Na intensidade do nosso desejo feito oração, clamamos e invocamos: «Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e renovai a face da Terra». A Solenidade de Pentecostes, que hoje aqui nos reúne, é ação de graças e epiclese (invocação) do dom do Espírito. Dom do amor do Pai e do Filho, o Espírito Santo vivificante, continuamente renova a vida da Igreja; dá vida aos nossos corpos mortais; ressuscita os nossos corações na paz e na alergia; cria audácia onde há medo; abre portas onde estas estão trancadas; semeia fogo nas consciências e empurra-nos, com ímpeto, para a missão, essa audácia criativa de ser testemunhas, hoje, de Cristo ressuscitado: «Enviai, Senhor, o vosso Sopro de Vida, o vosso Santo Espírito, para que as nossas vidas se oxigenem de sentido e de esperança». Ressuscita-nos e recria-nos com o vosso sopro vital.
Na diversidade dos relatos do dom do Espírito, por Cristo ressuscitado (nos Atos dos Apóstolos, 50 adias após a Páscoa; em João, no próprio dia da ressurreição do Senhor), há dois traços comuns: O Espírito é dado aos discípulos reunidos em comunidade; o dom do Espírito faz deles «enviados», apóstolos, testemunhas do Ressuscitado na diversidade de povos e culturas. A Igreja nasce comunidade a partir do Espírito. Aliás, a comunidade é o primeiro dom do Espírito. É isso que hoje e aqui celebramos: somos uma comunidade que é dom do Espírito; que reúne diversidade de pessoas, de histórias de vida, de compromissos profissionais e políticos, de visões do mundo e da própria Igreja, na expressão de uma única fé, na mesma eucaristia que une e torna fecundas as nossas diferenças. Recorda-nos Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios: «há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo»; «Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum». Quando mais formos uma comunidade unida na diversidade, mais fiéis estamos a ser ao dom do Espirito.
A partir do evangelho de João, hoje lido, ao dom do Espírito (plenitude do dom de Deus) estão ligados a paz, a alegria e o perdão, como concretizações e expressões da fecundidade própria do Espírito. «A Paz esteja convosco!», assim saúda o Senhor os discípulos trancados dentro de casa com medo. E soprou sobre eles dizendo: «Recebei o Espírito Santo». O gesto do sopro é alusão ao gesto criador de Deus que forma o Homem do pó da terra e insufla em suas narinas um hálito de vida. O Vivente continua a soprar sobre nós o seu Espírito. O seu gesto é permanente. Sopra sobre nós para (re)acender a chama da fé, do amor fraterno, da alegria, dessa paz «desarmante e desarmada» que foi o coração da mensagem Urbi et Orbi no Papa Leão XIV, acabado de ser eleito. Sintamo-nos nós próprios soprados pelo Senhor com o seu sopro de Paz, para nos pacificar e fazer de nós instrumentos da sua Paz. E nós queiramo-lo ser, sem hesitação. Recordo uma passagem do discurso que o Papa Leão fez recentemente na universidade romana La Sapienza: «Não se pode chamar de “defesa” um rearmamento que aumenta as tensões e a insegurança, empobrece os investimentos em educação e saúde, desmente a confiança na diplomacia e enriquece elites que nada se importam com o bem comum».
A alegria cristã é dom do Espírito; brota das profundezas da Páscoa. É expressão em nós da passagem do medo à coragem, do ressentimento ao perdão, da acusação à aceitação, da violência (interior ou exterior) à pacificação. A alegria cristã é celebração festiva da diferença do outro, da sua santa estranheza, e não acusação ou exclusão. É expressão de acolhimento, de hospitalidade, de cuidado, porque quer o bem do outro, e ainda mais se está em situação de maior vulnerabilidade. Quando o Senhor aparece no meio dos discípulos, saúda-os na Paz e mostra-lhes o lado e as mãos feridas. Diz-nos João: «… os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor». No evangelho de João, «a plena alegria» é promessa de Cristo, juntamente com o dom do Paráclito (cf. Jo 15,11; 16,20; 17,13). Consentimos que a alegria pascal nos visite, sempre que optamos pela vida, pela paz e pelo perdão. A alegria é celebração do dom do outro que vem a nós, nos provoca e nos interpela; é compromisso a cuidar das suas feridas, não a agravá-las. A alegria cristã está atenta à dor que desfigura os rostos, às feridas visíveis e invisíveis. Protege e dignifica o outro, não o humilha. Porque humilhar, ferir ou violentar é destruir a fonte da alegria de uma pessoa; é agressão contra a sua própria dignidade.
No dia 18 de maio, escreveu no Diário de Notícias o jornalista e cronista Luís Osório: «A pouco mais de 200 metros da esquadra, apenas um par de minutos a pé, está a Capela do Rato. Não podia ser mais simbólico do que somos: grotescos e anjos, perversos e generosos. A dois passos do Inferno, lugar de atrocidades e esgoto humano, um sítio que simboliza a tolerância, o conhecimento e a interioridade». Uma distância de dois minutos entre a vida e as trevas. A agressão sem dó nem compaixão, e mais por quem representa a segurança do Estado e a defesa dos cidadãos, é escândalo, suscita indigna e profunda revolta. Porque, pelo evangelho de Cristo ressuscitado que, mostrando as suas feridas, sopra sobre nós a paz e o perdão, só podemos estar do lado das vítimas, daqueles que já feridos e indefesos foram ainda humilhados e violentados em sua vulnerabilidade. Isto é indigno de um Estado de direito. E a nossa indignação não se pode calar.
Ficámos chocados esta semana por duas crianças terem sido abandonadas pela mãe e padrasto numa floresta perto de Alcácer. Foram enganadas e roubadas na sua inocência, abandonadas de olhos vendados, à procurado de um brinquedo. Assim o disseram. Não é só a disfuncionalidade perturbadora de uma família que está em causa; é o que tudo isto significa de uma total inversão de valores (para não dizer perversão). Nesta situação, é a nossa comum humanidade que é agredida, humilhada e abandonada. Rezemos pelas crianças, mas também pelos pais (que bem precisão de oração e de perdão).
Narra-nos o evangelho de S. João: «Dito isto, [o Senhor] soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos”». O dom do perdão, pelo sopro do Espírito, foi derramado sobre toda a comunidade. Todos e todas somos enviados a perdoar, a curar e a pacificar relações, a fazer renascer comunidade e encontro aí onde houve ferida, ressentimento ou rotura. É missão de toda a Igreja, de cada um e cada uma de nós: perdoar e ser perdoado pelos irmãos. Isto em nada compromete o reconhecimento que Jesus concedeu aos apóstolos a faculdade de perdoar os pecados que a Igreja atualiza no sacramento da reconciliação, através do sacerdote.
Bem sabemos, por experiência própria, que o caminho do perdão é duro e difícil. Por vezes vivemos situações tão complexas e dolorosas que a separação parece ser a melhor opção. Que nunca desistamos do perdão. Sempre procurado, pedido e agradecido como dom de Deus. Porque não é natural perdoar; é pura graça; é ressurreição em nós.
Pe. António Martins, Domingo de Pentecostes


