«O Senhor é meu pastor: nada me falta». Sentimo-nos sempre consolados, envolvidos por uma profunda esperança e ternura quando rezamos os Salmo 23, um dos mais belos e profundos. Toda a nossa vida recupera confiança, força vital, vontade de continuar: «Ele me guia por sendas direitas por amo do seu nome. Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo». O cajado do Pastor nos apoia e assegura. Mesmo pelos caminhos do perigo, por entre vales e ravinas, silvas e escarpas, matagais e penhascos agrestes. A nossa vida inteira está assegurada pela ternura e pela bondade do Bom Pastor: «A bondade e a graça hão de me acompanhar-me todos os dias da minha vida».

Cristo, no evangelho de João, atualiza e aplica a si mesmo a condição de bom pastor. Pastor que guia o rebanho, conhecendo cada ovelha e chamando-a pelo próprio nome; guiando as suas ovelhas com ternura, cuidado e profunda atenção: «Eu sou o bom pastor». Como os diz a Primeira Carta de Pedro, o Senhor ressuscitado, primogénito de entre os mortos, é o Pastor das nossas vidas, o guarda dos nossos corações, a porta por onde a nossa vida se renova e a Igreja renasce. Somos continuamente chamados por um apelo de ternura. Em Cristo, Bom Pastor, somos destinados a uma plenitude de vida que, permanentemente, se derrama por nós: «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância». O Senhor nada nos rouba; tudo nos oferece: «vida em abundância»; «nada me falta». De nós cuida com ternura e guia os nos passos pelo caminho da vida autêntica.

Neste dia do Bom Pastor, as comunidades cristãs são chamadas a rezar pelas vocações na vida da Igreja. Antes de mais, para que surjam homens e mulheres que aceitem e reconheçam, agradecidos, ser filhos e filhas de Deus, renascidos na fonte do batismo. Essa é a nossa primeira vocação, a vocação fundamental, na qual cabem todas as demais, concretizações específicas da nossa comum vocação de batizados. Cuidemos da nossa vocação comum. Peçamos ao Espírito Santo, fonte de todas as vocações, que suscite na Igreja, e em nós, vocações específicas e fecundas, à vida matrimonial, à vida laical no coração do muno, à vida religiosa, ao ministério sacerdotal. Rezemos pelos nossos pastores, o Papa Leão, os nossos bispos a nível de Diocese. Rezai continuamente por mim, para que a minha fragilidade não seja obstáculo a um ministério fecundo para vós e convosco.

Faz hoje, precisamente, um ano, assistíamos, comovidos e agradecidos, às exéquias do Papa Francisco, na Praça de S. Pedro, e à comovente despedida da Cidade de Roma ao seu bispo, na última viagem do Papa defunto para Santa Maria Maior, onde foi sepultado. Recordaremos sempre o Papa Francisco como o Papa da ternura, da misericórdia, da denúncia desta economia de puro lucro que mata, do grito pela paz enquanto o mundo se rearmava. Porque a guerra, qualquer guerra, é sempre uma derrota para a Humanidade. Porque o nosso destino último é sermos todos irmãos, fratelli tutti.

A Páscoa do ano passado foi, para mim, uma Páscoa de páscoas. Enquanto rezava pelo Papa defunto, acompanhava, dia após dia, minha Mãe no seu acabamento existencial. Faleceu no próprio dia do funeral do Papa Francisco. Nunca me esquecerei: tentava seguir, por telemóvel, as exéquias, enquanto acertava data e hora das exéquias da Mãe. Páscoa de páscoas, e tudo é Páscoa. Na liturgia e na vida. Hoje, um ano após, eu e a minha Irmã, e outras pessoas amigas, fazemos memória da Mãe Inácia, no dia definitivo do seu natal que foi também a sua última páscoa. Atravessou na morte a porta da vida que é Cristo, aos ombros do Bom Pastor, conduzida aos prados verdejantes e às fontes da vida eterna.

A Mãe era exímia a remendar o esburacado; a cozer o que estava roto. Aprendeu, desde pequena, na humildade da casa paterna, que a roupa é frágil, pode rasgar-se e, por isso, é sempre necessário ter muito cuidado. Aprendeu com sua mãe a arte de bem cuidar da roupa. Nas longas noites de inverno, fazia renda, tecendo belos desenhos geométricos ou florais com linhas de várias cores. Para mim e para minha irmã fez um enxoval de rendas e naperons, para mesas de cabeira, cómodas, cristaleiras, mesas de jantar… Nas suas mãos, os rasgões das minhas calçadas ou camisas eram reparados e cosidos. Evoco hoje esta dimensão artesanal da Mãe para a relacionar com a tapeçaria de Sara Amado, exposta na Capela.

A tecelagem, o bordado, fazer malha é uma arte antiga, tipicamente feminina. Para calar e ocupar as mulheres. Mas estas fizeram da tecelagem e do bordado uma arte de se cumprirem com imaginação, beleza e delicadeza. Na tecelagem inventaram uma linguagem silenciosa, a arte de cruzar e entrelaçar linhas e lãs tecendo, dando textura ao tecido, quais Penélopes de todos os tempos que fiam e tecem os fios da vida. Juntamente com a arte do bordado e da tecelagem, aprenderam a arte de remendar, cerzir, reparar e coser rasgões. Arte artesanal, bem manual. Metáfora dessa arte existencial, própria de cada pessoa, que é tecer a própria vida no tecido das relações, dos afetos e dos encontros. De certo modo, todos somos tecelões e tecedeiras.

Mas bem sabemos que, por circunstâncias várias, o tecido das nossas relações pode ser rasgado. Pelas silvas e pelos inesperados galhos que se travessam no caminho. É preciso unir pontas, cerzir, apanhar malhas, reparar o roto, coser o rasgado. Tarefa paciente e humilde, sempre pessoal, própria de cada um(a) de nós. Que seria de nossas vidas se as malhas soltas não fossem apanhadas, ou se os rasgões não fossem cosidos? Os buracos e os rasgões continuam a aumentar. Podemos ler no Livro do Profeta Isaías: «Como tecelão, eu tecida a minha vida, mas cortaram-me a trama» (Is 38,12). Somos tecedores de nossas vidas; mas a trama pode ser violentamente cortada a qualquer altura. Por vezes não temos outra alternativa se não continuar a tecer com outras linhas, de outras cores. Aceitando a descontinuidade, a desarmonia, o retalho. A imagem da trama cortada pode ser metáfora da doença e da morte.

Na parábola do filho pródigo, narra-nos São Lucas que o pai reveste o filho mais novo chegado a casa, após ter percorrido os caminhos da perdição, guardando porcos e alimentando-se de boletas. A sua velha veste certamente cheia de rasgões, símbolo da sua vida descontinuada, é substituída pela «melhor túnica»: «Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha». Somos revestidos com a túnica batismal de filhos e filhas muito amados. Rasgados e recosidos em nossas túnicas existenciais, somos revistados com a túnica nova da ressurreição. Somos cosidos pelo perdão que ressuscita e nos devolve a paz.

Pe. António Martins, Homilia do IV Domingo da Páscoa