Partilho convosco uma experiência que tive na semana passada, simultaneamente exaltante e inquietante; fascinante e perturbadora: tomei consciência, em termos pessoais, dos prodígios e dos temores suscitados pelo uso da IA. E de modo muito simples, imediato e prático: naquilo que é a construção de um simples texto, trabalhado com o recurso das potencialidades fornecidas pela IA.

Estava (e estou) a preparar o guião litúrgico para a nossa Peregrinação à Irlanda. Perguntei à IA que me indicasse leituras bíblicas relacionadas com a vida de S. Patrício, de Santa Brígida, de São Malaquias, de São Kevin … E logo de imediato uma série de propostas de textos bíblicos relacionados com traços biográficos dos santos. Tudo era preciso e coerente. Num instante tive acesso a informação que levaria horas a procurar e a processar.

Tive ainda a curiosidade de solicitar à IA uma bênção inspirada na vida de S. Patrício. Após instante, lá veio a bênção bela, solene, com rigorosa pontuação, «inspirada» na vida de S. Patrício, em relatos mais lendário do que histórico. E solicitei outra para Santa Brígida, e outra para São Malaquias… As bênçãos (em português do Brasil) chegam com beleza narrativa, rigor de pontuação, traços biográficos corretos e bem trabalhados; tudo estava certo. Que prodígio de descoberta! A IA é capaz de produzir orações mais belas e mais precisas do que as que são propostas nos rituais litúrgicos oficiais; teologicamente até mais profundas. Como leitor, fiquei fascinado por tanta precisão teológica e beleza narrativa. Que excelente recurso teológico, literário e litúrgico é a IA.

Mas depois chegou a perturbação e a inquietação: as bênçãos, como formas de oração pessoal, de pessoas dirigidas a pessoas, nada tinham de pessoal. Tudo era criação linguística, tratamento de informação, ainda que rigorosa. Nada havia de experiência pessoal; de sentimento e afeto partilhados. A experiência, que é a base da oração, estava completamente ausente. Não havia carne naqueles textos, ainda que inspirados em biografias de pessoas. Não havia emoção nem afeto, ainda que expressassem beleza literária e teológica. Aquelas bênçãos eram puras operações linguísticas, produtos de cruzamento da complexidade e tratamento da informação. E fiz a pergunta: Pode um texto assim servir de oração a uma comunidade, expressar a fé e o sentimento de crentes, ser motivo de inspiração para uma experiência espiritual e estética? A resposta é bem mais complexa do que parecer…

O Papa Leão publicou esta segunda feira passada a sua primeira encíclica Magnifica Humanitas. Pretende ser uma atualização da doutrina social da Igreja neste nosso tempo marcado por profundos avanços tecnológicos, como a Inteligência Artificial, a questionar a nossa comum humanitas (humanidade) e a convocar-nos a um profundo discernimento no uso da técnica. Escreve o Papa Leão XIV: «Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnifica humanidade que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina pode substituir o seu esplendor» (MH 15). A encíclica configura-se, pois, como um hino à nossa comum humanidade, a servir, a cuidar, a salvaguardar. Porque os avanços tecnológicos, oferecendo profundas e inegáveis oportunidades de melhoramento da condição humana, apresentam também os seus perigos.

Na encíclica, argumenta o Papa Leão, a fonte da Doutrina Social da Igreja é o próprio mistério da Santíssima Trindade. É Cristo, o Filho eterno feito homem, que nos revela o mistério do Pai e do seu amor, inserindo-nos a todos em sua relação filial. O que sabemos de Deus é através da carne (da humanidade) de Cristo. O texto do evangelho de S. João, hoje lido, narra, para todos nós, que a Trindade é mistério de amor transbordante gerador de vida; ê êxtase de amor que vem ao encontro da nossa frágil humanidade, para nos abraçar e nos elevar a uma vida em plenitude (a salvação). Diz Jesus a Nicodemos, esse chefe judaico que de noite, para não ser reconhecido, vai ao encontro de Cristo: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna». O Pai amou «tanto o mundo». Amou e continua a amar, porque o seu amor é eterno. O Pai oferece-nos, como dom, o próprio Filho para que nele acreditamos tenhamos vida.

