Queridas Irmãs e queridos Irmãos,

Com o símbolo da vinha canta-se uma história de amor apaixonado, a de Deus pelo seu Povo de Israel, pela Igreja, por toda a humanidade, por cada um e cada uma de nós. Isaías dá voz à canção de amor do seu amigo, forma poética e retórica para se apresentar como voz cantante do amor apaixonado de Deus pelo seu povo, a sua vinha querida: «Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha». Nós próprios somos esse cântico de amor, na contradição entre o desmesurado e incondicional cuidado e atenção de Deus por nós, e a nossa resposta feita de infidelidades. Somos a vinha do Senhor, terroir amado, tratado e intensamente cultivado, como risco de uma resposta estéril, de traição ao amor e cuidado recebidos. Na canção da vinha, o profeta dá voz ao amigo não correspondido em seu cuidado e amor pela sua vinha: «Esperava que viesse a dar uvas, mas ela só produziu agraços». Uma canção de amor não correspondido. Uma esperança de reciprocidade defraudada e traída. Deus é o amigo de coração ferido pela sua vinha infértil.

Nas na canção da vinha, qual jogral a encantar a assistência que pensar assistir a um belo espetáculo de diversão, e ainda mais quando o profeta se apresenta cançonetista, as expetativas são maiores e a diversão aumenta. Mas o profeta não canta para diversão da assistência; canta em nome do amigo, e o seu cantar é convocação ao juízo das consciências: «E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes entre mim e a minha vinha: Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?». Imaginamos a diversidade de respostas: uns a gritar: – «Arranca-a e deita-a fora. Substitui essa vinha infértil por outra plantação mais produtiva»; outros a apelar à paciência do cuidado: – «Volta a cuidar da vinha. Aduba-a mais uma vez. Talvez possa dar boas uvas no próximo ano». A assistência sem o saber está a julgar-se a si própria. Essa é a arte da profecia, pôr-nos em estado interior de julgamento de nós próprios. Por fim chega a sentença final: «vou tirar-lhe a vedação e será devastada; vou demolir-lhe o muro e será espezinhada. Farei dela um terreno deserto». Mas esta sentença não é retórica literária e poética, é declaração acusatória ao próprio auditório, os chefes do povo de Israel, governantes e sacerdotes: «A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel, e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror».

Essa história de amor não correspondido volta a estar presente na parábola do evangelho. O tema da vinha volta a aparecer, mas declinado em termos de relação de proprietário com os vinhateiros, aqueles que vão fazer a vindima, gente assalariada contratada para a circunstância. Os vinhateiros querem-se apropriar da vinha; mantam os enviados do senhor e até o próprio filho, parábola dita por Jesus para dizer e anunciar já a sua própria páscoa. Também aqui os chefes religiosos judaicos são convocados a julgar o comportamento dos vinhateiros homicidas sem perceber que estavam a julgar-se a si próprios: «Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?». Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Aqueles chefes não são donos da vinha, mas usurpadores; são homicidas de profetas e do próprio filho: «Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos». A parábola do evangelho e a aplicação que dela faz o Senhor julgam-nos em nossa tentação de apropriação de vinhas que não são nossas, das quais somos apenas gestores e servidores. Como avaliamos a nossa relação com os serviços, tarefas ou bens que nos são confiados, tanto na Igreja como na sociedade civil? Podemos ser obstáculo, e obstáculo homicida, à fecundidade do reino. E não nos espantemos se a tarefa for confiado a outros que possam ser mais produtivos sem ser usurpadores.

A Palavra hoje proclamada contém também um lamento em relação a Deus por não ter cuidado bem da vinha que plantou, por ter permitido que a mesma seja devorada pelo javali da selva, pois já não tem sebes que a protejam da invasão dos animais. O Salmo é um canto de lamento a Deus pela sua falta de cuidado pela vinha que plantou. Parece que, aqui, é Deus o acusado e o salmista o acusador: «Porque lhe destruístes a vedação, de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho? Devastou-a o javali da selva e serviu de pasto aos animais do campo». O cuidado e a atenção iniciais parecem que foram interrompidos. A história do amor de Deus pela sua vinha parece que foi descontinuada. Mas no lamento, em tom acusatório, há suplica, «vinde de novo», e esperança: «olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, o rebento que fortalecestes para Vós». Como que a dizer: «Senhor, não te podes esquecer da cepa que plantaste, do rebento que fazeis brotar. Não te podes esquecer do teu amor inicial, porque és um Deus fiel». Talvez o salmista esteja mais a convencer-se do amor fiel de Deus, e a confessá-lo em esperança de nova intervenção, do que a acusar Deus de descuidado.

Esta é a beleza da oração dos salmos: podemos estar diante de Deus, combatendo com Deus, acusando até Deus. A oração é esse lugar de luta com Deus, visceral, dramática, autêntica. Uma luta que é abraço. Uma luta que se abre à esperança.

Pe. António Martins – Homilia no XXVII Domingo do Tempo Comum