Iniciamos este tempo oportuno de revisão de vida, de descida às profundezas do desejo que nos faz viver (e também alienar), de encontro íntimo com o Pai que nos espera no silêncio do quarto interior, que é a Quaresma. Cada um(a) de nós, com coragem e humildade, é chamado(a) a fazer uma peregrinação interior, a escavar no coração as fontes da vida, mas também dinâmicas de alienação e de morte. E esse trabalho interior é pessoal e intransmissível: ninguém o pode fazer por nós. A descida e a permanência na habitação interior («o quarto onde o Pai nos espera»), é uma exigência permanente da vida cristã. É um lugar para morar e enraizar-se. Que nenhum de nós fuja de si próprio neste tempo de Quaresma: escave-se, analise-se, lute consigo mesmo, descubra-se nas suas dimensões mais alienantes, abrace-se, renda-se ao incondicional perdão que o Pai nos dá. Temos diante dos nossos olhos os painéis do artista italiano contemporâneo Giancarlo Pavanello sobre os pecados capitais que nos vão ajudar e motivar na nossa descida interior, até às cavernas onde está em ebulição o fogo do desejo.
Na narrativa dos Génesis, no meio da normalidade, da beleza e da harmonia da criação, aparece um elemento perturbador que vai falsificar a Palavra de Deus: uma serpente falante. Uma serpente falante?! Esse animal repugnante, esquivo, sem beleza atrativa, rastejante, mergulhado no pó da terra, fala a linguagem humana. É astuta! Entra em cena de mansinho, insinuando a mentira na aparência de uma verdade adulterada. A função simbólica da serpente tem carga profética, a de revelar e denunciar as potencialidades obscuras do coração humano, de cada um de nós. A serpente falsifica o mandamento divino que é dom de amor. Deus coloca todas as árvores de fruto à disposição do Homem mas com um limite: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Porque se não respeitar limites, o apetite pode devorar tudo e semear a morte. A Lei e o limite protegem o Homem da voragem mortal do desejo, comer tudo, de tudo se apropriar, tudo devorar. O mandamento divino é pedagogia para o desejo humano. Mas esta Palavra é falsificada. Diz a serpente à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?». Não, não é verdade; é mentira. A verdade é, precisamente, o contrário: «Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore do conhecimento do bem e do mal».
Conhecemos bem, processos de fabricação da mentira com a aparência de verdade falsificada. Esses processos (diabólicos, diga-se) podem insinuar no nosso próprio discurso, nos discursos políticos contemporâneos manipuladores das emoções e dos desejos. A serpente introduz no coração de Eva a rivalidade com Deus, a apetência que parece inocente pelo que é belo, sedutor e atraente: «A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu o fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela». E, enganados pela palavra falsificadora da serpente que lhes apresenta Deus como rival, limitador do dom, descobrem-se humanos indefesos: «Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas». E que vergonha expor-se na sua própria vulnerabilidade.
A serpente é símbolo da idolatria. No imaginário cristão, conheço duas lendas de monges que travam uma luta de morte com serpentes, cada um numa ilha. Na Ilha de Lérins, Santo Honorato, nos inícios do século IV, luta com as serpentes. As serpentes ainda por lá andam, metidas nas rochas e nas raízes das árvores. Mas a lenda tem uma expressão de verdade existencial, o combate vital consigo mesmo, com a desordem das próprias paixões, essas serpentes que, à imagem da serpente do Génesis, insinuam mentira, falsificação, ruina espiritual. A luta contra as paixões desordenadas do desejo é herança que Santo Honorato recebeu dos Padres do deserto e levou para o sul de França. Outra lenda narra que um jovem bretão chamado Patrick foi capturado e feito escravo por celtas irlandeses. Não se sabe bem como (nem há fontes que o provem…) teria passado uma temporada em Lérins, aprendendo a combater as serpentes como Santo Honorato. Por outras palavras, inseriu-se na tradição ascética do monaquismo egípicio que, depois, teria levado para a Irlanda. Na Irlanda, claro, vai travar uma luta de morte com as serpentes da ilha (nesta ilha onde não havia serpentes). Mas a serpente é também símbolo na mitologia celta. A serpente aparece, pois, como símbolo da luta permanente do cristão consigo próprio, a suscitar a disciplina da contensão do desejo. É um símbolo que vai tomando várias formas e expressões. Dos Génesis ao Apocalipse, do princípio ao fim, a figura da serpente tem a função de perverter o desejo, de separar o Homem da fonte da verdade interior e de Deus. Mas é um símbolo a ser derrotado (como fez Cristo, Honorato e Patrício): «E nunca mais encontraram lugar no céu: o grande dragão, a Serpente antiga, a que chamam também Diabo e Satanás» (Ap 12, 9).
