Queridas Irmãs, queridos Irmãos

Seguimos, em Igreja e cada um no reencontro interior consigo mesmo, este itinerário espiritual que é a Quaresma. Pela liturgia comunitária (dominical), pela maior intensidade da oração pessoal, pela renúncia e pelo jejum fazendo da privação partilha. Preparemo-nos, pois, para celebrar a Páscoa de 2026 «na alegria do coração purificado». Este ano, através da exposição dos painéis de Pavanello (sobre os pecados capitais), somos convidados a conhecer melhor as expressões deformadas dos nossos desejos, para os combater; a descer ao abismo do coração, identificando e nomeando as nossas sombras, os nossos «demónios interiores», «libertando-nos do fermento do pecado». 

«Meribá», no dramático caminho do Êxodo, da opressão para a libertação, da terra da escravidão para a terra prometida, ficará como esse «lugar» simbólico em que o Povo de Deus, cansado, faminto e sedento, se revolta contra Moisés e contra Deus. É o «lugar» do descontentamento transformado em cólera, ira e ressentimento. É o «lugar» onde a carência da fome e da sede dá lugar ao protesto violento. Podemos dizer que «Meribá» é símbolo da tentação da cólera, da dureza de coração, da cegueira feita violência verbal irascível, que tudo mata ao seu redor. É o momento em que ficamos prisioneiros da nossa violência interior, esse grito por uma injustiça sofrida transformado em revolta e acusação. Revisitemos, pois, as nossas «Meribás». É para nós o que o Senhor diz, através do Salmo: «Quem dera ouvísseis hoje a sua voz: “Não endureçais os vossos corações, como em Meriba, como no dia de Massa no deserto”».

 

Meditamos hoje sobre a avareza e a ira

Como nos relacionamos com a riqueza, com as coisas, com o dinheiro? Há um instinto de posse que a todos atravessa, ricos e pobres, sujeitos à mesma tentação da avareza. Recordamos a linguagem sapiencial do Papa Francisco: «A avareza não é um pecado que diz respeito unicamente às pessoas que possuem grandes bens, mas é um vício transversal, que muitas vezes não tem nada a ver com o saldo da conta corrente. É uma doença do coração, não da carteira». Podemos dizer que a avareza é um pecado transversal: atinge pessoas, no mais profundo do seu coração; e torna-se lógica de estruturas, de empresas, de decisões políticas. Talvez se possa dizer que avareza, a lógica da posse, domina os contratos internacionais, dá forma à tal economia puramente capitalista «que mata». Não toma o nome de avareza o desejo despudorado e ganancioso de «terras raras», conquistando ou comprando as várias Gronelandias do mundo? Ou controlando pela via da brutalidade e da força das armas os poços de petróleo na Venezuela, no Iraque, ou no Irão?

Não haverá em nós uma crescente avareza à medida que vamos envelhecendo? Todos nós bem sabemos que a velhice, quando nos faltam as forças e crescem as doenças, é acompanhada pela necessidade de exigentes e qualificados cuidados. Temos medo do futuro, temos vedo de envelhecer. Por isso amealhamos. Mas fica a pergunta: Por onde passa a fronteira entre a necessária poupança e a avareza? Quanta avareza nos lucros de empresas, repartidos pelos acionistas, ou destinados a novos investimentos, sem procura de melhoria dos ordenados dos colaboradores, ignorando gratificações e o reconhecimento justo da dedicação das pessoas! Quanta avareza em nós mesmos para com empregados que limpam o nosso lixo, cuidam dos nossos filhos, pais e avós! Ignoramos a sua origem, o seu sentir, as suas dificuldades. Só sabemos assinalar a sua incompetência e as suas limitações. 

E sobre a ira.

