Queridas Irmãs, queridos Irmãos,
De novo a Páscoa; e na Páscoa estamos sempre. Da Páscoa vivemos e para a Páscoa eterna nos orientamos. Cada rito, cada gesto, cada palavra, cada oração, ajudam-nos a celebrar e a viver a nossa Páscoa pessoal. Não uma Páscoa individual, mas em comunidade, a fazer renascer os nossos laços de fraternidade, tecidos de compaixão, de perdão, de consolação e de paz. É connosco que o Senhor quer sentar-se à mesa; é para nós que se oferece em pão. Façamos Páscoa com a nossa pobreza, com as nossas carências, com os nossos desejos insatisfeitos, com as nossas aquisições e os nossos projetos adiados. Façamos Páscoa, renovando a esperança, neste nosso tempo de desconcerto, de perplexidade e de incerteza.
O evangelho de Lucas assinala o desejo ardente de Jesus de comer aquela Páscoa com os seus discípulos: «Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de padecer». Agradecemos a Lucas por nos apresentar Jesus verdadeiro humano, um homem de desejos intensos. Jesus precisa de nós, tem sede de nós, tem fome de nós para completar a sua Páscoa. Apresenta-se como alguém que experimenta a incompletude e a necessidade de companhia. E confessa essa carência de relação e de reciprocidade, porque, precisamente, a Páscoa é encontro, dádiva, reciprocidade, vida que se dá, corpo que abraça e se completa noutros corpos, fazendo corpo comunitário. Somos atraídos, para não dizer seduzidos, pelo seu desejo, de continuamente fazer Páscoa connosco.
Comentando esta passagem, escrevia o Papa Francisco na Carta Apostólica sobre a formação litúrgica do Povo de Deus, em 2022: «Pedro e os apóstolos estão a essa mesa inconscientes e, todavia, necessários: qualquer dom para o ser deve ter alguém disposto a recebê-lo» (Desiderio desideravi, 3). Sim, Cristo precisa de nós para ser dom em nós; precisa que o queiramos receber, que o acolhamos em nosso corpo, que o desejemos com toda a intensidade do nosso ser. Todos somos convidados para a Ceia do Senhor. Todos somos atraídos pelo seu ardente desejo de comer a Páscoa connosco. «Antes da nossa resposta ao convite – muito antes – está o seu desejo de nós: até podemos não ter consciência disso, mas cada vez que vamos à Missa a razão primeira é porque somos atraídos pelo seu desejo de nós» (Desiderio desideravi, 6). Antes do rito e do preceito, está a intensidade e a atração do desejo do Senhor por cada um(a) de nós.
O desejo do Senhor é um desejo que se projeta para a eternidade. É um desejo de consumação, de plenitude, de Páscoa eterna. Não será a eucaristia, precisamente, a prefiguração sacramental do Céu, do que somos chamados a ser e seremos mesmo por dom, por ressurreição? Não estão já contidos como promessa na eucaristia, a nova humanidade que brota da Páscoa, o novo céu a nova terra, toda a criação liberta da morte? Não será a eucaristia o sacramento quotidiano do nosso futuro e, por isso mesmo, o sacramento que renova a nossa esperança? «Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de padecer; pois digo-vos que não tornarei a comê-la, até que se realize plenamente no reino de Deus». Atrevemo-nos a imaginar um Cristo que continua a arder de intenso desejo. Desejo de uma humanidade reconciliada e pacificada; desejo de uma criação liberta da morte e da destruição. Cristo deseja comer com toda a humanidade e com toda a criação a Páscoa eterna.
Por isso precisamos de o dizer com clareza, até para nos convencermos disso: toda as tentações isolacionistas, todas as quebras de solidariedade internacional, todas as faltas de compaixão para com seres humanos fragilizados e indefesos, todas as exaltações nacionalistas, toda a cobiça dos dons e das riquezas de outros, toda a vontade de conquista e de poder sobre pessoas, terras e nações, são a negação da boa nova da eucaristia. A eucaristia é sacramento da complementaridade, da reciprocidade, da vida feita festa e partilha, de toda a vida dada, e por vezes sacrificada. Fazemos Páscoa colocando densidade existencial, sinceridade e autenticidades nos ritos que em comunidade celebramos. Eles dizem que o Senhor é todo para nós: «Isto é o meu corpo entregue por vós»; «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, derramado por vós».