Lemos, com perplexidade, hoje no evangelho de Mateus que «Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome». À primeira vista parece que o Espírito Santo e o Diabo são aliados. O Espírito Santo conduz Jesus para as garras do tentador. Leitura insensata e simplista. Prefiro dizer que na mais profunda experiência de tentação humana, de confronto com sedutores projetos de vida bela e feliz, triunfante e bem-sucedida, sem limites nem espaço para o dom e para o acolhimento, há uma presença do Espírito: nada do que humanamente é vivido fica fora do projeto de Deus. Aí onde somos no mais profundo de nós mesmos postos à prova, expostos a tentações sedutoras e promissoras, contamos com a assistência do Espírito, a inspirar as nossas escolhas, a fortalecer a nossa vontade, a consolidar a nossa liberdade sempre em risco, sempre ameaçada.
No relato das tentações, Jesus é confrontado com três propostas de projetos de vida bem-sucedidos, no mais íntimo da sua liberdade. Entre a liberdade filial de Filho que tudo recebe do Pai, e a liberdade autónoma de si mesmo (aparente engano), com um projeto de vida próprio, audaz, mas escravo de senhores e tiranos que sugam a liberdade, Jesus confronta-se e luta. A escolha do Reino não foi caminho fácil. Jesus escolhe o caminho da vulnerabilidade humana, dos limites aceites, e não de uma vida de domínio. Também as escolhas fundamentais que dão forma e promessa à nossa vida são questionadas: se tivesse escolhido outra coisa, estaria hoje mais rico, mais feliz. Como se as nossas escolhas, feitas uma vez com audácia, discernimento, de corpo inteiro, não tivessem mais valor; fossem meros enganos que só acrescentaram em nós pobreza, limitações, riscos. Que bela uma vida abundante, de fartura, de barriga cheia, com a mesa farta, sem privações. Uma vida aburguesada marcada pela gula: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Ou uma vida de sucesso, qual artista de espetáculo público, perito em truques mágicos para nunca cair da zona da aclamação. A vanglória: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Ou, por fim, essa terceira tentação, a mais perigosa, aquela que implica uma rendição total da liberdade filial de Jesus. A soberba e a ruína completa da liberdade: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Dizia o Papa Francisco, nas catequeses de 2023 sobre os pecados capitais: «Com efeito, a vida espiritual do cristão não é pacífica, linear, sem desafios; pelo contrário, a vida cristã exige um combate constante: o combate cristão para conservar a fé, para enriquecer os dons da fé em nós». Não há progresso na vida espiritual sem o tal combate interior, a luta dentro de si mesmo com contínuas e novas tentações, que nunca acabam, que vêm em novos formatos, com novas linguagens. Hoje sugeridas pelas conexões dos algoritmos. Não ficámos nós surpreendidos quando no youtube nos aparecem sugestões de filmes segundo os nossos gostos, ou aquela viagem paradisíaca, há tanto sonhada e adiada, ou de livros. O algoritmo é a nova forma da serpente que rastreia e cruza o rasto que deixamos na net, e devolve-nos desejos (sugestões) segundo o nosso perfil. Hoje o deserto das nossas tentações bem pode ser o ecrã dos nossos computadores, tablets ou telefones. É próprio da serpente metamorfosear-se, para estar sempre perto de nós. Fala a nossa linguagem quotidiana.
Vivemos no limiar de duas alternativas que não se equivalem. E em cada dia precisamos de avaliar a que reino servimos, se o de Adão, se o de Cristo. Que força e orientação do desejo nos fazem viver: a sedução falsificadora da verdade de nós mesmos, sem limites, ou a aceitação da verdade pobre e vulnerável da nossa própria condição humana, sem máscaras? Essa mesma que Cristo assumiu e nunca mais rejeitou, mesmo nas mais violentas tentações. Nunca recusou deixar de ser homem.
Gritemos, inflamados de um desejo orante, o de purificar o coração de todas as tentações passionais: «Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme. Não queirais repelir-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade».
Pe. António Martins, I Domingo da Quaresma
O COMBATE ESPIRITUAL
Ciclo de catequeses do Papa Francisco
Os vícios e as virtudes
O COMBATE ESPIRITUAL
(…). Com efeito, a vida espiritual do cristão não é pacífica, linear, sem desafios; pelo contrário, a vida cristã exige um combate constante: o combate cristão para conservar a fé, para enriquecer os dons da fé em nós. Não é por acaso que a primeira unção que cada cristão recebe no sacramento do
Batismo – a unção catecumenal – é sem perfume algum e anuncia simbolicamente que a vida é uma luta. Sim, na antiguidade os lutadores eram completamente ungidos antes da competição, quer para tonificar os músculos, quer para tornar o corpo esquivo às garras do adversário. A unção dos catecúmenos torna imediatamente claro que ao cristão não é poupada a luta, que o cristão deve lutar: também a sua existência, como a de todos, deverá descer à arena, pois a vida é uma sucessão de provações e tentações.
Uma célebre frase atribuída a Abade António, o primeiro grande padre do monaquismo, reza assim: “Tira as tentações e ninguém se salvará”. Os santos não são homens aos quais foi poupada a tentação, mas pessoas bem conscientes de que as seduções do mal aparecem repetidamente na vida, para ser desmascaradas e rejeitadas. Todos nós experimentamos isto, todos nós: ter um mau pensamento, o desejo de fazer isto ou de falar mal do outro… Todos, todos nós somos tentados, e
devemos lutar para não cair nessas tentações. Se algum de vós não tem tentações, que o diga, pois isto seria algo extraordinário! Todos nós temos tentações, e todos devemos aprender a comportar-nos em tais situações.
Há muitas pessoas que são egocêntricas, que pensam que estão “bem” – “Não, eu sou bom, sou boa, não tenho estes problemas”. Mas nenhum de nós está bem; se alguém se sente bem, sonha; cada um de nós tem muitas coisas a corrigir, e também devemos estar vigilantes. E às vezes acontece que
vamos ao Sacramento da Reconciliação e dizemos, com sinceridade: “Padre, não me lembro, não sei se cometi pecados…”. Mas isto é falta de conhecimento do que acontece no coração. Somos pecadores, todos nós! E um pequeno exame de consciência, um pequeno olhar interior far-nos-á bem. Caso contrário, correremos o risco de viver nas trevas, porque nos habituamos às trevas e já não conseguimos distinguir o bem do mal. Isaac de Nínive dizia que, na Igreja, quem conhece os seus
pecados e chora por eles é maior do que aquele que ressuscita um morto. Todos nós devemos pedir a Deus a graça de nos reconhecermos pobres pecadores, necessitados de conversão, guardando no coração a confiança de que nenhum pecado é demasiado grande para a misericórdia infinita de Deus Pai. Esta é a lição inaugural que Jesus nos dá!
Vemo-lo logo nas primeiras páginas dos Evangelhos, em primeiro lugar quando nos falam do batismo do Messias nas águas do rio Jordão. O episódio tem em si algo de desconcertante: por que se submete Jesus a este rito de purificação? Ele é Deus, é perfeito! De que pecado se deve arrepender Jesus? De nenhum! Até o Batista fica escandalizado, a ponto de o texto dizer: João queria impedi-lo, dizendo: «Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti. E tu vens a mim?». Mas Jesus é um Messias muito diferente do que João o tinha apresentado e do modo como as pessoas o imaginavam: não encarna o Deus irado, não convoca para o julgamento mas, pelo contrário, põe-se na fila com os pecadores. Como? Sim, Jesus caminha connosco, com todos nós, pecadores. Não é um pecador, mas está entre nós.
(…) E logo após o episódio do batismo, os Evangelhos narram que Jesus se retira para o deserto, onde é tentado por Satanás. Também aqui se põe a questão: por que o Filho de Deus deve conhecer a tentação? Também neste caso, Jesus se mostra solidário com a nossa frágil natureza humana e torna-se o nosso grande exemplum: as tentações que atravessa e vence no meio das pedras áridas do deserto são a primeira instrução que dá à nossa vida de discípulos. Ele experimentou o que também nós devemos sempre preparar-nos para enfrentar: a vida é feita de desafios, provações, encruzilhadas, visões opostas, seduções ocultas, vozes contraditórias. Algumas vozes são até persuasivas, a ponto que Satanás tenta Jesus recorrendo às palavras da Escritura. Devemos preservar a lucidez interior para escolher o caminho que nos conduz verdadeiramente à felicidade e depois esforçar-nos para não parar ao longo do caminho.
Lembremo-nos de que estamos sempre divididos entre extremos opostos: a soberba desafia a humildade; o ódio opõe-se à caridade; a tristeza impede a verdadeira alegria do Espírito; o empedernimento do coração rejeita a misericórdia. Os cristãos caminham constantemente sobre estes cumes. Por isso é importante refletir sobre os vícios e as virtudes: ajuda-nos a superar a cultura niilista em que os contornos entre o bem e o mal permanecem matizados e, ao mesmo tempo, recorda-nos que o ser humano, ao contrário de qualquer outra criatura, pode sempre transcender-se a si mesmo, abrindo-se a Deus e caminhando rumo à santidade.
(Papa Francisco, Catequese de 3 de janeiro de 2024)


