Com a celebração do Domingo de Ramos, começamos a Semana Santa. O Senhor entra em Jerusalém e é aclamado Rei e Messias: «Hossana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor!». Uma explosão de alegria, uma festa do povo, espontânea, desorganizada. Um pouco carnavalesca até. Com um traço de ironia subversiva. Crianças a trepar árvores, a arrancar ramos. Pessoas a estender capas pelo chão. Saltos de alegria, aclamações, corpos soltos em liberdade. Uma jumenta e um jumentinho e o Senhor montado nele, qual rei sem poder. Um rei desconstruído que aparece na forma ridícula de um anti-rei: «Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho de uma jumenta’». A festa dos ramos, podemos dizer, é a celebração humorada da humildade, a desconstrução irónica da soberba presente em todos os egos exaltados.
Nas nossas meditações sobre os «pecados capitais», chegamos hoje à soberba, ou ao orgulho, aquele que mais nos afasta de Deus. É o pior dos vícios, porque nos coloca no lugar de Deus e, por isso, nos priva da sua graça. O orgulho é o pecado das pessoas autossuficientes, intocáveis na sua arrogância, incapazes de se pôr em questão e de aceitar críticas. Tudo o que fazem é bem feito; tudo o que os outros fazem é mal feito. Colocam-se no lugar de Deus no imediatismo arrogante do seu moralismo, sempre a julgar negativamente os outros. A pessoa orgulhosa julga-se a única dotada de qualidades e competências: todos os outros à sua volta são imbecis. A pessoa orgulhosa é apaixonada por si mesmo, qual Narciso que adora a sua projeção nas águas e nelas se afoga, porque não vê mais ninguém além de si. O pecado da soberba é aquele que está na origem de todos os pecados: não reconhecer os próprios limites, ignorar a sua frágil humanidade, e quer ser como deus (cf. Gn 3,5).
O autor dos painéis Loghismoi, Giancarlo Pavanello, propõe o seguinte texto para a soberba, o pecado que está mais longo da fonte da graça que é a eucaristia: «Um gigante surdo-mudo e cego, rei da sombra, herói na lama do próprio eu. Uma toupeira que se julga águia. Mas Deus apaga o céu por um instante, para não o ver e não assistir à sua queda». A pessoa soberba ou orgulhosa, «rei da sombra, herói na lama do próprio eu». «Uma toupeira que se julga águia». Alguém a quem Deus recusa ver…, por um instante, pois no orgulhoso não há espaço para Deus (para alteridade); apenas chafurda na lama do próprio eu. Diz do orgulhoso o Papa Francisco: é alguém «que julga facilmente e com desdém». «Percebemos que lidamos com um orgulhoso quando, fazendo-lhe uma pequena crítica construtiva ou uma observação completamente inofensiva, ele reage de modo exagerado, como se alguém tivesse ofendido a sua majestade: fica furioso, grita, interrompe relações com os outros de maneira ressentida».
S. Bernardo de Claraval escreveu, no século XII, um tratado sobre a humildade e a soberba, como guia prático para os seus irmãos monges. Diz do orgulhoso: «Nas reuniões sente-se o primeiro. Nas deliberações adianta-se a dar a sua opinião e o seu parecer. Apresenta-se onde não o chamam. Mete-se no que não lhe diz respeito. Reordena o que está ordenado e refaz o que está feito. O que as suas mãos não tocam, não está bem nem no sítio certo» (Tratado sobre os graus da humildade e da soberba XVI,44). O remédio para a soberba e para o orgulho que tantas vezes nos cega é o abraçar, com humildade, a própria miséria, conhecer-se a si mesmo(a) em seus limites, fragilidades e incapacidades. «Aquele que sinceramente deseje conhecer a verdade própria de si mesmo, deve tirar a trave da sua soberba, porque impede que os seus olhos conectem com a luz. E imediatamente terá que dispor-se a ascender dentro do seu coração, observando-se a si mesmo em si mesmo» (Tratado sobre os graus da humildade e da soberba III. 15).
O próprio Senhor nos ensina o caminho pascal de passar da soberba e da arrogância de si à humildade, ao reconhecimento da própria miséria e da miséria dos irmãos, abraçando-os com compaixão em suas debilidades, que são também as nossas nossas. O hino da Carta aos Filipenses, hoje lido, proclama o despojamento do Senhor que não se apropriou egoisticamente da sua condição divina, mas se esvaziou e se abaixou, assumindo a nossa condição humana. O Senhor assumiu por inteiro a nossa frágil humanidade. No esvaziamento consentido do Senhor, reconheçamos a nossa arrogância, as nossas ideologias intransigentes, as nossas tentações moralistas, os nossos dogmas acusatórios de imediatas excomunhões para quem não pensa como nós. À luz do abaixamento do Senhor julgamos também todas as expressões arrogantes e narcisistas do exercício da autoridade. Que as palavras do Senhor nos provoquem, nos desconcertem, nos interroguem e nos convertam: «Quem se exalta será humilhado, que se humilha será exaltado» (Mt 23,12).
No final da última ceia, a caminho do Monte das Oliveiras, o Senhor alerta os discípulos (e a nós também) para a eminência da traição, no meio do perigo, em que a nossa própria vida pode estar em risco. Na narrativa da paixão do Senhor acrescentamos a nossa própria narrativa. É para nós e de nós que o evangelho fala. «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa». O mesmo é dizer: «Todos vós, esta noite, me abandonareis e me traíreis». Em sua arrogância de quem se sente superior e intocável, Pedro afirma o seu incondicional seguimento do Senhor: «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei». Acha-se seguro, pronto a seguir o Senhor até à cruz. O orgulhoso Apóstolo ainda não conheceu a fundo a sua própria miséria, o abismo da sua fragilidade. «“Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei”. E o mesmo disseram todos os discípulos. Na afirmação pronta de Pedro e de todos os outros discípulos vemos todas as nossas declarações de fidelidade, todas as nossas belas teorias sem base real, todas as nossas ideias fantasiosas. A realidade, mais cedo ou mais tarde, encarregar-se-á de nos desconstruir e de nos desmontar.
Em breve Pedro fará a sua dura experiência de ser como os outros, traidor, inconsistente, mentiroso, fugitivo, a esconder-se, negando Cristo e a si próprio. Também ele assustado perante o perigo de morte e de ser perseguido e condenado como Jesus. Pedro trai o Senhor e trai-se a si próprio. A sua soberba e o seu orgulho são aqui completamente desfeitos, porque eram pura ideologia, cegueira de si mesmo. «Tu também estavas com Jesus, o galileu»/«Não sei o que dizes». «Este homem estava com Jesus de Nazaré»/«Não conheço tal homem». «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia». Começou então a dizer imprecações e a jurar: «Não conheço tal homem». «Não conheço tal homem». Imediatamente um galo cantou. E Pedro chorou amargamente.
Acolhamos com humildade o cantar dos galos, que nos chamam à verdade de nós mesmos, e nos retiram do pedestal da nossa arrogância.
Pe. António Martins, Domingo de Ramos