Já dizia Evágrio o Pôntico, monge do século IV que estamos a redescobrir: a ira, ou a cólera, é um «agir selvagem», «uma fornalha do coração». É uma das paixões mais perigosas que acolhemos em nós, pois gera a morte do outro. Nas religiões, a cólera pode tomar a forma de fanatismo, de intolerância, de guerra santa, com o cancelamento do outro, em nome de uma visão única. Essa é a linguagem de todos os «aiatolas», «talibãs» e «inquisidores», seja qual for a religião. A ira desfigura o rosto; torna o Homem próximo das bestas. Brota de dentro de nós a partir daquela ferida gerada por alguma injustiça sofrida. O rancor, o ódio e o ressentimento são as últimas expressões da ira. Dizia-nos o Papa Francisco: «Se nasce de uma injustiça sofrida (ou assim considerada), [a ira] muitas vezes não se desencadeia contra o culpado, mas contra o primeiro desventurado. Há homens que reprimem a ira no lugar de trabalho, demonstrando-se calmos e tranquilos, mas, quando chegam a casa, tornam-se insuportáveis para a esposa e os filhos». Não é a violência doméstica a brutal expressão, em casa e em família, de sentimentos reprimidos no trabalho, de injustiças sofridas, de palavras não ditas a seu tempo!?… 

Precisamos, pois, de vigiar a geração e o crescimento em nós dessa forte e arrebatadora emoção (paixão) que é a ira. Tenhamos a coragem de identificar em nós mesmos os mecanismos de rejeição do outro que a ira, frequentemente tão silenciosa, vai gerando em nós. Como ela se contamina nos nossos relacionamentos, na forma como julgamos e consideramos as pessoas. Recordamos, mais uma vez, o ensinamento do Papa Francisco: «A ira exprime a incapacidade de aceitar a diversidade do outro, especialmente quando as suas escolhas de vida divergem das nossas. Não se limita aos comportamentos errados de uma pessoa, mas lança tudo no caldeirão: é o outro, o outro tal como ele é, o outro enquanto tal que provoca a raiva e o ressentimento. Começa-se a detestar o tom da sua voz, os gestos banais do dia a dia, os seus modos de raciocinar e de sentir». Podemos resolver no final de cada dia os nossos sentimentos mais irados e coléricos, e adormecermos pacificados na relação com os outros? S. Paulo diz-nos que é possível: «Não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento» (Ef 4,26).

Examinemos as subtilezas e os mecanismos do que pensamos acerca dos outros; o nosso violento silêncio quando estão presentes; a dureza do nosso coração para com familiares, colegas, amigos. Pela raiva e pelo ressentimento, estamos a negar o dom que é o outro em sua diferença. Conhecemos bem a violência acusatória de tantas homilias, a rigidez disciplinar de alguns pastores, sem traços evangélicos de mansidão. Olhemos para a ira de pais e educadores incapazes de se relacionar com os insucessos de filhos e educandos, urgentes nos resultados, intolerantes em suas expetativas defraudas. Não estará a ira, em nossos dias, a se tornar discurso político intolerante; a tomar formas déspotas de governo, na ligeireza das acusações do outro, ou da sua mesma eliminação por via de ataques militares, ou de invasões de território? Há toda uma expressão rancorosa, intolerante, acusatória em certas lideranças e discursos políticos atuais, marcados por ideologias extremistas que põem em causa a nossa convivência democrática, o respeito pelo direito internacional, o já precário diálogo entre povos e culturas. 

O encontro entre o Senhor e a Samaritana junto ao poço de Jacob, proclamado no evangelho deste domingo, é inspiração para o nosso itinerário quaresmal, a nossa peregrinação interior que estamos a fazer. Essa descida ao abismo cavernoso de nós mesmos, dando nome aos «demónios interiores», às expressões deformadas do nosso desejo. Esta descida interior é acompanhada pelo «mestre divino», pelo nosso «terapeuta interior», o Espírito Santo. Guiados pela sua inspiração e suportados pela sua sabedoria, atrevemo-nos a nos conhecer naquele que nos conhece e ama, o Pai. No seu Espírito, que geme em nós com gritos inefáveis, atravessamos o labirinto dos nossos desejos, procurando inteligir as nossas paixões interiores que se «mostram» no nosso sentir e agir. A luta connosco está amparada pelo consolador e advogado divino que é o Espírito Santo. 

