Acolhemos a Palavra de Deus como dirigida a cada um(a) de nós, a esta comunidade concreta da Capela do Rato que hoje aqui se reúne na eucaristia. É para nós que o profeta Isaías anuncia: «Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não Me conhecias»; é para nós que Paulo escreve: «A graça e a paz estejam convosco». E é para nós que Jesus proclama: «Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus». Na celebração da eucaristia, a Palavra torna-se viva e eficaz; vivifica-nos e renova-nos. Edifica-nos como comunidade e como crentes que dela se alimentam no quotidiano das nossas vidas.
Nestes tempos complexos e indecifráveis da política internacional, históricos aliados surgem como suspeitos, quando não como traidores. A soberania de nações é violada e povos são humilhados, e mesmo esmagados. Cresce a onda de uma política assente na força, no autoritarismo, na humilhação dos mais vulneráveis, sem compaixão. Os egoísmos nacionalistas e individuais sacrificam políticas de solidariedade e justiça social, porque isso seria aumentar a subsidiodependência e o parasitismo. Os extremismos galopam dando o poder a políticas e a políticos autoritários, com risco para o futuro da democracia. O descontentamento social explode nas ruas de Paris, Marselha, Milão; e já entre nós no Porto e em Lisboa. O rastilho da violência está a pegar fogo nas ruas, aliando o legítimo protesto contra a falta de habitação a todas as causas possíveis e imaginárias. Ouvimos anunciar, indignados e escandalizados, a transmissão televisiva da execução em direito de um condenado à pena de morte nos EUA. A barbárie da autoridade do Estado transmitida em direto. Perante a indignação do mundo inteiro, o Presidente norte-americano já veio suspender a transmissão. Um restinho de decência… Felizmente também há boas notícias, como foi a atribuição do prémio Nobel da Paz à jurista e ativista sul-africana, Navi Pallay, incansável defensora dos direitos humanos em Gaza, na Síria, na Ucrânia, em Myanmar.
Tudo isto se relaciona com a primeira leitura, do profeta Isaías. Dario ficou conhecido na história por ter desenvolvido, no século VI a. C., uma política de expansão do império persa aliando conquistas territoriais com o reconhecimento da liberdade de culto e das tradições culturais dos povos conquistados. Muitos povos da época o reconheceram como libertador. Assegurou ao Povo de Israel no exílio a liberdade de culto e permitiu que voltasse a Jerusalém para reconstruir o templo. Para a época, foi uma política inovadora. Por isso mesmo, com atrevimento e audácia, o profeta Isaías lhe chama «Ungido»/Messias, título reservado aos descendentes de David: «Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito, Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não me conhecias». Dario é levado pela mão de Deus para conquistar e libertar povos, para desarmar reis tiranos e abrir as potas da liberdade. Entra na história dos mediadores salvíficos de Deus, permanecendo pagão e estrangeiro. Inspirados na palavra de Isaías, também somos hoje convocados a reconhecer como «ungidos» de Deus homens e mulheres, crentes de outras religiões ou mesmo não-crentes, que lutam pela liberdade e pelo diálogo entre os povos, pela defesa dos direitos humanos. Os «ungidos» de Deus não são aqueles que se intitulam «salvadores da pátria», que gritam alto a sua confissão religiosa, mas aqueles e aquelas que põem, com discrição, a sua vida, as suas ideias, as suas competências e influências ao serviço diálogo e da paz entre os povos.
Daqui seguimos para o evangelho de Mateus hoje lido. Conhecemos bem a afirmação de Jesus: «Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus», com tantas interpretações e aplicações ao longo da história do cristianismo. Na narrativa de Mateus, o contexto é uma armadilha que fariseus e herodianos, partidário dos romanos ocupantes, apresentam a Jesus: «É lícito ou não pagar tributo a César?». O tributo a César era pago em denários, moeda que tinha imprimido a esfinge do imperador Tibério e a inscrição: «Tibério César, filho do divino Augusto». Os denários que circulavam de mão em mão eram uma forma de propaganda e de unificação política. Para os judeus, aquela moeda era uma blasfémia, pois atribuía dimensão divina ao imperador. Mas os denários entravam, sem contestação, nas ofertas do templo, e então já não havia repugnância. Daí a dimensão de hipocrisia denunciada por Jesus.
