Vamos ao evangelho de hoje. É estratégia de Jesus, e de outros profetas do AT, colocar os ouvintes diante do julgamento interior da Palavra de Deus, em estado de discernimento espiritual. Não a partir de uma objetividade legalista cortante, mas a partir do juízo da própria consciência, colocando-se em questão. «Que vos parece?», com esta questão, assim dirigida à resposta direta dos ouvintes, Jesus convoca cada ouvinte para uma resposta concreta, para um discernimento de consciência. E conta a parábola do proprietário que diz aos dois filhos para ir trabalhar para a vinha. O primeiro diz não, depois arrepende-se e vai. O segundo diz sim e acaba por não ir. Todos concordam: aquele que faz a vontade do pai é o que começa por dizer não, mas num processo interior de consideração, de juízo de consciência, «arrepende-se», e toma a decisão de ir.
Que processos nada lineares temos nós, cada um de nós, para acertar a nossa vida com o projeto de Deus? Por quantos nãos começamos, com tantas recusas, desculpas, hesitações? Mas o importante é o caminho, o processo de tomada de consciência, esse acordar para nós mesmos e dizer sim, abrir-se numa resposta positiva ao que nos é pedido, fazer da vida uma resposta, um sim. Isso é afirmar a vida com a vontade de Deus que passa pelas convocações existenciais, pelos apelos colaborativos, pelas urgências de ajuda e cuidado, pelo socorro ao grito de quem sofre, pela compaixão do coração. Este processo não deixa de ter um certo parentesco com a parábola do filho pródigo de Lucas, aquele que recusa a casa paterna e parte para longe, esbanjando a herança; com fome e humilhado, regressa à casa do pai, onde é recebido com uma festa de excessos. Somos estes filhos cuja resposta afirmativa brota, paradoxalmente, da negação inicial, de uma dissidência inicial.
Somos estes peregrinos, por vezes dispersos e perdidos, que levam tempo a acertar a vida com o ritmo da vontade do Pai, passando por fracassos, atravessando abismos, vales tenebrosos, escalando montanhas que nos deixam exaustos. Somos esses filhos e filhas cuja resposta «sim», por fim, resulta de um doloroso processo em que as nossas certezas são derrotadas, os nossos caminhos orgulhosamente percorridos baralhados, os nossos projetos grandiosamente idealizados desfeitos pela dura realidade. Sim, somos esses filhos e filhos que levam tempo a responder sim. Para chegar ao sim tivemos que percorrer os caminhos do não, da negatividade. E nesse processo de tensão interior, o milagre do arrependimento; a tomada de consciência que o caminho escolhido é de alienação. E a coragem de reorientar a vida. De responder, simplesmente, àquela voz interior que nos apela a sermos nós mesmos. A voz do Pai que grita amorosamente por nós, seus filhos e filhas, no profundo da nossa consciência, onde a verdade faz eco interior.
Como podemos ser também aqueles filhos e filhas que, piedosamente, confessam sempre, púbica e em alta voz, a sua pertença religiosa, por vezes com traços fanáticos de integrismo, de orgulhosa exaltação da sua diferença identitária. O sim proclamado ostensivamente em público logo negado perante o imigrante que, silenciosamente, grita por digno acolhimento; perante a precaridade daqueles que não têm trabalho, frequentemente julgados por preguiçosos ou sem mérito para terem ocupação e contratação. Sim, podemos ser esses filhos que se consideram prontos a dizer sim a Deus, mas tratam sem compaixão os seus irmãos mais vulneráveis e indefesos. Aqueles que, exaltando a sua confissão religiosa, acham que a compaixão é fraqueza. Julguemo-nos no mais profundo da nossa consciência, para nos reconhecermos como aquele segundo filho cuja resposta existencial não corresponde à sua aceitação inicial.
E nada de moralismos sobre quem está mais perto de Deus, se aqueles que vivem uma vida de pecado objetivo na corrupção financeira, como os publicanos, ou na prostituição do corpo, como as «mulheres de má vida», ou aqueles e aquelas que se julgam impecáveis e irrepreensíveis, no orgulho de uma confissão de fé intolerante e sem compaixão? Desconcerta a afirmação do Senhor,: «Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus». Adiante de nós, católicos praticantes de velha cepa. Porque nunca sabemos as fissuras que vão dentro do coração daqueles e daquelas que todos apontam e reconhecem numa situação objetiva de pecado. Que sabemos nós da aventura do arrependimento interior, daqueles passos frágeis de reorientação de vida, das permanentes recaídas, dos contínuos recomeços, dessa verdade interior reconhecida com coragem e humildade. Renunciemos às fáceis catalogações. Na maior profundidade de um pecado dolorosamente vivido e reconhecido, e sempre confessado, há já um caminho de redenção, uma abertura do coração ao Reino de Deus. «João Batista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça, e não acreditastes nele; mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram». Quanta expressão de fé e esperança de redenção na ferida de um coração humilhado e contrito?!
O Apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos de Filipos, escreve a nós. A sua palavra permanece atual. Acolhamos as suas palavras como dirigidas diretamente a nos, a nós cristão concretos desta comunidade: «Não façais nada por rivalidade nem por vanglória; mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem olhar cada um aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros». E eis o critério para um tecido relacional e comunitário fraterno e autenticamente sinodal: «Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus». Cristo nos inspira nos seus sentimentos e nos seus gestos. Nos seus sentimentos de compaixão, de cuidado, de contemplação feliz da vida que acontece; nos seus gestos de ternura, de acolhimento, de cura, de atenção às pessoas concretas. E seja este o critério da nossa vida: sentir com Cristo, sentir em Cristo. E no comum sentir em Cristo, a comunidade edifica-se, as relações acontecem, a Igreja realiza-se.
«Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus».
Pe. António Martins – Homilia no XXVI Domingo do Tempo Comum


