Nos 800 anos de S. Francisco de Assis, Sara Amado expõe, na Capela do Rato, uma tapeçaria alusiva ao seu hábito, intitulada «Entre a Palavra e o Corpo». «É a resposta à última parte da oração-poema do santo de Assis, em que se evoca a “irmã morte”. Chamei-lhe “vida” — porque procurei suspender a morte tecendo a vida», explica a artista. A exposição integra-se no ciclo de quatro sessões dedicadas a O Espiritual no Desenho, moderadas pelo artista Mário Linhares.

 

Entre a Palavra e o Corpo

Em Assis, durante muito tempo, desenhei o hábito do santo e conheci-o através do tempo único que é o do desenho. Em cada remendo da túnica, vi a vida dura do corpo de São Francisco e o cuidar delicado das mãos de Santa Clara, que, assim, a redesenhou. Diz-se que, quando era preciso remendá-la, para além de a cerzir, Santa Clara usava tecido do seu próprio hábito. Como quem dá a vida.

O desafio de desenhar em tecido o Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis, levou-me, em primeiro lugar, à palavra. Porque a origem de “texto” e de “tecido” se entrelaça (textum é raiz de texto e de tecido). E, porque, primeiro, era o Verbo.

Comecei então por experimentar os gestos em volta do tecido: envolver, atar, cobrir, suspender; rasgar, dobrar, amachucar, preguear, plissar, vincar; tingir, corar; alinhavar, bordar, passajar, desfiar, coser, casear, remendar, cortar; puxar fio; tecer.

Neste caminho, tornou-se claro que, de todas estas ações, deveria começar pela subtração. Como
Francisco, não acrescentar, mas retirar. Desfiar, para ser mais sendo menos.

Depois, por entre o passajar do texto, encontrei também lugares para agir, para construir. Tecer, para fazer mais com muito pouco.

A peça final do conjunto que desenhei ganha, aqui, na Capela, um novo significado pela sua posição entre o Altar-mor e o Sacrário.

É a resposta à última parte da oração-poema do santo de Assis, em que se evoca a “irmã morte”. Chamei-lhe “vida” — porque procurei suspender a morte tecendo a vida.

Esta linha da vida, branca e contínua — num vai-e-vem de máquina de escrever — é, a todo o momento interrompida, desviada, intercetada. Em determinada altura, deixa de fazer tecido, mas continua a fazer caminho.

Neste altar, entre os fios que tirei e os fios que teci — entre a Palavra e o Corpo —, a peça compõe um tríptico, onde se evoca o difícil equilíbrio que procuramos: retirar ou acrescentar?

Sabe-se que o têxtil foi, historicamente, uma forma de calar as mulheres. Ao mesmo tempo, nesses bastidores, elas fiaram uma linguagem própria e teceram uma rede de histórias. Eu segui-lhes os gestos, entre a palavra e o corpo, puxando o fio que Francisco me lançou com esta oração.

 

Nota biográfica de Sara Amado

Sara Amado nasceu em Lisboa. É mãe de três rapazes. É arquiteta, dá aulas de desenho e projeta em diferentes áreas, como arquitetura, cenografia, figurinos, design, ilustração e artes plásticas. Especializou-se na consultoria e curadoria de álbuns ilustrados a partir da criação do site www.prateleiradebaixo.com.