O verão, esse tempo luminoso de expansão, está chegando ao fim. Banhados pelo calor e pelo esplendor da luz estival, expandimo-nos: viajamos, cruzamos povos e culturas, atravessamos geografias variadas, dilatamos horizontes, visitamos amigos e familiares, repousamos meio agitados, é certo. Por vezes, o descanso trouxe o seu cansaço, com a agitação de filhos e netos. Aproxima-se agora o outono, com os seus ritmos impiedosos de recomeço: é o regresso à estabilidade da casa, a reorganização do quotidiano familiar, a concentração nas atividades, o começo das aulas. Voltar aos nossos ritmos normais, ao saber adquirido, à serenidade do lar, dá-nos tranquilidade. E agora encontramos todos na azáfama dos recomeços, com tantas reuniões de programação.

Queridas Irmãs e queridos Irmãos, aqui estamos para o recomeço da nossa vida comunitária. Já tínhamos saudades de estar juntos. Já pertencemos à vida uns dos outros, e fazemos falta. Apesar de alguns de nós termos visto e visitado durante o verão. Neste tempo de encerramento estival da Capela, somos um pouco como ovelhas sem pastor e pastor sem ovelhas. Também eu, sem uma comunidade com e para quem celebrar, me sinto disperso. Já faz parte da nossa identidade esta relação afetiva e concreta entre o pastor e a comunidade. Bem-vindos, queridos irmãos e irmãs, a esta eucaristia de início de mais um ano pastoral. Para juntos celebrarmos a nossa fé, renovarmos a nossa esperança e concretizarmos a nossa comunhão fraterna.

Por experiência própria, bem o sabemos, somos feridos nas nossas relações, por aquele que mais amamos e estimamos. No decorrer aparentemente sereno de uma relação, aparece o inesperado de uma ofensa ou de uma injustiça. Ficamos ofendidos e gritamos por justiça, porque nos sentimos agredidos em nossa dignidade e nos nossos direitos. A ferida nas relações é sempre vivida como injustiça, a exigir reconhecimento, pedido de desculpas, reparação. Numa tradição milenar muito antiga, à ofensa e à agressão, era legítima uma resposta proporcional: olho por olho, dente por dente. A tradição rabínica já tinha introduzido uma grande novidade: perdoar até três vezes. Pedro, quando pergunta a Jesus se deve perdoar o irmão «até sete vezes», já está a aumentar o número. E o número sete já diz uma plenitude. Jesus multiplica, em sua resposta, o número sete: «Não te digo até sete vezes, mas setenta vezes sete».

A resposta do Senhor é mais do que uma conta de multiplicar. Setenta vezes sete não quer dizer 490, mas sempre. O sentido da resposta subverte a lógica matemática para nos colar na lógica do dom. Sim, o perdão é dom, vem como graça do profundo de nós mesmos. Apaga a dívida devida e oferece a promessa de dar continuidade à relação. O perdão é puro dom. Não pode ser exigido, é sempre oferecido. O Senhor está a dizer-nos: Não permitas que a lógica da represália e do ressentimento dominem o teu sentir. Porque semeia veneno e pode destruir para sempre a relação. Há que curar o que está ferido. O perdão é essa capacidade de curar o ferido. Como nos alerta o Livro de Ben-Sirá (I Leitura), «o rancor e a ira são coisas detestáveis».

Sim, o perdão é oferta de um recomeço, um dar futuro à relação ferida. É pura graça. Mas reconhecemos, com profunda humildade, que para vencer a lógica do ressentimento e do rancor com a pura graça (dada) do perdão, um longo caminho precisamos de fazer. Uma longa conversão através de uma profunda luta interior. Ninguém chega à oferta do perdão sem curar o veneno interior do seu rancor e do seu ressentimento. E isso cura-se pedindo e desejando intensamente o dom de ser capaz de perdoar. Para que sejamos capazes de perdoar, precisamos de pedir intensamente essa graça ao Senhor. Porque só o Senhor nos pode capacitar para perdoar a quem nos ofendeu.