Sedentos e famintos, como o Povo de Deus no deserto, ou como a Samaritana à beira do poço, abrimo-nos, confiantes, à esperança. Pois cada um de nós é uma terra prometida, neste tempo de passagem pela sede e pelo deserto das tentações. A nossa «Meribá», lugar da ira e do ressentimento, pode dar lugar a fonte fecunda. Atravessamos o abismo interior, damos nome aos nossos «demónios», tão outros e tão íntimos, para desbloquear a fonte que existe em nós. Aquela fonte que a vara de Moisés, fendendo as rochas, fez brotar. Este é o milagre interior que (já) acontece em nós: converter a rocha das nossas paixões em fontes fecundas de água viva. Como o Senhor diz à Samaritana e a nós: «Aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna».

Uma nascente a jorrar para a vida eterna. A esta promessa somos prometidos. Por isso, «a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado».

Pe. António Martins, III Domingo da Quaresma

Giancarlo Pavanello, Loghismoi (A Avareza), 2026

O rico egoísta e sempre ávido
tem os bolsos cheios de bolor e esterco,
acorrentado a um cofre-forte.
O anjo abandona o mono-maníaco,
envergonha-se da sua metamorfose em rato insaciável
e relegado para a sua cloaca preferida.

Ciclo de catequeses do Papa Francisco
Os vícios e as virtudes

A AVAREZA

A avareza não é um pecado que diz respeito unicamente às pessoas que possuem grandes bens, mas é um vício transversal, que muitas vezes não tem nada a ver com o saldo da conta corrente. É uma doença do coração, não da carteira.

As análises que os padres do deserto fizeram sobre este mal demonstraram como a avareza podia apoderar-se até de monges que, depois de ter renunciado a enormes heranças, na solidão da sua cela apegaram-se a objetos de pouco valor: não os emprestavam, não os compartilhavam e muito menos estavam dispostos a dá-los (…). Para curar esta doença, os monges propunham um método drástico, mas deveras eficaz: a meditação sobre a morte. Por mais que uma pessoa acumule bens neste mundo, de uma coisa estamos absolutamente certos: que eles não caberão no caixão. Não podemos levar os bens connosco! (…) Estas simples considerações levam-nos a intuir a loucura da avareza, mas também a sua razão mais recôndita. Ela é uma tentativa de exorcizar o medo da morte: procura seguranças que na realidade se desfazem no exato momento em que nos agarramos a elas (…).

Noutros casos, são os ladrões que nos prestam este serviço. Inclusive nos Evangelhos eles são citados várias vezes e, embora as suas ações sejam censuráveis, podem tornar-se uma admoestação salutar. Assim prega Jesus no sermão da montanha: «Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros a fim de os roubar. Acumulai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os corroem, nem os ladrões arrombam os muros, a f im de os roubar» (Mt 6, 19-20). Ainda nas narrações dos padres do deserto, conta-se a vicissitude de um ladrão que surpreende o monge durante o sono, roubando-lhe os poucos bens que guardava na cela. Quando acorda, sem se perturbar com o que tinha acontecido, o monge põe-se no encalço do ladrão e, quando o encontra, em vez de reclamar os bens roubados, entrega-lhe as poucas coisas que lhe restam, dizendo: “Esqueceste de pegar nisto!”.

Irmãos e irmãs, podemos ser senhores dos bens que possuímos, mas muitas vezes acontece o contrário: são eles que acabam por nos possuir. Alguns ricos já não são livres, nem sequer têm tempo para descansar, devem estar atentos porque a acumulação de bens também exige a sua guarda. Estão sempre ansiosos, porque um património se constrói com muito suor, mas pode desaparecer num instante. Esquecem-se da pregação evangélica, que não afirma que as riquezas em si são um pecado, mas certamente constituem uma responsabilidade. Deus não é pobre: é o Senhor de tudo, mas – escreve São Paulo – «de rico que era, fez-se pobre por vós, para que vos tornásseis ricos pela sua pobreza» (2 Cor 8, 9). É isto que o avarento não compreende. Podia ser motivo de bênção para muitos, mas ao contrário acabou no beco sem saída da infelicidade.

