Caros irmãos e irmãs,

As leituras deste Domingo oferecem-nos um belo retrato da justiça divina e da humildade do coração, dois temas que, curiosamente, raramente aparecem nas manchetes, mas estão sempre na base da verdadeira fé. Três textos, três estilos diferentes, uma só mensagem: Deus escuta o humilde, o justo, e o que confia n’Ele -aquele que confia apenas em si mesmo afasta-se de Deus porque a sua autorreferencialidade o fecha em si mesmo.

1. Primeira Leitura — A justiça que escuta (Sir 35,15b-17.20-22a)

O autor do livro do Eclesiástico começa por afirmar com clareza: “O Senhor é juiz e não faz aceção de pessoas” (Sir 35,15b). É um belo modo de dizer que Deus é imparcial, e que a sua justiça não depende de favoritismos, de estatutos sociais nem de influências “lá de cima”.

Mas a imparcialidade de Deus não é fria nem burocrática — é ativa e compassiva. O texto diz que “a oração do pobre atravessa as nuvens e não descansa até chegar a Deus” (Sir 35,17). Esta é a chamada teologia da escuta divina: o clamor do oprimido não se perde, é ouvido por um Deus que age.

O autor, com um toque profético, critica o formalismo religioso — aquelas atitudes de quem acha que Deus se compra com rituais bem-feitos mas com o coração vazio. É uma linha direta com Amós (Am 5,21-24) e Isaías (Is 1,11-17): Deus não quer sacrifícios, quer justiça; não quer incenso, quer misericórdia. E conclui que a oração do pobre é um ato de culto verdadeiro, mais agradável a Deus que mil oferendas no templo.

Em suma, a justiça de Deus não é um código penal mas é amor em ação.

2. Evangelho — A oração que sobe (Lc 18,9-14)

Jesus conta a parábola “para alguns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos e desprezavam os outros” (Lc 18,9).

Ora bem, se alguém aqui não se inclui nesse grupo, pode aproveitar para dormir uns minutos — mas, atenção, eu prometo acordar-vos a tempo do final da homilia!

Ora, para os que ainda estão acordados como eu (e são humildes o suficiente para admitir que às vezes também se acham muito certos de si), Jesus fala-nos diretamente. Ele apresenta dois homens que sobem ao templo para rezar. Ambos fazem o mesmo percurso físico — sobem. Contudo, apenas um deles consegue fazer a subida interior: a elevação do coração.

O fariseu, de pé, ora “para si mesmo” (πρὸς ἑαυτόν). Um pormenor delicioso do texto grego: ele não reza a Deus, mas a si próprio. O seu “eu” é tão grande que Deus nem cabe na oração. É como quem se põe frente ao espelho e diz: “Senhor, obrigado por me teres feito tão perfeito”.

A propósito, isto fez-me lembrar o mais recente livro do José Rodrigues dos Santos (O Sexto Sentido), que fala do conceito grego de enteógeno — “o divino dentro de nós”. O fariseu levou o conceito um bocadinho longe demais: não apenas tinha “o divino dentro de si”, mas achava-se ele próprio o divino!

O publicano, pelo contrário, permanece no fundo, sem levantar os olhos, e diz apenas: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador” (Lc 18,13). Uma oração curtinha, sem floreados, mas plena de teologia: reconhece Deus como Deus e o homem como homem.

Jesus conclui com aquela máxima lapidar de Lucas: “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” (Lc 18,14).

Esta é a gramática do Reino de Deus, onde os verbos estão sempre trocados: o que se abaixa sobe, o que se eleva cai.

3. Segunda Leitura — O levantar da âncora (2Tm 4,6-8.16-18)

E agora, como dizia o apóstolo, “o tempo da minha partida está iminente” (2Tm 4,6).

E é aqui que peço que os que tinham adormecido há pouco acordem — não só a homilia está a entrar na reta final mas também há aqui algo que é para todos, todos…!

O verbo grego que Paulo usa, ἀναλύω, significa em certas ocasiões “levantar âncora”, como quem se prepara para zarpar rumo ao largo. É uma imagem belíssima para descrever a morte: não como fim, mas como viagem, como travessia.

Ora, se levantamos âncora, é porque nos preparamos para navegar. E aqui Paulo fala aos “mais velhos” — o que, convenhamos, inclui todos nós, porque há sempre alguém mais jovem do que cada um de nós!

Aos “mais velhos”, portanto, é pedido que mantenham esta consciência de estar em caminho, ou melhor a navegar nos mares da vida, pede-se que não se deixarem ancorar ao passado nem à resignação. É um pouco como no Auto da Barca do Inferno, todos embarcamos, e aliás, logo no início do Auto de Gil Vicente, é o próprio demónio que dá a ordem para que se levante a âncora.

Paulo, porém, sabe: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7). Ele olha para trás e vê uma vida oferecida, uma corrida concluída, uma fé preservada. E, com serenidade, confia: “O Senhor me libertará de todo o mal e me salvará para o seu Reino celeste” (2Tm 4,18).

Conclusão — A coroa dos humildes

Estas três leituras, juntas, dizem-nos que a oração verdadeira nasce da humildade, a justiça verdadeira nasce da compaixão, e a vida verdadeira é aquela que se oferece como libação.

Deus não se impressiona com aparências, títulos ou estatísticas espirituais — Ele escuta o coração. E se porventura ainda houver alguém tentado a achar que é o herói da parábola, basta lembrar o humor e amor do próprio Jesus: “Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.”

Por isso, caríssimos, subamos também nós ao templo e, ao final desta subida, possamos dizer com São Paulo, com simplicidade e um sorriso tranquilo: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”

Ámen.

P. César Silva, Homilia no XXX Domingo do Tempo Comum