Entremos na parábola narrada no evangelho de hoje: Um servo deve ao seu senhor dez mil talentos, ou seja, 170 toneladas de ouro. Uma dívida enorme. Suplica e pede um prazo para pagar. O seu senhor, cheio de compaixão, deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. Foi muito além do que lhe pediu. O perdão é dom, e um dom que acrescenta. Dom que brota das entranhas da compaixão. Este homem, agora livre e perdoado, logo que encontra um companheiro seu, como ele também servo, que lhe devia a insignificância de cem denários, trinta gramas de ouro, obriga-o a pagar, apertando-lhe o pescoço. Sublinhamos a comum condição de servos. A desproporção entre a dívida de um (10.000 talentos) e a do outro (cem denários). O grito suplicante do primeiro em relação ao silêncio do segundo que não grita nem pede prazos. Mas como pode um homem gritar estando a ser sufocado? Até o grito lhe foi tirado.

Esta escandalosa desproporção é espelho de nós mesmos. A lógica do perdão corre o risco, em nossa espiritualidade e vivência cristã, de ser compreendida e vivida apenas num sentido, como interesse pessoal. Apenas em nosso exclusivo benefício, sem consequências sociais exteriores. A parábola ensina-nos que o perdão pedido e recebido deve dar forma à nossa vida e às nossas relações. Somos todos dependentes. O perdão dado, da nossa parte, é uma forma de renovação das relações sociais. Cura feridas, perdoa dívidas que nunca conseguiremos pagar. Somos todos devedores em relação ao Senhor e em relação uns aos outros. Os últimos Papas têm apelado ao perdão da dívida dos países pobres por parte dos países ricos. Em vão. A política internacional dos países ricos em relação aos países pobres está cada vez mais dominada pela ambição, pela ganância, pela conquista através da força, ignorando a dimensão solidária. Mas sem ir tão longe, perguntemo-nos, tirando consequências pessoais do evangelho de hoje: Que dívidas concretas, contabilizadas em dinheiro, poderei eu perdoar a empregados meus, a familiares, a pessoas que estão a dever-me?

«Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor.» Esta passagem da Carta aos Romanos, hoje lida, insere-se num contexto mais vasto em que Paulo refere a diversidade de estilos de vida, de dietas alimentares e de opções concretas, próprias de cada pessoa e que, comparadas, parecem opostas. É isso mesmo: não há uma forma única de vida cristã. Cada vida pessoal é uma forma concreta de resposta ao evangelho, através da dieta, da afetividade, da gestão económica, da partilha e da interioridade orante. As opções próprias de cada um(a) são inteiramente válidas e nunca comparáveis, se tomadas em consciência, com liberdade interior, e «para o Senhor». Pela sua diferença, por vezes abissal, em relação a nós, não consideremos o irmão menos santo, mais relaxado ou menos espiritual por não ter as nossas opções ascéticas ou não comungar da nossa sensibilidade espiritual. A expressão «Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor», em seus polos extremados de viver e morrer, diz-nos que toda a nossa vida pertence ao Senhor. Para Ele, tudo o que vivemos, somos e fazemos, as grandes opções e os gestos quotidianos. Louvado seja o Senhor pela nossa vida e pela nossa morte. Pois não vivemos para nós mesmos, mas para o Senhor.

Queridas Irmãs, queridos Irmãos, querida Comunidade: Estamos a recomeçar os ritmos normais da nossa vida comunitária. Agradeço a Deus a vossa presença, a vossa generosidade e a vossa fidelidade a esta comunidade. Sois um dom que me é continuamente dado. Que, no meio das nossas fragilidades e limites, o Senhor nos conceda a graça de continuarmos a ser dom uns para os outros.

Pe. António Martins – Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum