Queridas Irmãs, queridos Irmãos
«Alegrai-vos com Jerusalém, rejubilai com ela, vós todos que a amais; regozijai-vos com ela, vós toos os que estáveis de luto por ela. Como criança amamentando-se ao peito materno» (Is 66, 10-11). Aquela cidade tantas vezes sitiada, saqueada, conquista, é restaurada. Volta a viver em pleno. Bebe agora do cálice da alegria. A liturgia católica fez desta passagem o cântico de entrada deste IV Domingo da Quaresma, chamado «laetare», da alegria. Porque o caminho penitencial quaresmal não é penalização nem culpabilização; é rever a vida, reconhecer, com humildade, as próprias sombras. E com maior coragem, ainda, mergulhar na fonte da vida e da alegria que é o Senhor ressuscitado.
Na continuação da nossa reflexão sobre os pecados capitais, dedicamos hoje algum tempo à tristeza e à acédia.
Em diálogo consigo próprio, pergunta o salmista: «Porque estás triste, ó minha alma, e desfaleces?» (Sl 42,12). Precisamos de sondar a origem da nossa tristeza, se é boa ou se é má. Há uma tristeza boa que leva ao reconhecimento dos próprios erros e ao arrependimento. Essa tristeza que vem das perdas de quem amamos, da incompletude da vida, das ausências de pessoas, da consciência dos nossos próprios limites. Mas há uma tristeza má que pode levar ao desânimo. Esta tristeza é consequência de dolorosas perdas não integradas; de amores perdidos que nos aprisionam no passado. E há o perigo de nós mesmos alimentarmos essa tristeza; de termos prazer no não prazer, vivendo, embriagados, a dor do não sentido e o não sabor da vida. Ampliamos o nosso vazio e os nossos lutos. A tristeza torna-se aqui patologia: uma doença do coração que nos rouba o prazer de viver.
Recordamos o que disse o Papa Francisco: «No coração do homem nascem esperanças que, às vezes, são frustradas. Pode ser o desejo de possuir algo que, ao contrário, não se consegue obter; mas também algo importante, como a perda de um afeto. Quando isto acontece, é como se o coração do homem caísse num precipício, e os sentimentos que experimenta são desânimo, fraqueza de espírito, depressão, angústia». Evágrio o Pôntico referia-se a essa tristeza como «sedativo hipnótico», «um verme da carne». Paralisa a alma, a mente, a vontade; debilita o corpo que fica sem forças.
Hoje, com os avanços da psiquiatria, temos uma compreensão mais ampla das doenças mentais. Por isso a tristeza, ligada a doenças mentais, já não pode ser acantonada na categoria de pecado e de culpa. A tristeza, quando prolongada e intensa, pode ser consequência da depressão, do esgotamento das nossas energias físicas e psíquicas. Nas nossas sociedades contemporâneas, marcadas pela eficácia, pela rentabilidade e pela produtividade, pela intensidade do trabalho sem descanso, pela solicitação de uma permanente atenção, pode chegar a depressão, o burn out, o esgotamento. Vivemos, frequentemente, a transgredir os limites, borderline.
Diagnostica a psicanalista e linguista Julia Kristeva: o aumento das doenças psíquicas contemporâneas vai a par com o declínio da vida interior. Precisamos, pois, de questionar os nossos modos de vida acelerados, sem pausas de regeneração, sem espaços e tempos de interioridade, sem a fecundidade da vida espiritual. Precisamos de recuperar hoje, precisamente como uma urgente necessidade para a nossa saúde mental, a pausa, o descanso, a oração, a contemplação, a vida interior, o tempo de leitura, o passeio ao ar livre. A espiritualidade cristã faz da tristeza um pecado capital. A psiquiatria, hoje, redimensiona o grau de culpabilidade em relação à tristeza. Mas não podemos ignorar que há um grau de responsabilidade tão pessoal, tão próprio de cada um de nós, no modo como nos esgotamos, ou na sabedoria com que integramos lutos e perdas.
Descobrimos que a tristeza e a alegria dependem da química dos neurotransmissores, dos níveis de serotonina e de lítio. E, com corajosa humildade, quando chegamos a níveis insuportáveis de tristeza, em que nos chega a tentação do suicídio, precisamos de pedir ajuda técnica, para reequilibrar a química dos neurotransmissores. Sabendo que o «demónio da depressão» vai e volta, precisamos de nos protegermos em nossa vulnerabilidade; não querermos ser heróis nem estarmos sempre no pódio; alimentarmos a esperança, o humor e o sabor da rede de amigos. A esperança é o antidoto contra a tristeza. Voltamos ao salmo, a essa pergunta interior que gera uma resposta de esperança: «Porque estás triste, ó minha alma, e desfaleces? Espera em Deus. Ainda o hei de louvar».
A acédia é esse mal tipicamente «monástico» que pode ser um mal também em cada um de nós. Se a espiritualidade cristã, desde os tempos antigos, identificou e deu nome à dinâmica negativa da acédia, há nisso uma experiência trazida à consciência e «empalavrada» que interessa a todos nós. Evágrio dizia que era o «demónio do meio dia»: o tempo não passa, o sol não avança, nunca mais vem a tarde, o dia é um completo tédio. A solidão torna-se tentação. Nas palavras do Papa Francisco: «Trata-se de uma tentação muito perigosa, com a qual não se deve brincar. As suas vítimas são como que esmagadas por um desejo de morte: sentem aversão por tudo; a sua relação com Deus torna-se tediosa; e até os atos mais santos, que no passado lhes aqueciam o coração, agora parecem-lhes totalmente inúteis».
Com linguagem contemporânea, podemos dizer que a acédia se pode traduzir hoje podemos por tédio. A acédia é essa não coincidência de nós mesmos com o lugar em que estamos, com a atividade que estamos a realizar. Só estamos bem onde não estamos. Acabamos por viver um desencontro no tempo e no espaço. Uma vida adiada no encontro consigo mesmo no aqui e no agora. A acédia é essa incapacidade de encontrar fecundidade na solidão que se torna peso e angustia. Já Pascal alertava, e com precisão, para esse grande perigo: «Todo o mal dos homens vem de uma só coisa que é não ficar em repouso no quarto». Hoje poderíamos dizer que são expressões de acédia o zapping, estar sempre a mudar de canal; a visita a todos os likes e posts que fazem às nossas publicações, prolongamentos do nosso narcisismo. Vivemos incapazes de permanecermos num lugar, num canal, de nos concentramos no que estamos a fazer. Como abelha, aí vamos de flor em flor; mas ao contrário das abelhas, não sabemos tirar o suco (o pólen) das flores em que pousamos, porque não repousamos nem saboreamos o que nos é dado.
Hoje o tédio, ou a indiferença, que se torna preguiça e indolência, apresenta-se como doença social. Pode ter o nome pomposo de «procrastinação», o adiar o cumprimento de tarefas, o adiar-se, o deixar passar o tempo. Pode ter também o nome de «indiferença», esse desligar-se da realidade. Ficamos indiferentes à dor do mundo, sem paixão, sem capacidade de indignação e de revolta; sem causas por que lutar e dar a vida. Este é um sério perigo nas sociedades da abundância em que vivemos, em que nada nos falta, mas falta-nos a paixão de viver. E o tédio acaba por ser uma doença que se infiltra no tecido social. Uma espécie de pandemia social. Ficamos indiferentes à guerra e às suas vítimas; ficamos indiferentes aos pobres e aos estrangeiros. Com palavras proféticas do Papa Francisco, talvez possamos dizer que a acédia, o tédio, tem hoje o nome de «indiferença globalizada».
Conhecemos bem o Salmo 21. Ele nos oferece as palavas certas para expressarmos ao Senhor o nosso agradecimento, a nossa confiança na sua bondade, a esperança na dor e no perigo: «Ainda que eu tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque vós estais comigo». Com imagens que expressam alegria, avança o salmista: «com óleo perfumais a cabeça». O Senhor perfuma-nos derramando em nós o óleo da alegria. E eis a nossa missão, como a do profeta: somos ungidos com o óleo da alegria para levar a boa nova aos pobres, a libertação aos cativos, a consolação aos tristes (cf. Is 61,1-3). Somos ungidos com o óleo da alegria não apenas para uma missão exterior, mas também interior. Para sermos consolados, curados, libertos no profundo de nós mesmos, e a nossa vida ser luz e alegria, já dentro de nós. E todo o nosso ser possa rejubilar pela unção do Espírito. A páscoa começa em nós, a passagem da tristeza à alegria, do luto à consolação, do abatimento à festa.
