Queridas Irmãs, queridos Irmãos

É à luz da Páscoa (e na direção da Páscoa) que percorremos o nosso itinerário quaresmal, revendo as nossas sombras à luz da ressurreição; dando nome ao que nos desfigura, desintegra e aliena, pela Palavra que nos faz viver e ergue. Essa Palavra de vida que continuamente nos ressuscita e no reergue. É da madrugada pascal que recebemos a inspiração para atravessarmos e darmos nome ao noturno das nossas alienações, às permanentes tentações de mal que desfiguram a nossa imaginação, corroem os nossos pensamentos, atormentam os nossos desejos e as nossas relações. Atravessamos, com coragem e humildade, o abismo da nossa interioridade, numa confiança orante: «Do profundo abismo chamo por vós, Senhor (…). Se tiverdes em conta as nossas faltas, Senhor, quem poderá salvar-se? Mas em vós está o perdão para vos servirmos com reverência».

Meditamos hoje sobre a inveja e a vanglória.

A inveja, esse pensamento e sentimento distorcido pelo que o outro tem e é, que eu não tenho nem sou, e gostaria de ter e ser. A inveja revela, antes de mais, uma cegueira ingrata em relação a nós mesmos, essa incapacidade de ver e de agradecer o bem que vem a nós, o bem que somos, as qualidades que temos, a beleza da vida que já vivemos… Incapazes de nos acolhermos a nós mesmos, vemos nos outros o que nos faz falta, e não temos. Invejamos ser o que o outro é, possuir o que o outro possui, viver como o outro vive. Com as palavras do Papa Francisco: «O outro é a epifania daquilo que gostaríamos de ser e que, na realidade, não somos. A sua sorte parece-nos uma injustiça: certamente – pensamos – teríamos merecido muito mais os seus sucessos ou a sua boa sorte!» Na inveja há um terrível défice de autoaceitação, um roer de alma pelo que se não tem, um espalhar veneno silenciosamente nas relações e nos afetos. 

A inveja mata a relação e a fraternidade. Pode fazer de cada um(a) de nós um outro Caim que mara o seu irmão Abel. Levado ao extremo, ao ódio pelo outro, a inveja é um poderoso sentimento suicida e assassino. Mata a própria singularidade, não reconhecida; e a singularidade do outro que, por ódio, se destrói, se calunia, se difama, se arruína em sua reputação. Achamos sempre que a vida, ou Deus, são injustos para connosco, que não nos dão o que merecemos. Impomos a Deus a nossa lógica, esquecendo que a lógica de Deus é o amor e a partilha. A nossa carência e a nossa incompletude, feridas sempre abertas, é certo, libertam-nos da tentação da autossuficiência e colocam-nos na interdependência. O que o outro tem e é vem em socorro da minha incompletude, do que não tenho nem sou. A incompletude e a carência ajudam-me a viver na lógica do dom. Não é uma humilhação, é uma bênção. A bênção da fraternidade e da complementaridade. A bênção de sermos Igreja e humanidade solidária, dependentes uns dos outros. Vivemos tempos de ódios de morte nas relações entre nações, entre religiões, entre empresas concorrentes. Que lugar para uma cultura, para uma política e para uma economia da fraternidade, da complementaridade e da partilha de dons? 

O Papa Francisco traça o retrato psicológico da pessoa dominada pela vanglória: «aspira a ser o centro do mundo, livre de explorar tudo e todos, objeto de todo o louvor e amor. A vanglória é uma autoestima inflada e sem fundamento. O orgulhoso possui um “eu” despropositado: não tem empatia e não se dá conta de que há outras pessoas no mundo para além dele. As suas relações são sempre instrumentais, determinadas pelo predomínio sobre o outro. A sua pessoa, as suas conquistas, os seus sucessos devem ser exibidos a todos: é um perene mendigo de atenção. E se, às vezes, as suas qualidades não são reconhecidas, então zanga-se ferozmente. Os outros são injustos, não compreendem, não estão à altura». Quanta vanglória e narcisismo infantil vemos em certas lideres políticas atuais. Gabarolas das suas conquistas pela força das armas. Pobres mendigos de atenção. Ferozes humilhadores de quem se opõe. E nós, e em cada um de nós? O que há de vanglória nos nossos «egos» inflamados que se sentam nas cátedras da academia, nas cadeiras do serviço público ou das chefias empresariais, ou mesmo nas presidências das eucaristias e nas cátedras epicopais? Quanto ego disfarçado com a mascara da humildade, ou com a máscara da ritualidade! 