«Então, dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus»: Jesus convida-nos a não confundir os compromissos tributários devido ao Estado com a doação a Deus, de cada homem e de cada mulher criados à sua imagem e semelhança. Se a moeda teme esculpida a imagem do imperador, cada homem e cada mulher é imagem viva do Deus vivo. A moeda é instrumento tributário; a vida é dom recebido, agradecido e devolvido. Somos de Deus, a Ele pertencemos. Ouvimos, nos últimos domingos, Paulo afirmar: «Quer vivamos, quer morramos pertencemos ao Senhor». Toda a nossa vida seja, pois, uma resposta agradecida ao Senhor. No viver e no morre, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Devolvamos a Deus o que dele recebemos, agradecidos, o dom de nós mesmos.
Domingo passado ficámos todos surpreendidos quando o Papa Leão XIV anunciou orbi et orbi que iria ser operado, durante a semana, a um nódulo no pulmão, ainda numa fase inicial. A Igreja e o mundo sobressaltaram, e logo surgiram intensas correntes de oração e sincera preocupação pelo Santo Padre. Operado na terça feira, ficámos a saber que era um tumor, um adenocarcinoma pulmonar. A recuperação tem acontecido com a prevista normalidade. O Papa teve ontem alta, e hoje já esteve a rezar o Angelus. Do resultado das análises dos tecidos se definirá a tipologia do tratamento. Aguardemos com serenidade e confiança, acreditando que o Papa está bem entregue, nas mãos de Deus e da equipa médica que dele cuida. O corpo debilitado do Papa, agora em recuperação, ativa uma profunda comunhão na vida de toda a Igreja.
Nas entranhas do catolicismo há este paradoxo: sentimo-nos mais unidos ao Santo Padre quando ele atravessa a vulnerabilidade e até a própria morte, como aconteceu com o Papa João Paulo II e mais recentemente com o Papa Francisco. O corpo vulnerável do Papa, atravessado pelo corte cirúrgico, convoca toda a Igreja a uma sentida comunhão orante, a uma sincera compaixão. Na vulnerabilidade do corpo do Papa estão recolhidas e resignificadas todas as nossas vulnerabilidades. Nos nossos pessoais limites sentimo-nos corporalmente em comunhão com o Papa. Na doença, como na velhice, caiem todas as máscaras; ficamos indefesos e expostos, a necessitar de cuidados e amparo. Adquirem aqui maior clareza e verdade existencial a palavras de Paulo: «quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários» (1 Cor 12,22). No corpo eclesial da comunhão, os corpos vulneráveis são os mais necessários e os mais importantes. A vulnerabilidade é fecunda fonte de comunhão.
À luz da vulnerabilidade do próprio Papa têm outro alcance as palavras da sua recente homilia em Lourdes: «Perante as correntes atuais que procuram redefinir o valor da vida face à doença, ao sofrimento ou á velhice, a Gruta de Massabille ergue-se como um santuário da esperança cristã. Aqui, nenhuma fragilidade é rejeitada. As vossas muletas, as vossas cadeiras de rodas, as vossas lágrimas escondidas não são obstáculo: são lugares por excelência onde sois plenamente respeitados, acolhidos e transcendidos pelo amor infinito de Deus» (Homilia no Santuário de Lourdes, domingo 27 de setembro de 2026).
Que a vulnerabilidade do santo Padre nos ajude a acolher e a abraçar as nossas próprias vulnerabilidades. Rezando e desejando a sua saúde, estamos a ser membros ativos do corpo orante de Cristo que é a Igreja. A graça e a paz de Deus estejam com o santo Padre e com cada um(a) de nós.
Pe. António Martins – Homilia do XXIX Domingo do Tempo Comum


