Queridas Irmãs e queridos Irmãos

Estamos a ser atingidos pela canícula do verão, o imenso calor que condiciona o nosso viver quotidiano e faz sobressaltar o país com aumento de incêndios. Toda a vigilância é pouca. Precisamos de ter à mão uma garrafa de água fresca, para não desidratarmos. Ou então, o recurso das praias e das sombras, pois o sol queima e seca tudo. Já vivemos com sabor a férias, em dispersão pelo País e pelo estrangeiro. Que este tempo de verão, solto, informal, descontraído, por vezes sem programa, ou intenso em contactos e visitas, nos ajude dar uma maior vitalidade relacional à nossa vida, a reforçar laços familiares e de amizade. A vivermos de outro modo a nossa experiência espiritual em alguns campos de férias, ou peregrinações, ou retiros. Possam as férias de verão ajudar ao reencontro connosco mesmos. Dêmos tempo ao cultivo da nossa interioridade. Encontremos tempo para o descanso do coração na oração, na leitura com tempo, na visita a monumentos que nos falam da memória cristã.

O evangelho de hoje é um convite a fazermos férias com Jesus; a fazermos férias em Jesus. Ou seja, após o cansaço dos nossos ritmos violentos de trabalho, das respostas aos compromissos que diariamente somos obrigados, do quotidiano quase mecânico dos gestos repetidos, do desencontro familiar, em casa, com horários pessoais tão diversificados, o Senhor diz-nos: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei». Sim, andamos cansados do nosso trabalho, dos ritmos acelerados em que todos vivemos. Andamos cansados da incerteza do mundo e da política internacional, da paz adiada e dos acordos de paz violados. Andamos cansados de políticas que não têm em conta as necessidades concretas da nossa vida quotidiana, nem perspetivam o futuro. Andamos cansados até de nós mesmos, em nossas crescentes fragilidades e disfuncionalidades orgânicas. E o Senhor nos diz, numa palavra tão pessoal e tão consoladora: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei».

«Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve». Entremos, sempre de novo, na escola do discipulado de Jesus, em que somos sempre principiantes: «aprendei de mim». Aceitemos o seu «jugo» que é libertador e suave; não impõe, propõe desafios à nossa liberdade, no possível das nossas respostas. Por vezes a sua palavra é exigente, «deixar tudo para o seguir», «amar a Cristo mais do que o pai, a mãe, o irmão, a esposa», «aceitar a cruz de cada dia e segui-lo», levar apenas duas túnicas para a viagem. O seu evangelho tem dimensões de extrema exigência. Mas hoje é de profunda consolação: «aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, encontrareis descanso para as vossas almas».

Com a linguagem de Paulo, a nossa existência humana pode cumprir-se como resposta em duas dimensões contrárias: Num estilo de vida meramente centrada na satisfação dos interesses e desejos pessoais, num modo de viver puramente egoísta e autocentrado em si mesmo, o viver «segundo a carne». Ou num estilo de vida cumprida no dom de si, na abertura ao sopro do Espírito, ao sopro que nos vem das entranhas de Deus, ao sopro da respiração de cada ser vivente e de cada ser humano em concreto, a vida «segundo o Espírito». Uma vida atenta à respiração dos outros; uma vida que sabe que na morte se cumpre a força ressuscitadora da vida de Deus em nós que é o Espírito Santo: «Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós».

Os nossos corpos mortais podem ser templo de «vida segundo o Espírito». É esta alternativa de vida que marca a identidade da existência cristã: fazer do dom da vida recebida dom de si mesmo, entrega fecunda, serviço libertador, cuidado e proximidade por quem sofre. Com todo o nosso ser podemos ser expressões da vitalidade do sopro de Deus em nós, o seu Santo Espírito: «Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis». Esta é a escolha que nos faz evangelicamente viver evangelicamente. Dando corpo a uma vida bela e fecunda.

Queridas Irmãs e queridos Irmãos, encerramos hoje mais um ano pastoral. Fecundo e criativo. Graças a Deus e a todos vós, a nossa Comunidade da Capela do Rato está viva e ativa, e continua a cumprir-se numa fidelidade criativa à sua memória histórica. Num diálogo crítico com as realidades atuais, continuamos a interpretar a realidade à luz do evangelho e da doutrina social da Igreja. Acolhemos vozes que nos ajudaram a compreender melhor a crise da habitação em Lisboa e o complexo problema da integração de imigrantes. A questão da guerra e da paz, da política internacional e do apelo constante à paz dos últimos Papas está no nosso coração e na nossa missão. Na fidelidade à memória da vigília da Capela, acreditamos sempre que a paz é possível. E é uma opção a começar por nós. Cumprimo-nos em mais uma edição do Curso «Filosofia, Literatura, Espiritualidade», este ano dedicado à alegria. E já estamos a desenhar a edição do próximo ano. Fizemos um inquérito para sabermos as razões de quem nos procura. Já temos a síntese desse relatório que nos ajudará a refletir e agir sobre o futuro da nossa Comunidade.

Um dos aspetos mais fecundos e inovadores na vida da nossa Comunidade, este ano, foi o espaço e tempo que dedicamos à arte e à espiritualidade; ou a arte como forma de apelo, de inspiração e de expressão da vida espiritual. A exposição dos painéis «Os pecados capitais» do artista italiano Giancarlo Pavanello ajudou-nos a aprofundar a espiritualidade dos Padres do Deserto, a ler os pecados capitais como grelhas de leituras para as dinâmicas obscuras e possessivas do nosso coração. Tivemos em maio e junho um ciclo sobre «O Espiritual na Arte» que aqui cruzou experiências estéticas e espirituais de diversos artistas, como testemunhos de como a sua arte é expressão de inquietação e de procura espiritual. Este caminho, ligando espiritualidade, e beleza e arte contemporânea, é para dar continuidade no próximo ano. Fizemos uma bela e fecunda aventura de maturidade e de encontros transversais. E projetamos a Capela do Rato para além do habitual.

E estamos prontos para dar corpo (corpo no terreno, ao vivo, de corpo inteiro) ao projeto de peregrinação deste ano: «Por terras da Irlanda. Em memória do monaquismo celta». Todos bem sabeis que tudo isto é para dar cumprimento aos sonhos do Capelão, de visitar lugares densos da memória cristã, onde a experiência cristã se cumpriu nos mais diferentes estilos e nas formas mais ousadas e loucas. Para nós próprios nos consolidarmos na nossa (pessoal) aventura existencial cristã, numa Igreja que, por ser católica, acolhe e integra a diversidades das experiências, dos povos e das cultuas. Preparamos com competência científica esta peregrinação ouvido as vozes autorizadas do P. Peter, da Professora Doutora Luísa Leal de Faria e de D. Manuel Clemente. Os seus contributos podem ser (re)vistos nas gravações da Capela do Rato. Somos 37 pessoas peregrinando pela Ilha Esmeralda. Na beleza da paisagem, com promessa de chuva todos os dias. Rezemos uns pelos outros, para que a peregrinação se cumpra na alegria, na unidade e saúde do grupo, na fecundidade espiritual de cada um. Partimos quarta de manhã cedo. Ai Jesus!, que os despertadores sejam nossos aliados…

Pe. António Martins – Homilia no XIV Domingo do Tempo Comum

PAUSA ESTIVAL

A Capela do Rato encontra-se em pausa estival, reabrindo a 13 de setembro, com a Eucaristia às 11h30.

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