Na síntese da liturgia católica de Quinta-Feira Santa, a memória da Última Ceia (narrada pelos evangelhos sinóticos) é completada pelo gesto do «lava-pés», que só João narra. Na complementaridade das diferenças dos quatro evangelhos acontece o todo do Evangelho. Cristo é, ao mesmo tempo, corpo que se dá e corpo que serve os seus irmãos, inclinando-se como servo diante deles e lavando-lhes os pés. Eloquente gesto de serviço e de cuidado que temos tanta relutância em aceitar. Todos bem sabemos: quanto nos custa deixarmo-nos cuidar; quanto nos custa oferecer o nosso corpo ao cuidado das mãos de outros! Razão tinha Pedro, sempre nos seus excessos e em sua típica resistência de primário, ao dizer: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». Sim, o corpo todo, toda a pessoa no seu ser, do nascer ao morrer, precisa de ser lavada e cuidada. Somos corpo vulnerável, a necessitar de cuidado, de afeto e de compaixão. Do Senhor recebemos o exemplo profético do seu gesto que nos convoca: «Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».
Na liturgia de Quinta Feira Santa está contida uma espiritualidade da afetividade e da vulnerabilidade, que resistimos a integrar e a aceitar. Estamos formatados para dar sempre de nós uma imagem de força, de eficácia, de autocontrole. Pura ilusão estóica, pretenso racionalismo da vontade, ou tentação puritana rigorista que espreita sempre a espiritualidade cristã. Comecei esta homilia sublinhando a carência e o desejo do Senhor: «Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de padecer». Agora acrescento outra singularidade de Lucas. É o único evangelista a sublinhar, com traços de fisicidade somática, o dramático e solitário combate interior de Jesus: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua»; «Entrando em angústia, orava mais instantemente, e o suor tornou-se-Lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra». O Senhor pede uma presença consolante e orante dos discípulos. Pede e procura companhia, num movimento de afastamento (para estar diante do Pai em combate orante) e de aproximação aos discípulos: «afastou-se deles», «erguendo-se após a oração, veio para junto dos discípulos». E estes caiem por terra perdidos de sono.
Preparando a nossa peregrinação a Paray le Monial e às abadias cistercienses da Borgonha, vamos ter oportunidade de aprofundar a espiritualidade do Coração de Jesus. Esta alia a adoração eucarística à consolação de Cristo em agonia no Monte das Oliveiras. Contemplando e adorando sua presença real, expressamos o nosso afeto e a nossa intimidade pelo Senhor que continua em agonia, em seu coração ferido pela violência do mundo, pelo horror da guerra, pelos calvários dos deportados, dos sem-abrigo, dos náufragos, dos refugiados. O seu coração continua a ser rasgado pela violência da humanidade e, todavia, do seu lado aberto jorram rios da água viva de compaixão, de perdão e de misericórdia. A imagem de Cristo coração ferido assinala que o Senhor foi verdadeiramente humano: sentiu a dor, a angústia; foi corpo vulnerável e carente. Sentiu desejo de companhia, de afeto, de ser consolado. Diz-nos o Papa Francisco na encíclica Dilexit Nos, sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus: «entrado no coração de Cristo, sentimo-nos amados por um coração humano, cheio de afetos e sentimentos comos os nossos» (DN 67).
Temos fome e sede de uma experiência cristã verdadeiramente afetiva que nos faça viver as nossas relações com doçura, em que o temor dá lugar ao amor, a rigidez à ternura. A espiritualidade do Coração de Jesus, através da adoração eucarística, motiva e mobiliza os crentes de tradição católica a uma experiência de encontro e de intimidade com o Senhor que experimenta solidão, abandono e angústia perante a morte. Possa a nossa oração e a nossa adoração, nesta noite, ser encontro de coração a coração, dom da nossa presença e do nosso afeto a Cristo em agonia, em combate vital. Querendo consolar o Senhor em sua solidão e abandono, nós é que somos consolados; expressando o nosso amor por Cristo, somos nós que nos deixamos amar por Ele à maneira de filhos. «Desejando consola-lo, saímos consolados» (DN 161). E porque consolados, somos capazes de consolar aos nossos irmãos em tribulação.
Quão urgente é uma espiritualidade cristã da ternura, da doçura e da consolação. Uma espiritualidade que brota da eucaristia de Quinta-Feira Santa.
Pe. António Martins, Homilia na Celebração da Ceia do Senhor – Quinta-feira Santa – 17 de abril de 2025


