Giancarlo Pavanello, Loghismoi (A Luxúria), 2026

As sereias cantam roçando as coxas,
alisando cada ego de passagem.
Contentes, os cães no cio deixam-se devorar.
Um engano o gozo que se evapora em tristeza.
E depois retocam a maquilhagem.

GULA E LUXÚRIA

Ciclo de catequeses do Papa Francisco
Os vícios e as virtudes

 

A gula

O que nos diz o Evangelho a tal respeito? Olhemos para Jesus. O seu primeiro milagre, nas bodas de Caná, revela a sua simpatia pelas alegrias humanas: preocupa-se por que a festa acabe bem, oferecendo aos noivos uma grande quantidade de vinho excelente. Ao longo do seu ministério, Jesus manifesta-se como um profeta muito diferente do Batista: se João é recordado pela sua ascese — comia o que encontrava no deserto — Jesus é, ao contrário, o Messias que vemos muitas vezes à mesa. O seu comportamento suscita o escândalo de alguns, pois não só é benevolente para com os pecadores, comendo até com eles; e este gesto demonstrava a sua vontade de comunhão e de proximidade em relação a todos. (…)

Esta relação serena que Jesus estabeleceu com a alimentação deveria ser redescoberta e valorizada, especialmente nas sociedades do chamado bem-estar, onde se manifestam muitos desequilíbrios e patologias. Come-se demais ou de demasiado pouco. Come-se muitas vezes em solidão. Os distúrbios alimentares alastram-se: anorexia, bulimia, obesidade… E a medicina e a psicologia procuram abordar a má relação com a comida. A má relação com a comida produz todas estas enfermidades.

Trata-se de doenças, frequentemente muito dolorosas, ligadas sobretudo aos tormentos da psique e da alma. A alimentação é a manifestação de algo interior: a predisposição para o equilíbrio, ou para o exagero; a capacidade de dar graças, ou a arrogante pretensão de autonomia; a empatia de quem sabe partilhar a comida com os necessitados, ou o egoísmo de quem acumula tudo para si. Esta questão é muito importante: diz-me como comes e dir-te-ei que alma tens. No modo de comer revela-se a nossa interioridade, os nossos hábitos, as nossas atitudes psíquicas.

Os antigos Padres designavam o vício da gula com o nome de «gastrimargia», termo que se pode traduzir por «loucura do ventre». A gula é uma «loucura do ventre». E há também este provérbio: devemos comer para viver, não viver para comer. A gula é um vício que se insere precisamente numa das nossas necessidades vitais, como a alimentação. Tomemos cuidado com isto!

Se a virmos de um ponto de vista social, talvez a gula seja o vício mais perigoso, que mata o planeta. Pois o pecado de quem cede diante de uma fatia de bolo, considerando bem, não causa grandes danos, mas a voracidade com que nos desencadeamos, desde há alguns séculos, sobre os bens do planeta compromete o futuro de todos. Apoderamo-nos de tudo, para nos tornarmos donos de tudo, quando tudo estava entregue à nossa preservação, não à nossa exploração! Eis, pois, o grande pecado, a fúria do ventre: abjuramos o nome de homens, para assumir outro, «consumidores». E hoje diz-se assim na vida social: «consumidores». Nem sequer nos damos conta de que alguém começou a chamar-nos assim. Fomos feitos para ser homens e mulheres «eucarísticos», capazes de dar graças, discretos no uso da terra e, ao contrário, o perigo é de nos transformarmos em predadores, e agora damo-nos conta de que esta forma de «gula» fez muito mal ao mundo. Peçamos ao Senhor que nos ajude no caminho da sobriedade e que os vários tipos de gula não se apoderem da nossa vida.

(Papa Francisco, catequese da audiência geral de 10 de janeiro de 2024)

 

A luxúria

No cristianismo não há condenação do instinto sexual. Um livro da Bíblia, o Cântico dos Cânticos, é um maravilhoso poema de amor entre dois noivos. No entanto, esta dimensão tão bonita da nossa humanidade, a dimensão sexual, a dimensão do amor, não está isenta de perigos, de tal modo que já São Paulo deve abordar esta questão na primeira Carta aos Coríntios. Assim escreve: «De todas as partes ouvimos falar de imoralidade entre vós, de uma imoralidade que não se encontra nem sequer entre os gentios» (5, 1). A repreensão do Apóstolo diz respeito precisamente a uma gestão malsã da sexualidade por parte de certos cristãos. (…)

Quantas relações iniciadas da melhor maneira se transformaram depois em relações tóxicas, de posse do outro, desprovidas de respeito e de sentido do limite? São amores em que faltou a castidade: virtude que não se pode confundir com a abstinência sexual – a castidade é mais do que a abstinência sexual – mas que está ligada à vontade de nunca possuir o outro. Amar é respeitar o outro, procurar a sua felicidade, cultivar a empatia pelos seus sentimentos, dispor-se ao conhecimento de um corpo, de uma psicologia e de uma alma que não são nossos e que devem ser contemplados pela beleza de que são portadores. Amar é isso, e o amor é belo! A luxúria, pelo contrário, ridiculariza tudo isto: a luxúria saqueia, rouba, consome tudo apressadamente, não quer ouvir o outro, mas somente a própria necessidade e prazer; a luxúria considera tedioso qualquer namoro, não procura a síntese entre razão, impulso e sentimento, que nos ajudaria a conduzir a existência com sabedoria. O luxurioso só procura atalhos: não compreende que o caminho para o amor deve ser percorrido com lentidão, e esta paciência, longe de ser sinónimo de aborrecimento, permite tornar felizes as nossas relações amorosas.

Mas há uma segunda razão pela qual a luxúria é um vício perigoso. Entre todos os prazeres do homem, a sexualidade tem uma voz poderosa. Envolve todos os sentidos, habita tanto no corpo como na psique, e isso é muito bom, mas se não for disciplinada com paciência, se não estiver inscrita numa relação e numa história em que dois indivíduos a transformam em dança amorosa, torna-se uma cadeia que priva o homem da liberdade. O prazer sexual, um dom de Deus, é minado pela pornografia: satisfação sem relação, que pode gerar formas de dependência. Devemos defender o amor, o amor do coração, da mente, do corpo, o amor puro na entrega de si mesmo ao outro. E esta é a beleza da relação sexual.

Vencer a batalha contra a luxúria, contra a «coisificação» do outro, pode ser um empreendimento para toda a vida. Mas a recompensa desta batalha é a mais importante de todas, pois se trata de preservar aquela beleza que Deus inscreveu na sua criação quando imaginou o amor entre o homem e a mulher, que não consiste em servir-se um do outro, mas em amar-se.

(Papa Francisco, catequese da audiência geral de 17 de janeiro de 2024)