Queridos Amigos,
Dirijo-vos a palavra no começo de mais um ano pastoral, em que somos desafiados, mais uma vez, a renovar a nossa esperança e a testemunhar a nossa fidelidade. Como Comunidade da Capela do Rato vamos recomeçar as celebrações eucarísticas dominicais no próximo domingo, 13 de setembro, às 11h.30. Todos o sabemos, mas nunca é de mais recordar: a celebração da eucaristia é o centro da vida de uma comunidade. É na celebração da eucaristia que uma comunidade se cumpre sinodalmente de forma imediata, concreta e semanal: na corresponsabilidade de serviços e tarefas, na articulação entre fiéis leigos e pastor. A beleza e a qualidade das nossas celebrações são rosto acolhedor e fraterno da comunidade que somos e queremos ser. Todos e todas são bem-vindos(as).
Entre março e abril, realizou-se um inquérito à Comunidade. A análise desse inquérito será a base de uma reflexão, a decorrer até ao Natal: Que Comunidade queremos (e podemos) vir a ser? Da análise das respostas dadas, configurou-se que somos uma comunidade madura, intelectualmente qualificada, geograficamente dispersa e profundamente ligada à dimensão cultural da vida da Capela. Vive a sua pertença em duas modalidades, a presencial e a digital, numa geografia que vai da Grande Lisboa ao estrangeiro. Boa parte dos inquiridos pedem continuidade na articulação entre celebração, cultura, reflexão crítica e compromisso social. Consolida-se a dimensão digital e pede-se maior interatividade e qualidade técnica. Uma linha de inquiridos solicita maior investimento formativo, com espaços para estudo da Escritura, catequese de adultos e debate sobre temas atuais. Emerge como linha transversal, o desafio ao rejuvenescimento da comunidade e acolhimento explícito de quem chega.
Entre janeiro e abril de 2027, vamos dar cumprimento a uma nova edição do Curso «Filosofia, Literatura, Espiritualidade», com a coordenação científica da Professora Doutora Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Assim encerraremos um grandioso e fecundo ciclo de doze edições, em que cruzamos, com audácia, a narrativa literária com o ensaio filosófico e a interpretação da experiência crente (espiritualidade). Estes Cursos, ao longo de mais uma década, têm sido, na Igreja em Portugal, um dos lugares mais significativos do encontro entre fé e cultura, do diálogo entre crentes e não crentes. Este ano, inspirados na recente encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, a edição do Curso será dedicada à condição humana, à nossa comum humanidade, à qual não queremos renunciar perante o galopante avanço tecnológico.
Daremos continuidade à atualização da Doutrina Social da Igreja, inspirados no magistério dos últimos papas e na sequência dos anos anteriores. Essa é uma missão que está nas entranhas da memória e do agir da nossa Comunidade. Também queremos dar continuidade ao ciclo «O Espiritual no Desenho», que foi coordenado por Mário Linhares, onde vários artistas partilharam a dimensão espiritual da sua inspiração e criação artística. A experiência do ano passado trouxe à capela do Rato um público ligado às artes. O diálogo com a beleza e a criação artística é dimensão que também faz parte do ser e do agir da nossa Comunidade.
Em julho passado, alguns de nós vivemos uma fecunda e intensa peregrinação por terras da Irlanda, visitando ruínas de antigos mosteiros celtas. Na memória do cristianismo celta irlandês, periférico e inventivo, inculturado e profundamente ligado à natureza, na genialidade audaz de uma geração de monges e monjas (loucos), queremos encontrar inspiração para novas formas criativas de dizer e viver a fé no presente. Está no meu sonho de capelão organizar, no próximo ano, uma peregrinação que nos leve ao encontro do monaquismo ortodoxo e da sua espiritualidade hesicasta (a oração ao ritmo do coração). Roménia afigura-se como uma possível escolha. Sem saber quando, também gostaria de propor uma viagem que cruzasse a memória do encontro tenso entre cristãos, judeus e muçulmanos aqui no ocidente peninsular, recordando a riqueza contrastante do Al Andaluz.
Queridos Amigos, «pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos», como escreveu Sebastião da Gama. Sonhar é arriscar dar forma futura aos nossos desejos. Aceitando que os mesmos podem não realizar-se, ou tomar formas nunca sonhadas nem pensadas. O sonho tem a sua própria dinâmica: é imprevisível e plástico. Mas ele é o fermento da vida. E se o sonho tiver inspiração evangélica, a vida torna-se mais fecunda, mas também mais pascal: «Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, não produz fruto». Renovemos, pois, o sonho de sermos comunidade cristã no coração da Cidade. Na fidelidade de uma memória criativa.
«Vinde e vede»! Conto convosco!
Lisboa, 8 de setembro de 2026
P. António Martins