De novo com o salmista: podemos «habitar na casa do Senhor para todo o sempre». E a casa do Senhor somos nós próprios, o nosso corpo que é templo do Espírito Santo. A alegria é expressão de uma forma nova de habitar o próprio corpo, de pacificar emoções, sentimentos, desejos. É a paz interior da vida reconciliada. «Habitar» a casa do Senhor que somos nós próprios significa rever a nossa relação com a comida, o dinheiro, com as coisas e com os outros, connosco próprios e com Deus. Numa opção por uma ecologia interior da mente e do coração. Com as palavras de Paulo: somos chamados a viver como «filhos da luz». É um apelo que solicita resposta e ação. Uma vida iluminada, ilumina e produz fruto. Os frutos da luz são a bondade, a justiça e a verdade. E podemos acrescentar a alegria. A alegria acorda-nos. Desperta-nos para a beleza da realidade que vem a nós. Talvez a alegria seja esse deslumbramento pelo mundo, pela vida, pelos outros, pela surpresa que vem a nós e não depende de nós. É pura graça, puro acontecer sem nós, puro dom. Vida oferecida em cada flor, em cada rosto, em cada fonte, em cada árvore, em cada fruto.
A alegria devolve-nos à infância, à fonte primordial de toda a espiritualidade. Com palavras do evangelho de João, precisamos de ser «ungidos» nos olhos com o barro do Homem Novo, a nossa humanidade, tão vulnerável, mas regenerada pela força da vida que nos vem da Páscoa de Cristo, o Vivente. Para acordarmos para a luz e nos lavarmos na piscina da alegria pascal. Ungidos pelo Espírito da alegria. Com o desejo, o apelo e a promessa do Senhor: «Esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja plena» (Jo 51,11).
Pe. António Martins, IV Domingo da Quaresma
Giancarlo Pavanello, Loghismoi (Acédia), 2026
O fantasma desbotado de uma possibilidade evitada por inércia,
nem vida nem morte.
Cada coisa surge como o seu contrário,
só o branco e o negro se destacam coincidindo no cinzento.
Imobilidade mesmo diante do automóvel
que avança a toda a velocidade.
Ciclo de catequeses do Papa Francisco
Os vícios e as virtudes
A TRISTEZA
(…) existe uma tristeza que convém à vida cristã e que, com a graça de Deus, se transforma em alegria: evidentemente, ela não deve ser rejeitada e faz parte do caminho de conversão. Mas existe também uma segunda figura de tristeza, que se insinua na alma, prostrando-a num estado de desânimo: é este segundo tipo de tristeza que deve ser combatido com determinação e com toda a força (…) há uma segunda tristeza que, ao contrário, é uma doença da alma. Nasce no coração do homem, quando se esvaece um desejo ou uma esperança. Aqui podemos referir-nos à narração dos discípulos de Emaús. Aqueles dois discípulos partem de Jerusalém com o coração desiludido e, ao desconhecido que os acompanha, a uma certa altura confidenciam: «Esperávamos que ele – isto é, Jesus – haveria de libertar Israel» (Lc 24, 21).
A dinâmica da tristeza está ligada à experiência da perda. No coração do homem nascem esperanças que, às vezes, são frustradas. Pode ser o desejo de possuir algo que, ao contrário, não se consegue obter; mas também algo importante, como a perda de um afeto. Quando isto acontece, é como se o coração do homem caísse num precipício, e os sentimentos que experimenta são desânimo, fraqueza de espírito, depressão, angústia. Todos passamos por provações que geram tristeza em nós, porque a vida nos faz conceber sonhos que depois se desfazem. Nesta situação alguns, depois de um período de turbulência, confiam na esperança; mas outros mergulham na melancolia, deixando que ela apodreça o coração. Sente-se prazer com isto? Reparai: a tristeza é como o prazer do não-prazer; é como pegar num doce amargo, sem açúcar, mau e comer este doce. A tristeza é um prazer do não-prazer.
O monge Evágrio conta que todos os vícios visam um prazer, por mais efémero que possa ser, ao passo que a tristeza goza do oposto: embalar-se numa dor sem fim. Certos lutos prolongados, em que a pessoa continua a ampliar o vazio de quem já não está presente, não são próprios da vida no Espírito. Certas amarguras rancorosas, em que a pessoa tem sempre em mente uma reivindicação que a faz assumir o papel de vítima, não produzem em nós uma vida sadia, e muito menos cristã. Há algo no passado de todos que deve ser curado. A tristeza, de uma emoção natural, pode transformar-se num estado de espírito maligno.