A vigorosa imagem de «ressurreição» do Povo de Israel, em tempos de exílio alimentou a sua esperança de se reerguer de novo, como povo que regressa à pátria. Com as palavras de Ezequiel: «Assim fala o Senhor: Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis». Imaginamos, e desejamos, uma «ressurreição» do povo ucraniano, do povo palestiniano, do povo Rohingya em Myanmar, do povo de Cabo Delgado no norte de Moçambique… Não deixamos de colocar uma terrível questão: como pode o governo de Israel, que quer preservar a memória das humilhações e perseguições históricas do povo judeu, provocar, na atualidade, uma brutal guerra de destruição para com o povo palestiniano em Gaza? E, nos dias presentes, todos temos, no nosso quotidiano, os efeitos ataques ao Irão, a desestabilização de todo o Médio Oriente. A guerra é já económica a alterar os preços dos combustíveis e do gás no nosso quotidiano.

Um pároco da Igreja marotina, no sul do Líbano, foi morto por ataques do exército de Israel. O Cardeal de Teerão foi evacuado para o Vaticano. O Santo Sepulcro foi encerrado por decisão das autoridades de Israel. Estão proibidas, este ano, celebrações públicas da Semana Santa em Jerusalém. Rezemos por este resto de cristãos que, com risco e coragem, resistem no Médio Oriente, com perigo de vida. Cristãos de Igrejas antigas que há mais de 1400 partilham com muçulmanos e judeus uma possível convivência. Esta aprendizagem histórica de convivência e mútuo reconhecimento está hoje em perigo, mais do que nunca.

Lembra o Papa Leão: «Do Irão e de todo o Médio Oriente continuam a chegar notícias que suscitam profunda consternação. Aos episódios de violência e devastação, e ao clima generalizado de ódio e medo, junta-se o receio de que o conflito se alargue e outros países da região, entre os quais o querido Líbano, possam afundar novamente na instabilidade». Denuncia o Cardeal Cupich, arcebispo de Chicago: «O nosso governo está a tratar o sofrimento do povo iraniano como pano de fundo para o nosso próprio entretenimento, como se fosse apenas mais um conteúdo para ser folheado enquanto esperamos na fila do supermercado». Com força profética e evangélica, grita D. Mimmo Battaglia, arcebispo de Nápoles: «Aos mercadores da morte, a vocês que fazem negócios com o sangue dos homens, a vocês que contam os lucros enquanto as mães contam os filhos, a vocês que chamam de “estratégia” o que o Evangelho chama de escândalo, dirijo palavras que não nascem da diplomacia, mas da ferida (…). Mas não há segurança onde se semeia a morte. Não há futuro onde os jovens são educados para a suspeita. Não há justiça se a riqueza de poucos se fundamenta no luto de muitos. E não haverá paz enquanto a guerra continuar sendo um investimento aceitável».

No evangelho de João, hoje proclamado, podemos ver as reações tão diferentes, opostas até, das irmãs Marta e Maria perante a morte de seu irmão Lázaro. Jesus, atrasando-se uns dias, quando chega ao lugar já Lázaro está morto. Perante a morte de Lázaro, Marta sai de casa e vai ao encontro de Jesus. É corpo em movimento, iniciativa. Maria, talvez paralisada pela dor e pelo luto, fica «sentada em casa». Ou protege-se. Não tem forças para o contacto público; quer recato e silêncio. Na reação de Marta há um turbilhão incontido de emoções: dor, grito, protesto, acusação, por fim confiança: «tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Marta e Maria dois modos de reagir à morte e ao luto, dois modos onde nos podemos rever. Marta, a dor que leva à ação; Maria, a dor que bloqueia. A corrida para Jesus, mesmo na confusão e no turbilhão contraditório das emoções, é a melhor saída, é a saída da fé e da esperança. Não por caminhos lineares e imediatos. A revolta inicial dá lugar, depois, à confiança. O grito de protesto à pacificação e à consolação. Diz-lhe, diz-nos o Senhor: «todo aquele que vive e acredita em Mim não morrerá para sempre». Esta é a páscoa da fé em que a nossa existência se torna êxodo existencial (saída para fora), no meio de tantas confusões e emoções contraditórias.

«Todo aquele que vive e acredita em Mim não morrerá para sempre».

Pe. António Martins, V Domingo da Quaresma

Giancarlo Pavanello, Loghismoi (Inveja), 2026

Uma serpente de vidro, com língua bífida,
espalha veneno como aerossol químico.
A besta antropomórfica sibila nos bastidores,
rói a alma pela sua penúria, pelo que não tem.
Cada arranhão é arranhar-se a si mesmo.