(Papa Francisco, Audiência Geral de 24 de janeiro de 2024)

A IRA

A ira trata-se de um vício particularmente tenebroso, e talvez seja o mais simples de identificar do ponto de vista físico. A pessoa dominada pela ira tem dificuldade de esconder este ímpeto: reconhecemo-lo pelos movimentos do seu corpo, pela agressividade, pela respiração ofegante, pelo olhar sombrio e carrancudo.

Na sua manifestação mais penetrante, a ira é um vício que não dá tréguas. Se nasce de uma injustiça sofrida (ou assim considerada), muitas vezes não se desencadeia contra o culpado, mas contra o primeiro desventurado. Há homens que reprimem a ira no lugar de trabalho, demonstrando-se calmos e tranquilos, mas, quando chegam a casa, tornam-se insuportáveis para a esposa e os filhos.

A ira é um vício alastrante: é capaz de tirar o sono e de nos levar a tramar em continuação na mente, sem conseguir encontrar uma barreira aos raciocínios e aos pensamentos. A ira é um vício destrutivo das relações humanas. Exprime a incapacidade de aceitar a diversidade do outro, especialmente quando as suas escolhas de vida divergem das nossas. Não se limita aos comportamentos errados de uma pessoa, mas lança tudo no caldeirão: é o outro, o outro tal como ele é, o outro enquanto tal que provoca a raiva e o ressentimento. Começa-se a detestar o tom da sua voz, os gestos banais do dia a dia, os seus modos de raciocinar e de sentir.

Quando a relação chega a este nível de degeneração, já se perdeu a lucidez. A ira faz perder a lucidez. Pois às vezes uma das caraterísticas da ira é a de não conseguir atenuar-se com o tempo. Nestes casos, até a distância e o silêncio, em vez de acalmar o peso dos desentendimentos, aumentam-no. É por este motivo que o apóstolo Paulo – como ouvimos – recomenda aos seus cristãos que enfrentem imediatamente o problema e busquem a reconciliação: «Que o sol não se ponha sobre a vossa ira» (Ef 4, 26). É importante que tudo se dissolva imediatamente, antes que o sol se ponha (…).

No “Pai-Nosso”, Jesus faz-nos rezar pelas nossas relações humanas, que são um terreno minado: um plano que nunca está em perfeito equilíbrio. Na vida lidamos com devedores que estão em falta para connosco; assim como nós certamente nem sempre amamos todos na medida certa. A alguém não restituímos o amor que lhe era devido. Somos todos pecadores, todos, e todos temos a conta no vermelho: não o esqueçamos! Por isso, todos devemos aprender a perdoar para ser perdoados (…).

Mas, a propósito da ira, há uma última coisa a dizer. É um vício terrível, dizia-se, está na origem de guerras e violências. O prefácio da Ilíada descreve “a ira de Aquiles”, que será causa de “lutos infinitos”. Porém, nem tudo o que nasce da ira está errado. Os antigos estavam bem conscientes de que em nós subsiste uma parte irascível, que não pode nem deve ser negada. As paixões são, em certa medida, inconscientes: acontecem, são experiências da vida. Não somos responsáveis pelo nascimento da ira, mas sempre pelo seu desenvolvimento (…). Existe a santa indignação, que não é a ira, mas sim um movimento interior, a santa indignação. Jesus conheceu-a várias vezes na sua vida (cf. Mc 3, 5): nunca respondeu ao mal com o mal, mas na sua alma teve este sentimento e, no caso dos mercadores do Templo, realizou uma ação forte e profética, ditada não pela ira, mas pelo zelo pela casa do Senhor (cf. Mt21, 12-13). Devemos distinguir bem: uma coisa é o zelo, a santa indignação; outra é a ira, que é má.

(Papa Francisco, Audiência Geral de 31 janeiro de 2024)