Queridas Irmãs, queridos Irmãos,
Mais um ano no calendário da história e das nossas vidas. Bem sabemos que o tempo conta-se em anos e em dias, em horas e minutos, mas esse é o tempo convencional dos calendários e os relógios. A experiência da vida vai-nos ensinando que o tempo é movimento, intencionalidade, processo interior de vivências, sempre com o seu tempo demorado. «O tempo, esse grande escultor», na feliz expressão de Marguerite Yourcenar, vai-nos esculpindo por dentro e por fora. Vamos tomando a forma enrugada da vida esculpida na carne e no coração, essas marcas visíveis e invisíveis do vivido. Somos corpos marcados pelo tempo, e essa é a grande bênção, a de acolher o dom da vida em cada dia renovada.
S. Paulo, no trecho da Carta aos Gálatas, coloca-nos no coração do mistério de Cristo, dom do Pai: «Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adotivos». Em Cristo, o tempo alcança a sua plenitude, a sua plena densidade e a sua decifração. A espera dá lugar ao cumprimento da promessa. O amor do Pai transborda para toda a Humanidade no dom do Filho feito carne, nascido de mulher. Estamos na profundidade da experiência cristã, sermos introduzidos, como filhos e filhas muito amados, na própria relação de Cristo com o Pai. O seu amor filial feito dom, o Espírito Santo, é derramado em nossos corações, e cada homem e cada mulher clama, no gemido silencioso do Espírito, uma prece filial: «Abba! Pai!».
O evangelho de Lucas, hoje proclamado, é a continuação do anúncio aos pastores do nascimento do Menino, lido na noite de Natal: «encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura»; «os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura. Quando O viram, começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino». Lucas, com a sua arte de narrar, envolve-nos e introduz-nos na própria narrativa: as palavras e os gestos dos pastores convocam-nos também ao acolhimento jubiloso do anúncio, a uma pronta decisão de correr a Belém, de nos deixarmos contagiar pela sua alegria e pelo seu encanto: «E todos os que ouviam admiravam-se do que os pastores diziam». Precisamos de dilatar o nosso coração para além da estreiteza dos gestos repetidos, da normalidade da vida. Precisamos de acolher o excesso do dom que nos visita na forma da mais profunda vulnerabilidade, um Menino envolto em panos. Porque esta é forma pela qual Deus vem a nós, nos engrandece e nos abençoa.
Na carne tenra do Menino, Deus vem a nós na forma da vulnerabilidade. E, na fragilidade do Menino recém-nascido, podemos fazer das nossas fragilidades um caminho de encontro, de fraternidade e de paz. Recordamos o saudoso Papa Francisco que nos lembrava: «a fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos tão frequentemente a negar os limites e a fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade» (Fratelli tutti, 4). Neste nosso tempo de emergência da força, da rentabilidade e da eficácia, do lucro imediato e da violência grosseira, o caminho dos pastores para Belém e o seu maravilhamento perante o Menino, são apelo a uma resistência ativa ao triunfo do ódio, da acusação do outro, do insulto imediato.
A Mensagem do Papa Leão XIV para o 59º Dia Mundial da Paz (2026) retoma e desenvolve o seu primeiro apelo, aquando da sua eleição, de «uma paz desarmada e desarmante» (ler Mensagem). Na lógica dominante dos discursos da guerra, da legitimação da violência, da força, do reforço das políticas de segurança armada, para não dizer de conquista, a Mensagem do Papa, na sequência do magistério pontifício recente, assume uma posição declaradamente de «não violência». O Papa Leão alerta para o perigo de fazermos hoje da paz um ideal distante, impraticável. Isso vai legitimando e normalizando formas de violência, ataques diários.
Pelo contrário, a paz é uma opção de orientação de vida, a experimentar em cada dia por cada um(a): «Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública. Na relação entre cidadãos e governantes, chega-se a considerar uma culpa o não estar suficientemente preparada para a guerra, para reagir aos ataques e para responder à violência. No plano político, essa lógica de oposição, muito além do princípio de legítima defesa, é o dado mais atual numa desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível. Não por acaso, os repetidos apelos para aumentar as despesas miliares – e as escolhas que disso decorrem – são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia».
Nos discursos e estratégias dominantes, parece que o caminho da guerra e da violência é o mais normal, inevitável até. O Papa Leão lembra, denunciando, o aumento da despesa militar a mobilizar recursos nos orçamentos dos estados. Cita Santo Agostinho, fonte da sua espiritualidade: «Quem ama verdadeiramente a paz ama também os inimigos da paz». O Papa recorda o apelo a «um desarmamento integral», já presente na encíclica Pacem in terris, de João XIII. Entra aqui o lugar das religiões e das tradições espirituais, ao promoverem uma autêntica cultura da paz e do diálogo entre os povos, não legitimando formas de violência: «Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus».
Regressemos ao evangelho de Lucas proclamado, para contemplarmos o silêncio ativo de Maria a interiorizar a densidade de experiências e de acontecimentos que está a viver. Narra-nos Lucas: «Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração». Maria acolhe e elabora o excesso de sentido dos acontecimentos que a ultrapassam na sua capacidade de compreender o seu nexo. Como leitores e ouvintes, o evangelho de Lucas nos conduz à interioridade contemplativa e ativa (de elaboração do sentido) de Maria, essa alquimia do coração. A experiência crente não dispensa uma elaboração interior do sentido das coisas e dos acontecimentos que de imediato nos ultrapassam pela sua grandeza e intensidade. Só com o tempo vamos entrando na unidade do vivido e decifrando o seu fio condutor. Só com o tempo vamos percebendo a linguagem de Deus, o que nos quer dizer, a partir da nossa experiência e do nosso sentir. Por isso, com tempo e paciente silêncio contemplativo, precisamos de voltar à memória das nossas experiências para perceber, na linguagem própria da vida, o sentido da vontade de Deus.
Hoje celebramos a mais antiga declaração dogmática que a tradição cristã elabora sobre a Virgem Maria, a sua condição de Mãe do Filho de Deus feito homem e, por isso mesmo, nomeada como «Mãe de Deus» (Theotókos/genetrix Dei). O título «Mãe de Deus» diz duas dimensões complementares do mistério de Cristo e de Maria: Cristo, Filho de Deus, recebe do corpo de Maria o realismo da sua humanidade. Nunca nos cansaremos de meditar e contemplar a relação de afeto e de ternura que a maternidade divina de Maria oferece a Cristo, não apenas na gravidez e no nacimento, mas ao longo de toda a vida de Deus, até à sua morte na cruz. Maria é a Mãe que continuamente gera o Filho no amor e, por isso, pode interceder por nós junto do Filho. Uma antiga prece egípcia do século III já a invoca como Mãe de Deus: «À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém».
Para todos e todos invoco a bênção de Deus, neste primeiro dia do ano, com uma antiga bênção celta das terras irlandesas, adaptada à linguagem cristã:
Que a estrada se abra à tua frente,
que o vento sopre levemente em tuas costas,
que o sol brilhe morno e suave em tua face,
que a chuva caia de mansinho em teus campos.
E até que nos encontremos de novo…
Que Deus guarde na palma das suas mãos.
Que as gotas da chuva molhem suavemente o teu rosto,
que o vento suave refresque o teu espírito,
que o sol ilumine o teu coração,
que as tarefas do dia não sejam um peso nos teus ombros,
e que Deus te envolva no seu manto de amor.
Pe. António Martins, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus


