Fruto da sua meditação da Palavra de Deus, Santo Agostinho dirige ao Senhor esta prece: «Ó Senhor, aperfeiçoai-me e revelai-me estes mistérios. A vossa palavra é a minha alegria. A vossa voz é mais deleitosa do que toda a afluência de prazeres. Concedei-me o que amo porque estou inebriado de amor. Fostes Vós que mo concedestes. Não abandoneis os Vossos dons, nem deixeis de regar esta erva sequiosa» (Santo Agostinho, Confissões XI, 2). Também nós pedimos que o Senhor, pelo dom do seu Espírito, nos aperfeiçoe através da fecundidade e da inspiração da sua Palavra. «A vossa palavra é a minha alegria».

O evangelho de hoje, na sequência dos anteriores domingos, apresenta Jesus a ser contestado, confrontado e questionado por grupos organizados de oposição, que o querem encurralar e o apanhar em falso para o desautorizar. Bem sabemos que no percurso da nossa vida, podemos ser contestados, incompreendidos, perseguidos até pelas nossas posições, coerências e convicções. O conflito, a tensão, o confronto são dimensões menos simpáticas do nosso viver. E nos dias que correm o confronto e o conflito, protagonizado pelas jovens gerações, está na rua a manifestar-se de forma violenta, caótica, anárquica, sem lideranças para dialogar e construir processos de decisão partilhada. É o grito legítimo de uma geração a quem lhes foi roubada a esperança num futuro melhor. Todos temos netos e sobrinhos para quem a aquisição de casa é um drama, um projeto adiado.

Se denunciamos as formas anárquicas de manifestação no espaço público e o vandalismo do património privado e público, não podemos ignorar a legitimidade do grito destes jovens, a sua revolta e indignação com a falta de políticas sociais de habitação. A habitação é um bem social, não pode ficar refém da lei da oferta e da procura de proprietários e agentes imobiliários. É a hora de governo, autarquias, privados, caritas diocesanas, misericórdias conjugarem esforços e políticas de bem comum, de habitação social. Muitos de nós militámos ativamente enquanto jovens, nas escolas do secundário e nas universidades, participando em manifestações, em debates públicos, em greves; aliando denúncia à proposta e ao compromisso social pessoal. A militância católica respeita a ordem social, contesta sem renunciar a criar pontes de diálogo. E dentro das nossas comunidades cristãs precisamos de dar voz aos jovens, para expressarem as suas inquietações, a sua revolta, as suas propostas.

Poderá o evangelho iluminar a nossa realidade social, cheia de tensões, de extremismos? Pode porque acreditamos que a Palavra do Senhor inspira sentimentos, leituras da realidade, compromissos sociais. Que sinais credíveis de esperança podemos vislumbrar na anarquia e no vandalismo da contestação juvenil? Como integrar agora em caminhos de diálogo democrático o seu grito e a sua revolta? Todos estamos convictos de que a prática da cidadania começa nas famílias. Possam também as comunidades cristãs ser lugares de cidadania partilhada, onde se reinventa a esperança. Ressoa com novos desafios, novas aplicações e novos contextos as palavras do Livro do Êxodo: «Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egito. Não maltratarás a viúva nem o órfão. Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada». O próprio Deus escuta o clamor dos pobres, dos estrangeiros, dos sem casa, sem trabalho, desprotegidos na solidão de sua velhice. Os socialmente mais vulneráveis e indefesos são aqueles que Deus escuta, protege. O Senhor convoca-nos para o compromisso social, para uma cidadania da compaixão e do cuidado. Nunca nos esqueçamos das palavras de Jesus: «Sempre que o deixaste de fazer a um deste pequeninos, foi a mim que o deixaste de fazer» (Mt 25,45).

«Qual o maior mandamento da Lei?», pergunta ardilosa de um jurista porta-voz do partido dos fariseus. Na complexa codificação do judaísmo de então havia 613 normas, 365 negativas («Não deves») e 248 positivas («podes», «faz»). Nesta floresta normativa, era questão infindável um consenso sobre o maior mandamento. Os grandes mandamentos da Torah andavam a par de normas casuístas. Daí o fardo sufocante e rigorista do legalismo religioso de então, que Jesus denuncia. Alguns chegavam a dizer que o mandamento mais importante é amar a Deus e ao próximo. Nisto Jesus não foi inovados; acolhe uma leitura rabínica. A sua novidade está na síntese de conjunto que apresenta, uma visão da Lei concentrada no essencial, no nuclear, que distingue o mais fundamental do acessório.

Jesus assemelha, se identificar, o amor ao próximo (o segundo mandamento), com o primeiro, o amor a Deus. E acrescenta: «Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas». Toda a Escritura resumida e concentrada neste duplo mandamento do amor, a Deus e ao próximo, na vertical e na horizontal, teologal e antropológico, interior e socialmente comprometido. A síntese apresentada por Jesus é a sua visão pessoal da Escritura, a sua leitura de conjunto após ruminar os textos no silêncio orante da meditação. Jesus apresenta-nos a sua própria inteligência das Escrituras. Sim, a sua palavra é para nós mandamento, mas inspira-nos também a procurarmos a nossa própria síntese pessoal da Escritura. E isso deveria ser empenho de cada cristão, chegar a uma visão sapiencial unitária do todo da Escritura. Tarefa nada fácil…

«Amarás o Senhor, teu Deus»: é mandamento e, por isso, obriga, é apelo, exige resposta de cada um de nós. Mas o verbo está no futuro: «amarás». A nossa resposta não se esgota imediato; abre-se ao futuro, a um tempo por vir. E isso nos consola, porque dá-nos tempo, porque nos coloca em projeto, porque não é uma decisão pronta e acabada. «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração», o mesmo é dizer, com todo o teu sentir, a tua afetividade, as tuas emoções, a tua interioridade. Na antropologia bíblica, o coração diz a pessoa humana em sua capacidade de amar e se relacionar. O coração é expressão da nossa interioridade e verdade mais profundas. Mas também com toda a nossa vida, expressa na palavra «alma»: a nossa vida biológica, psíquica. O amor é o fundamento da nossa vitalidade, a força que verdadeiramente nos anima e nos faz viver. «Amarás o Senhor teu Deus … com toda a tua alma».

Jesus acrescenta a expressão «com toda a tua mente», «com toda a tua inteligência». Sim, a decisão de amar a Deus, de lhe responde amando com todo o coração e com toda a alma, é expressão inteligente. Amar é inteligir, unificar o que sentimos, fazemos, expressamos, vivemos e somos. Este é o primeiro mandamento; o segundo, porém, é semelhante a este: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Próximo é o meu companheiro de viagem, aquela ou aquela que segue a meu lado. Que é frágil e carente como eu, que comunga comigo uma comum humanidade, que pede dignidade, respeito, reconhecimento, proteção, cuidado e amparo. Próximo é aquela pessoa que faz comigo as viagens da vida, no banco do autocarro, na fila da loja do cidadão, do trânsito, na sala da espera do hospital… Toda a pessoa que está a meu lado, seja qual for a circunstância, é meu próximo. Amar o próximo como a mima mesmo significa que o mesmo que peço mim, peço para o meu companheiro de viagem, igual a mim. Não tenho direitos acrescidos, nem privilégios pessoais. «Como a nós mesmos».

Seja a nossa inteira vida essa resposta de amor, viva, concreto, confiante. Façamos nossa a oração do Salmo: «Eu Vos amo, Senhor, minha força, minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador. Meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança, meu protetor, minha defesa e meu salvador».

«Eu vos amo, Senhor», minha defesa e meu salvador.

Pe. António Martins – Homilia no XXX Domingo do Tempo Comum