«A política, enquanto forma mais elevada da caridade e com vista à construção do bem comum, não deve promover ódio nem divisão. Nem mesmo a luta a favor da vida ou a defesa da identidade cristã podem implicar, para um cristão, prescindir das verdades do Evangelho e da doutrina social que dele brota». Publicam-se a nota da Comissão Nacional de Justiça e Paz, de 26 de janeiro de 2026, «Contra a apropriação política dos valores cristãos», e a nota da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga, «A importância democrática da escolha presidencial», de 3 de fevereiro de 2026.

Contra a apropriação política dos valores cristãos
Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz

Considerando o atual momento em Portugal, a Comissão Nacional Justiça e Paz alerta para os riscos da instrumentalização dos valores cristãos para fins políticos.

Esta instrumentalização não é inédita. Tem-se assistido, nos últimos tempos, à colagem de partidos e movimentos aos valores das comunidades cristãs, através do aproveitamento de causas como a defesa do direito à vida intrauterina ou da defesa da exposição do presépio em espaços públicos, promovendo simultaneamente a discriminação e discursos de ódio. Esta estratégia visa captar eleitores que priorizam esses temas e que, por essa razão, tendem a relativizar outras posições políticas, mesmo quando estas contradigam as verdades do Evangelho.

As Igrejas cristãs e os seus fiéis devem tomar consciência do seu importante papel numa denúncia corajosa e num afastamento claro de tudo aquilo que perverte o valor fundamental de amor ao próximo.

A política, enquanto forma mais elevada da caridade e com vista à construção do bem comum, não deve promover ódio nem divisão. Nem mesmo a luta a favor da vida ou a defesa da identidade cristã podem implicar, para um cristão, prescindir das verdades do Evangelho e da doutrina social que dele brota. Uma vez que a fé cristã se funda na dignidade inviolável da pessoa e na fraternidade universal, a defesa dessas causas não pode estar dissociada dos ideais de solidariedade, verdade, justiça e paz, sem ficar corrompida.

É neste horizonte que deve situar-se o compromisso cristão na vida pública. É imperioso manter espírito crítico e rejeitar políticas que destruam os laços sociais e gerem injustiças. A Comissão exorta a um compromisso sério e empenhado com os valores democráticos, a defesa intransigente dos direitos humanos, a proteção dos mais pobres, a coesão social, a cooperação entre povos e políticas orientadas para o desenvolvimento integral de todos. É nisso que deve assentar a verdadeira radicalidade daqueles que estão comprometidos com o Evangelho.

Lisboa, 27 de janeiro de 2026
A Comissão Nacional Justiça e Paz

A importância democrática da escolha presidencial
Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga

A democracia tem sido objeto de uma profunda reflexão dos Papas mais recentes. “Uma democracia sem valores converte-se facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado, como a história demonstra”, escreveu o Papa João Paulo II na encíclica Centesimus Annus (1991). “Vendo que todo o tipo de intolerância fundamentalista danifica as relações entre pessoas, grupos e povos, comprometamo-nos a viver e ensinar o valor do respeito, o amor capaz de aceitar as várias diferenças, a prioridade da dignidade de todo o ser humano sobre quaisquer ideias, sentimentos, atividades e até pecados que possa ter”, instou o Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti (2020). Nela se pode, a seguir, ler que “enquanto os fanatismos, as lógicas fechadas e a fragmentação social e cultural proliferam na sociedade atual, um bom político dá o primeiro passo para que se ouçam as diferentes vozes”.

Para o Papa Francisco, se é certo “que as diferenças geram conflitos”, também é verdade que “a uniformidade gera asfixia e neutraliza-nos culturalmente”. Daí o apelo” “Não nos resignemos a viver fechados num fragmento da realidade”.

A participação cívica inspirada por uma consciência cristã não pode, pois, ceder à tentação do ressentimento, ainda que revestido de virtude, sucumbindo a princípios dissimulados, não olhando a meios para atingir os fins. Do mesmo modo, não pode ceder à ideia de que o bem comum se constrói à custa da negação da dignidade humana ou do desprezo da moral ditada pelo Evangelho. Ainda há dias, a Comissão Nacional Justiça e Paz se manifestou Contra a apropriação política dos valores cristãos (27 de janeiro de 2026).

Jesus Cristo, que seguimos, ensina-nos que “é pelos frutos que se conhece a árvore” e que a justiça que ignora a misericórdia acaba sempre por se tornar estéril. Num tempo de escolhas coletivas decisivas, talvez o maior desafio seja distinguir entre a firmeza que protege a dignidade de todos e a dureza que apenas promete ordem, esquecendo que nenhuma comunidade se salva afastando-se dos valores e causas que a fundam.

O espaço público tem vindo a ser cada vez mais assolado pelo ruído, pela simplificação e pelo apelo ao medo, pelo endeusamento de políticas discriminatórias e de radicalidade identitária. Daí ser crucial recordar que a tradição cristã nunca se conformou com soluções fáceis, nem com discursos que dividem o mundo entre os “bons” e “maus”, “puros” e “impuros”, proteção ou intimidação.

Porque a vida coletiva não se constrói sobre a exaltação da força, mas sobre a dignidade e sacralidade existencial de cada pessoa; não sobre a exclusão, mas sobre a responsabilidade, a urgência na busca de consenso e na justa igualdade para todos; não sobre a exploração das fragilidades coletivas, mas sobre a exigência ética de cuidar do outro, sobretudo quando ele é incómodo.

Seguindo o conselho do Papa João XXIII, apresentado na encíclica Mater et Magistra (1961) precisamos de edificar uma comunidade “em que todos os membros serão sujeitos conscientes dos próprios deveres e dos próprios direitos, e trabalharão em plano de igualdade, pela consecução do bem comum universal”.
A nossa fé, quando levada a sério, é tudo menos reativa: é profundamente crítica, exigente e avessa a qualquer instrumentalização do sofrimento ou da insegurança. E se, como nos recordou Jules Michelet, “a História narra a luta da liberdade contra a fatalidade”, a contribuição ativa e consciente dos cristãos é crucial no impacto sobre as decisões políticas de modo a favorecer a responsabilidade de todos para promover mais justiça e progresso social, no caminho da solidariedade como a verdadeira “virtude social”, com mais e melhor cidadania complementada por uma política de exemplo e modelo de moderação.

Por tudo isto, a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga considera um inalienável dever cívico e decisiva consequência da fé cristã que todos votem no próximo domingo, na segunda volta das eleições presidenciais. No complexo e perigoso mundo de hoje, estas eleições são assaz relevantes para o destino da nossa Democracia, do nosso Estado de Direito, do nosso Estado Social, da visão de sociedade que ambicionamos para Portugal.

3 de fevereiro de 2026