Irmãos e irmãs, devemos prestar atenção a esta tristeza e pensar que Jesus nos traz a alegria da ressurreição. Por mais que a vida possa ser cheia de contradições, de desejos derrotados, de sonhos não realizados, de amizades perdidas, graças à ressurreição de Jesus podemos acreditar que tudo será salvo. Jesus não ressuscitou só para si mesmo, mas também para nós, a fim de resgatar toda a felicidade que na nossa vida ficou incompleta. A fé expulsa o medo, e a ressurreição de Cristo remove a tristeza como a pedra do sepulcro. Cada dia do cristão é um exercício de ressurreição (…).
(Papa Francisco, Audiência geral de 7 de fevereiro de 2024)
A ACÉDIA
Entre todos os vícios capitais, há um que muitas vezes passa em silêncio, talvez por causa do seu nome, que para muitos é pouco compreensível: refiro-me à acédia. Por isso, no catálogo dos vícios, o termo acédia é muitas vezes substituído por outro, de uso muito mais comum: a preguiça. Na realidade, a preguiça é mais um efeito do que uma causa. Quando uma pessoa está inativa, indolente, apática, dizemos que é preguiçosa. Mas, como ensina a sabedoria dos antigos Padres do deserto, muitas vezes a raiz de tal preguiça é a acédia, que do grego significa literalmente “falta de cuidado”.
Trata-se de uma tentação muito perigosa, com a qual não se deve brincar. As suas vítimas são como que esmagadas por um desejo de morte: sentem aversão por tudo; a sua relação com Deus torna-se tediosa; e até os atos mais santos, que no passado lhes aqueciam o coração, agora parecem-lhes totalmente inúteis. A pessoa começa a lamentar a passagem do tempo e a juventude que ficou irremediavelmente para trás.
A acédia é definida como o “demónio do meio-dia”: apanha-nos no meio do dia, quando o cansaço está no seu auge e as horas que se seguem nos parecem monótonas, impossíveis de viver. Numa descrição célebre, o monge Evágrio representa esta tentação do seguinte modo: «O olho do preguiçoso está continuamente fixo nas janelas, e na sua mente imagina visitantes […] Quando lê, o preguiçoso boceja muitas vezes e é facilmente vencido pelo sono, esfrega os olhos e as mãos e, afastando o olhar do livro, fixa a parede; depois, volta a olhar para o livro, lê mais um pouco […]; por fim, inclinando a cabeça, põe o livro debaixo dela, adormece num sono leve, até que a fome o desperte e o obrigue a atender às suas necessidades»; concluindo, «o preguiçoso não realiza a obra de Deus com solicitude».
Os leitores contemporâneos vislumbram nestas descrições algo que lembra muito o mal da depressão, tanto do ponto de vista psicológico como filosófico. Com efeito, para quem é apanhado pela acédia, a vida perde o significado, rezar é tedioso, cada batalha parece insensata. Se alimentamos paixões na nossa juventude, agora elas parecem ilógicas, sonhos que não nos tornaram felizes. Então, deixamo-nos levar e a distração, o não-pensar, parecem ser a única saída: gostaríamos de ficar atordoados, ter a mente completamente vazia… É um pouco como morrer antecipadamente, e é horrível!
Perante este vício, que nos damos conta que é muito perigoso, os mestres da espiritualidade preveem vários remédios. Gostaria de salientar o que me parece ser o mais importante, e que chamaria a paciência da fé. Se, sob o açoite da acédia, o desejo do homem é estar “noutro lugar”, fugir da realidade, é preciso ter a coragem de permanecer e de acolher a presença de Deus no meu “aqui e agora”, na minha situação tal como ela é. (…)
A fé, atormentada pela prova da acédia, não perde o seu valor. Pelo contrário, é a verdadeira fé, a fé deveras humana, que apesar de tudo, não obstante as trevas que a cegam, continua a acreditar humildemente. É esta fé que permanece no coração, como as brasas sob as cinzas. Permanecem sempre. E se algum de nós cair neste vício ou na tentação da acédia, procure olhar para dentro de si e conservar as brasas da fé: é assim que se vai em frente!
(Papa Francisco, Audiência geral de 14 de fevereiro de 2024)


