O evangelho de hoje, na sequência dos anteriores domingos, apresenta Jesus a ser contestado, confrontado e questionado por grupos organizados de oposição, que o querem encurralar e o apanhar em falso para o desautorizar. Bem sabemos que no percurso da nossa vida, podemos ser contestados, incompreendidos, perseguidos até pelas nossas posições, coerências e convicções. O conflito, a tensão, o confronto são dimensões menos simpáticas do nosso viver. E nos dias que correm o confronto e o conflito, protagonizado pelas jovens gerações, está na rua a manifestar-se de forma violenta, caótica, anárquica, sem lideranças para dialogar e construir processos de decisão partilhada. É o grito legítimo de uma geração a quem lhes foi roubada a esperança num futuro melhor. Todos temos netos e sobrinhos para quem a aquisição de casa é um drama, um projeto adiado.
Se denunciamos as formas anárquicas de manifestação no espaço público e o vandalismo do património privado e público, não podemos ignorar a legitimidade do grito destes jovens, a sua revolta e indignação com a falta de políticas sociais de habitação. A habitação é um bem social, não pode ficar refém da lei da oferta e da procura de proprietários e agentes imobiliários. É a hora de governo, autarquias, privados, caritas diocesanas, misericórdias conjugarem esforços e políticas de bem comum, de habitação social. Muitos de nós militámos ativamente enquanto jovens, nas escolas do secundário e nas universidades, participando em manifestações, em debates públicos, em greves; aliando denúncia à proposta e ao compromisso social pessoal. A militância católica respeita a ordem social, contesta sem renunciar a criar pontes de diálogo. E dentro das nossas comunidades cristãs precisamos de dar voz aos jovens, para expressarem as suas inquietações, a sua revolta, as suas propostas.
Poderá o evangelho iluminar a nossa realidade social, cheia de tensões, de extremismos? Pode porque acreditamos que a Palavra do Senhor inspira sentimentos, leituras da realidade, compromissos sociais. Que sinais credíveis de esperança podemos vislumbrar na anarquia e no vandalismo da contestação juvenil? Como integrar agora em caminhos de diálogo democrático o seu grito e a sua revolta? Todos estamos convictos de que a prática da cidadania começa nas famílias. Possam também as comunidades cristãs ser lugares de cidadania partilhada, onde se reinventa a esperança. Ressoa com novos desafios, novas aplicações e novos contextos as palavras do Livro do Êxodo: «Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egito. Não maltratarás a viúva nem o órfão. Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada». O próprio Deus escuta o clamor dos pobres, dos estrangeiros, dos sem casa, sem trabalho, desprotegidos na solidão de sua velhice. Os socialmente mais vulneráveis e indefesos são aqueles que Deus escuta, protege. O Senhor convoca-nos para o compromisso social, para uma cidadania da compaixão e do cuidado. Nunca nos esqueçamos das palavras de Jesus: «Sempre que o deixaste de fazer a um deste pequeninos, foi a mim que o deixaste de fazer» (Mt 25,45).
«Qual o maior mandamento da Lei?», pergunta ardilosa de um jurista porta-voz do partido dos fariseus. Na complexa codificação do judaísmo de então havia 613 normas, 365 negativas («Não deves») e 248 positivas («podes», «faz»). Nesta floresta normativa, era questão infindável um consenso sobre o maior mandamento. Os grandes mandamentos da Torah andavam a par de normas casuístas. Daí o fardo sufocante e rigorista do legalismo religioso de então, que Jesus denuncia. Alguns chegavam a dizer que o mandamento mais importante é amar a Deus e ao próximo. Nisto Jesus não foi inovados; acolhe uma leitura rabínica. A sua novidade está na síntese de conjunto que apresenta, uma visão da Lei concentrada no essencial, no nuclear, que distingue o mais fundamental do acessório.
Jesus assemelha, se identificar, o amor ao próximo (o segundo mandamento), com o primeiro, o amor a Deus. E acrescenta: «Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas». Toda a Escritura resumida e concentrada neste duplo mandamento do amor, a Deus e ao próximo, na vertical e na horizontal, teologal e antropológico, interior e socialmente comprometido. A síntese apresentada por Jesus é a sua visão pessoal da Escritura, a sua leitura de conjunto após ruminar os textos no silêncio orante da meditação. Jesus apresenta-nos a sua própria inteligência das Escrituras. Sim, a sua palavra é para nós mandamento, mas inspira-nos também a procurarmos a nossa própria síntese pessoal da Escritura. E isso deveria ser empenho de cada cristão, chegar a uma visão sapiencial unitária do todo da Escritura. Tarefa nada fácil…
«Amarás o Senhor, teu Deus»: é mandamento e, por isso, obriga, é apelo, exige resposta de cada um de nós. Mas o verbo está no futuro: «amarás». A nossa resposta não se esgota imediato; abre-se ao futuro, a um tempo por vir. E isso nos consola, porque dá-nos tempo, porque nos coloca em projeto, porque não é uma decisão pronta e acabada. «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração», o mesmo é dizer, com todo o teu sentir, a tua afetividade, as tuas emoções, a tua interioridade. Na antropologia bíblica, o coração diz a pessoa humana em sua capacidade de amar e se relacionar. O coração é expressão da nossa interioridade e verdade mais profundas. Mas também com toda a nossa vida, expressa na palavra «alma»: a nossa vida biológica, psíquica. O amor é o fundamento da nossa vitalidade, a força que verdadeiramente nos anima e nos faz viver. «Amarás o Senhor teu Deus … com toda a tua alma».
Jesus acrescenta a expressão «com toda a tua mente», «com toda a tua inteligência». Sim, a decisão de amar a Deus, de lhe responde amando com todo o coração e com toda a alma, é expressão inteligente. Amar é inteligir, unificar o que sentimos, fazemos, expressamos, vivemos e somos. Este é o primeiro mandamento; o segundo, porém, é semelhante a este: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Próximo é o meu companheiro de viagem, aquela ou aquela que segue a meu lado. Que é frágil e carente como eu, que comunga comigo uma comum humanidade, que pede dignidade, respeito, reconhecimento, proteção, cuidado e amparo. Próximo é aquela pessoa que faz comigo as viagens da vida, no banco do autocarro, na fila da loja do cidadão, do trânsito, na sala da espera do hospital… Toda a pessoa que está a meu lado, seja qual for a circunstância, é meu próximo. Amar o próximo como a mima mesmo significa que o mesmo que peço mim, peço para o meu companheiro de viagem, igual a mim. Não tenho direitos acrescidos, nem privilégios pessoais. «Como a nós mesmos».
Seja a nossa inteira vida essa resposta de amor, viva, concreto, confiante. Façamos nossa a oração do Salmo: «Eu Vos amo, Senhor, minha força, minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador. Meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança, meu protetor, minha defesa e meu salvador».
«Eu vos amo, Senhor», minha defesa e meu salvador.
Pe. António Martins – Homilia no XXX Domingo do Tempo Comum