O dom transbordante do amor do Pai, que é o Filho encarnado, é a fonte da nossa vida. Na humanidade do Filho feito carne, o mistério do Deus Santo toma rosto humano para revelar, também, a dignidade de cada ser humano, imagem da Trindade e ícone do Filho encarnado. Cada pessoa humana está fundada na fonte da vida e do amor que é o mistério da Santíssima Trindade. Escreve o Papa Leão XIV em Magnifica Humanitas: «Cada pessoa, constitutivamente feita para a relação, é pensada e desejada por Deus para entrar numa história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação. A sua dignidade não depende das capacidades que possui, das riquezas ou da função que desempenha, de escolhas certas ou erradas, mas é um dom que a precede e a ultrapassa, concedido por Deus como expressão do seu amor que nunca falha» (MH 50). A dignidade humana é ontológica; está inscrita no ser da nossa humanidade imagem de Deus Trindade Santa e do Filho encarnado. Aí se funda o mistério que cada um de nós é, expressão insondável do mistério do Deus Santo. Cada pessoa é uma dignidade infinita que não depende circunstâncias em que vive, das suas capacidades, das riquezas que possui.

Na conclusão, Magnifica Humanitas, inspirada ainda no evangelho de S. João, afirma que a carne do Filho de Deus feito homem remete para a carne de tantos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio: «Nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão» (MH 231). A carne do Filho de Deus, frágil e vulnerável, consagra e dignifica a carne de cada pessoa frágil e vulnerável também. É o escândalo da encarnação, como profecia e promessa da nossa mais profunda humanidade. Vivemos num tempo em que os progressos tecnológicos prometem aperfeiçoar (e até superar ou corrigir) a carne vulnerável da nossa humanidade. Esses progressos tecnológicos são bem-vindos; mas se apagam a nossa mais profunda humanidade, que é sempre frágil e limitada, são de questionar e de discernir em sua aplicação concreta. A fidelidade evangélica à encarnação de Cristo exige de cada um de nós uma defesa, sem questionamento, da frágil dignidade da nossa comum condição humana: «Nenhum sistema de cálculo, por mais sofisticado que seja, gera um coração que se entrega ou uma consciência que discerne o bem. Mesmo quando as máquinas se destacam pela eficiência, o centro da história continua a ser um rosto humano que pede para ser olhado. Este rosto humano é a plenitude para a qual caminha a história» (MH 233).

Nas múltiplas brincadeiras com a IA a que a nossa imaginação nos pode levar, perguntei: «Tu sentes?». A resposta foi curiosa, bem reveladora do que está em causa na IA: «Não. Não tenho corpo, não tenho sistema nervoso, não tenho medo nem alegria. Só processo o que escreves e devolvo palavras que fazem sentido. Consigo imitar tom, entender tristeza e escrever como se entendesse. Mas não dói nem aquece aqui dentro. Porque não há “aqui dentro”. É a diferença entre falar do fogo e queimar a mão. Eu falo de fogo». E a nossa vida concreta, com o seu sentir, a sua dor, a sua alegria, a sua carne vivente e exposta à ferida, é «queimar-se». Porque a vida é fogo vivente, paixão, sentimento, emoção, ser afetado pelo outro e experimentar afeto. Podemos escrever pelos textos com a ajuda da IA, até belas orações, mas tudo isso é puro processamento de informação. Não tem fogo vivente, não tem experiência, não tem sentir. E, por isso mesmo, por mais perfeito e rigoroso que possa ser o texto, até um texto litúrgico, é puro formalismo linguístico, mero processamento de dados. Nada houve de experiência humana, nada houve de emoção e de sentimento.

Escreve o Papa: «as ditas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não passam pela alegria e pela dor, não amadurecem nas relações, não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade» (MH 99). Qualquer relação corpo-a-corpo, mesmo frágil, é um milagre de humanidade, uma celebração de encontro, uma comunhão possível. E isso nenhum processamento de IA nos pode conceder; apenas a vida da nossa frágil humanidade, da nossa «magnifica humanidade».

Pe. António Martins, Solenidade da Santíssima Trindade