Ciclo de catequeses do Papa Francisco
Os vícios e as virtudes

A INVEJA E A VANGLÓRIA

Hoje vamos analisar dois vícios capitais que encontramos nos grandes elencos que a tradição espiritual nos deixou: a inveja e a vanglória.

Comecemos pela inveja. Se lermos a Sagrada Escritura (cf. Gn 4), ela apresenta-se-nos como um dos vícios mais antigos: o ódio de Caim em relação a Abel desencadeia-se quando ele se dá conta de que os sacrifícios do seu irmão são agradáveis a Deus. Caim era o primogénito de Adão e Eva, tinha recebido a parte mais importante da herança do pai; no entanto, é suficiente que Abel, o irmão mais novo, alcance um pequeno sucesso, para que Caim se indigne. O rosto do invejoso é sempre triste: o olhar é cabisbaixo, parece que perscruta continuamente o terreno, mas na realidade não vê nada, porque a mente está mergulhada em pensamentos cheios de maldade. A inveja, se não for controlada, leva ao ódio pelo outro. Abel será morto pelas mãos de Caim, que não era capaz de suportar a felicidade do irmão.

A inveja é um mal investigado não apenas no âmbito cristão: chamou a atenção de filósofos e sábios de todas as culturas. Na sua base existe uma relação de ódio e de amor: quer-se o mal do outro, mas secretamente deseja-se ser como ele. O outro é a epifania daquilo que gostaríamos de ser e que, na realidade, não somos. A sua sorte parece-nos uma injustiça: certamente – pensamos – teríamos merecido muito mais os seus sucessos ou a sua boa sorte!

Na raiz deste vício há uma falsa ideia de Deus: não aceitamos que Deus tenha a sua “matemática”, diferente da nossa. Por exemplo, na parábola de Jesus sobre os trabalhadores chamados pelo patrão para ir à vinha em diferentes horas do dia, os da primeira hora julgam ter direito a um salário mais elevado do que aqueles que chegaram por último; mas o patrão dá a todos o mesmo salário, dizendo: «Não posso fazer das minhas coisas o que quero? Ou tendes inveja porque sou bom?» (Mt 20,15). Gostaríamos de impor a Deus a nossa lógica egoísta, mas a lógica de Deus é o amor. Os bens que Ele nos concede devem ser compartilhados. Por isso, São Paulo exorta os cristãos: «Amai-vos uns aos outros com afeto fraterno, concorrendo na estima recíproca» (Rm 12,10). Eis o remédio para a inveja!

E vejamos o segundo vício que hoje examinamos: a vanglória. Ela anda de mãos dadas com o demónio da inveja e, juntos, estes dois vícios são característicos de uma pessoa que aspira a ser o centro do mundo, livre de explorar tudo e todos, objeto de todo o louvor e amor. A vanglória é uma autoestima inflada e sem fundamento. O orgulhoso possui um “eu” despropositado: não tem empatia e não se dá conta de que há outras pessoas no mundo para além dele. As suas relações são sempre instrumentais, determinadas pelo predomínio sobre o outro. A sua pessoa, as suas conquistas, os seus sucessos devem ser exibidos a todos: é um perene mendigo de atenção. E se, às vezes, as suas qualidades não são reconhecidas, então zanga-se ferozmente. Os outros são injustos, não compreendem, não estão à altura. Nos seus escritos, Evágrio Pôntico descreve a amarga vicissitude de alguns monges acometidos pela vanglória. Acontece que, após os primeiros êxitos na vida espiritual, ele sente que já está realizado e então precipita-se no mundo para receber os seus elogios. Mas não compreende que está apenas no início do caminho espiritual, e que a tentação está à espreita e não tardará a abatê-lo.

Para curar o vaidoso, os mestres espirituais não sugerem muitos remédios. Porque, afinal de contas, o mal da vaidade tem o seu remédio em si mesmo: os elogios que o vaidoso esperava receber do mundo depressa se voltarão contra ele. E quantas pessoas, iludidas por uma falsa imagem de si próprias, caíram depois em pecados de que rapidamente se envergonhariam!

A melhor instrução para vencer a vanglória encontra-se no testemunho de São Paulo. O Apóstolo sempre se confrontou com um defeito que nunca conseguiu superar. Por três vezes, pediu ao Senhor que o libertasse desse suplício, mas no fim Jesus respondeu-lhe: «Basta-te a minha graça, porque a força se manifesta plenamente na fraqueza». A partir daquele dia, Paulo foi libertado. E a sua conclusão deveria tornar-se também a nossa: «Por isso, é de bom grado que me orgulharei das minhas fraquezas, para que o poder de Cristo permaneça em mim» (2 Cor 12, 9).

(Papa Francisco, Audiência Geral de 28 de fevereiro de 2024)