrer.

A solenidade de hoje tem o nome litúrgico de Epifania, que significa manifestação. Indica a manifestação-revelação do Messias para todos os povos, para além das fronteiras judaicas, simbolizada nas enigmáticas personagens dos magos vindo do Oriente. Era mentalidade comum, na época, que a manifestação de Deus acontecia através de sinais prodigiosos, com gestos grandiosos, excecionais. No Antigo Testamento a revelação de Deus é acompanhada de trovões e relâmpagos, sinais do seu prodígio e da sua força. Mas no evangelho a Epifania (manifestação de Deus ao mundo) acontece do modo mais humano, mais terno, mais vulnerável possível.

A Epifania é a manifestação de um Menino vulnerável e indefeso ao colo da mãe que o sustem e o sustenta, e assim o apresenta. Deus manifesta-se vulnerável no Menino acabado de nascer: «Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O». Deus abraça e comunga da nossa frágil humanidade. E uma criança é a sua plena manifestação, a sua Epifania. Que mais belo e subversivo prodígio do que uma mãe que apresenta um filho acabado de nascer. Para nos lembrar que todo a criança acabada de nascer é manifestação/epifania de Deus. Uma criança recém-nascida, carente, débil, indefesa, é a definitiva e plena revelação/manifestação de Deus.

O impensável para Herodes, na arrogância despótica do seu poder, é cumprido pelos magos num gesto de prostração e de adoração. Uma adoração que mobiliza todo o corpo, que compromete a pessoa por inteiro. Prostram-se diante do Menino (rei) apresentado no colo da (rainha) mãe. O cristianismo é a afirmação da beleza e inocência da infância, num tempo em que as crianças não contavam. Perguntemo-nos: com que gesto corpóreo queremos nós expressar, hoje, que seguimos, acreditamos e adoramos esse Menino que é dom de Deus para cada um de nós, aquele que nos dignifica, cura, restaura, santifica? O Menino, que adoramos, reconcilia-nos com o menino que somos e recusamos ser, instaura-nos na santidade da infância. Acolhamo-lo com todo o nosso ser, de corpo inteiro.

Um último pensamento: «E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho». Já conhecemos como Mateus faz dos sonhos um lugar de revelação de Deus. Eles são interpretados como um modo de Deus nos falar nas nossas profundezas, para além dos estados de consciência e de vigília. Deus também nos fala pelas cavernas noturnas do nosso psiquismo, por essa dimensão que escapa à nossa racionalidade e à nossa consciência. Nenhuma dimensão da nossa humanidade fica fora da revelação de Deus a nós, do seu modo tão humano de estar connosco e de se tornar presente.

«Regressam à sua terra por outro caminho». Se voltassem pelo mesmo caminho, teriam caído nas garras de Herodes e consentido em ser por ele instrumentalizados. Trair-se-iam a si mesmos e ao Menino que os levou a aventurar-se no desconhecido. A exigência de voltar à terra da sua identidade e da sua origem por outro caminho, é a exigência da conversão, essa reorientação do sentido da nossa vida, essa ousadia em introduzir na nossa vida outros caminhos, outros horizontes, fora do habitual, do conhecido. Como exigência de liberdade. Regressar à sua terra pode ser o símbolo do regresso de cada um a si mesmo, à região da sua identidade e verdade mais profundas.

Que outros caminhos nos pede hoje o Senhor para regressarmos à nossa terra, à verdade original de nós mesmos?

Pe. António Martins, Epifania do Senhor

2020/01/01 - Cardeal D. José Tolentino Mendonça presidiu à eucaristia da solenidade de Santa Maria Mãe de Deus e do Dia Mundial da Paz
O cardeal D. José Tolentino Mendonça presidiu hoje à missa na capela do Rato, em Lisboa, tendo sublinhado a incansável proximidade de Deus com cada ser humano, que sempre possibilita os recomeços, e destacou que cada pessoa pode ser ser bênção e agente de transformação da cultura.

«Deus é favorável, Deus está disposto a dar um investimento de vida, Deus é um sim à nossa vida», e não uma porta fechada», porque a humanidade «não é uma coisa perdida», declarou na homilia, antes de frisar: «Deus ama a nossa humanidade, Deus extasia-se como a nossa humanidade, com aquilo que somos».

Na história de cada ser humano, que «é de luta, mendicante», uma das tarefas mais difíceis «é a de nos amarmos a nós próprios», o que só é possível «se formos ajudados pelo amor incondicional de Deus».

Ao regressar a uma comunidade a que presidiu até 2018, quando foi nomeado arcebispo pelo papa Francisco, o cardeal Tolentino lançou um convite para «o primeiro dia do ano», Dia Mundial da Paz, em que «o coração como que bate de novo pela primeira vez»: Sintamo-nos amados, que esse amor nos cure e transforme».

«Deus é cúmplice dos nossos recomeços», ao investir em cada pessoa «a confiança necessária» para fazer «do tempo uma história» em que «a vida se relança, ilumina, resgata, consolida», afirmou, para a seguir acentuar que n’Ele se encontra «o porto de abrigo, o Pai misericordioso, o Pai compassivo, sempre disposto a ver o bem».

Ao comentar as leituras bíblicas da celebração que assinala a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, o bibliotecário e arquivista da Santa Sé interrogou: «Do ponto de vista racional, parece um absurdo: como é que uma humana, Maria, pode ser mãe de Deus?».

«A tradição mais antiga eclesial celebrou Maria com este título, um dos mais primitivos títulos marianos», atingindo um «plano que a razão declara como absurdo», mas «a fé como verdadeiro».

Para D. Tolentino, «o grande remédio» da existência «é o amor», e uma das suas sementes é ter a capacidade de dizer «o bem»: «Vivemos dentro de uma cultura que é o contrário, que lamentavelmente nos leva a viver numa crítica constante, pouco construtiva, em que vemos sobretudo o mal; os nossos olhos parecem profissionais que só veem a parte negativa, deixamo-nos consumir numa espécie de lamúria, lodaçal escuro, noturno, onde só vemos o mal».

Um dos propósitos prioritários do novo ano devia ser «abençoar»: «Há uma bênção quotidiana, secular, humana, que todos podemos dar uns aos outros», desejando «o melhor para cada um», em contraposição a uma cultura «onde o bem é silenciado, como se não tivesse lugar no espaço público».

«Só conseguiremos domar o lobo que existe no coração» se houver a capacidade de transformar «a agressividade e escuridão numa forma de luz, numa coisa que se acende», porquanto a humanidade de cada pessoa «é o lugar para hospedar e expandir Deus no mundo».

E dado que a paz é um dom que se recebe e partilha, é necessário que o ser humano se comprometa com um estilo de vida marcado pela «compaixão, a misericórdia, o bem», assinalou.«Que os propósitos que o Espírito Santo faz vir ao nosso coração» no primeiro dia do ano sejam acolhidos como «um programa de vida», para que a existência de cada pessoa não seja apenas «a passagem do tempo», mas «um tempo oportuno» para a relação com Deus, concluiu.

Rui Jorge Martins
(in https://www.snpcultura.org/Deus_e_um_sim_a_vida_nao_porta_fechada_cardeal_tolentino_mendonca.html)

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