A concretização de um sonho antigo
A peregrinação deste ano foi a concretização de um sonho antigo, com mais de dez anos e, sucessivamente, adiado. Nasceu, precisamente, no meu aprofundamento vivencial da espiritualidade cisterciense, inserido na vida comunitária do Mosteiro de Sobrado, Galiza/Espanha, no verão de 2013. Ao mesmo tempo que lia Bernardo de Claraval, Guilherme de Saint-Thierry, Aelredo de Rivaulx, crescia em mim o sonho de visitar as primeiras abadias cistercienses (Citeaux, Clairvaux, Fontenay…), aí onde nasceu e se propagou, por toda a Europa, a nova reforma cisterciense. Lugares densos de história, de cultura, de espiritualidade, onde o rigor formal da arquitetura nos fala ainda dessa aventura de dar forma (beleza) à própria existência, através da vida monástica, na prática da regra de S. Bento (ora et labora). Confesso o meu interesse pessoal, «materializar» nos lugares pessoas, escritos, narrativas de experiências dessa audaz e criativa geração que foram os primeiros cistercienses. Talvez de forma um pouco «romantizada» e idealizada.
A ideia começou a ter a sua tentativa de concretização ainda antes da pandemia, logo adiada pelo confinamento. Foi recuperada em intencionalidade no ano passado, de novo adiada pela logística avassaladora dos Jogos Olímpicos, em Paris, que tudo condicionavam. Finalmente foi possível concretizar este sonho antigo no verão passado (julho de 2025). Às abadias cistercienses da Borgonha acrescentou-se a passagem, inevitável, por Paray-Le-Monial, lugar decisivo na espiritualidade do Coração de Jesus. Pouco a pouco, como que em paralelo, ou como expressão estética da viagem, foi-se construindo também itinerário artístico, cruzando a exuberância imaginativa do românico com a elegância transfiguradora do gótico. E a peregrinação ia tomando forma espiritual, paisagística, cultural, estética. Foi preparada com contributos de especialistas em história do monaquismo medieval, da espiritualidade e da arquitetura religiosa. Devolvemos a palavra a S. Bernardo, revisitando os seus escritos.
Pouco a pouco apareciam inscrições, e o meu sonho ia tomando forma até que, finalmente, se concretizou no terreno. Contamos com o apoio logístico da agência Alegretur que, desde a primeira hora, acolheu «o meu sonho» e soube concretizá-lo, fazendo com que tudo desse certo no alojamento, nas refeições, nos transportes, nas visitas aos lugares com acompanhamento de guias locais. Erámos ao todo 34 pessoas que ousaram sonhar com o Capelão, arriscar o encontro com o desconhecido e a itinerância diária. Graças à cooperação de todos, fizemos uma peregrinação intensa e exigente, no esforço, na assimilação de experiências, no cumprimento de horários, na ajuda entre todos. Pouco a pouco a distância inicial foi dando lugar ao encontro. A dinâmica de grupo foi crescendo. A densidade das celebrações, com partilha da palavra e de experiência, ajudou a construir um sentir comum. E, assim, nos cumprimos como peregrinos e peregrinas a caminho, com a ajuda (e de que maneira!) do autocarro.
Vimos ruínas provocadas pela fúria da Revolução Francesa, ou de revoltas mais antigas, mas também iconoclastas, como foi a guerra com os huguenotes, no século XVI. A nossa inicial idealização das abadias cistercienses foi confrontada com a violência da história. Mergulhamos na serenidade da beleza paisagística da Borgonha, marcada pela produção de vinho. Visitamos abadias e igrejas românicas e góticas, memórias vivas da fecundidade da cultura e da espiritualidade cristãs. Revistámos a densidade dramática da história. Recordámos a correspondência amorosa entre Heloísa e Abelardo, a violenta disputa entre Abelardo e S. Bernardo, o apelo de S. Bernardo à cruzada, a força construtora do abade Suger que fez da abadia de S. Denis, periferia de Paris, o berço teológico e arquitetónico do gótico. Navegámos por naves de abadias em ruína, ou, por milagre, ainda intactas. A abadia de Claraval foi transformada em prisão. Fontenay sobreviveu, quase intacta, por ser sido uma fábrica de papel. Fomos, também nós, transfigurados pela beleza luminosa dos vitrais das catedrais góticas de Auxerre, Reims, Saint Denis e Paris. Despedimo-nos de França celebrando a eucaristia em Notre Dame, devolvida à límpida nudez da pedra após o recente restauro. Rezámos, celebrámos em conjunto a fé, percorremos, cada um a seu passo e com o seu esforço, o mesmo caminho. Cumprindo um itinerário, simultaneamente, espiritual, cultural e paisagístico, aprofundámos duas tradições que marcaram o catolicismo ocidental, a espiritualidade cisterciense que deu forma à Europa no século XII, e a espiritualidade do Coração de Jesus que, a partir do século XVII, introduziu no catolicismo uma dimensão afetiva e de ternura.
P. António Martins
Homilias (Pe. António Martins)
Homilia de 16 de julho, na abadia de Vezlay
Estamos nesta catedral românica de Vezlay, antiga abadia cluniacense, dedicada a venerar a memória e a presença das relíquias do corpo de Santa Maria Madalena. A memória do culto desta santa, tão fascinante quanto enigmática na Igreja primitiva sobre a qual ao longo da história se criaram narrativas fantasiosas e imaginativas, está, pois, ligada à hagiografia deste lugar. A figura «compósita» da Maria Madalena, como pecadora pública arrependida e primeira testemunha de Cristo ressuscitado. A Ordem de Cluny fazia de Maria Madalena um símbolo do ideário de uma Igreja em conversão, que se procura reformar numa maior fidelidade ao seu Senhor. Numa piedosa narrativa do início dos anos mil, Maria Madalena teria vindo para o sul de França e aí teria morrido como asceta. Por volta do ano 1050, os monges da abadia de Vezlay (aqui mesmo!!) proclamaram a descoberta do «verdadeiro» esqueleto de Maria Madalena. E Vezlay tornou-se num importante centro de peregrinações, em cuja história nós hoje nos integramos. Cerca de duzentos anos mais tarde (1279), em Saint Maximini de Sainte-Beaume, Provence, outro «verdadeiro» esqueleto de Santa Maria Madalena é descoberto. E Vezlay é destronada por Aix-en-Provence.
Nesta curiosa e enigmática discípula de Jesus concentra-se um conflito e uma sobreposição de interpretações. A criatividade e a fantasia foram criando novas (e piedosas) narrativas. Marida Madalena é alguém que, ao longo da história, sempre convocou a imaginação e assinala a possibilidade de uma mudança radical de vida (a conversão). Cada época imagina a sua Maria Madalena. Também a nossas, desde o filme A Ultima tentação de Cristo, de Scorsese, ao Código da Da Vinci, de Dan Brown. Partimos dos dados do Novo Testamento, aqueles que acolhemos como fundamento da tradição cristã. Maria Madalena é uma das mulheres que seguem Jesus desde a Galileia e colocam os seus bens ao serviço dos apóstolos (cf. Lc 8,1-3). Foi curada de «sete demónios». Está junto à cruz aquando da crucifixão de Jesus (Jo 10,25), talvez por ser menos arriscado a uma mulher do que a um homem seguir um crucificado. Em Mateus, é uma das mulheres que, na manhã de Páscoa, vai de manhãzinha à sepultura de Jesus (cf. Mc 16,1). No evangelho de João, Maria Madalena é apresentada como a primeira testemunha do Ressuscitado e aquele que pelo Senhor é enviada junto dos outros apóstolos (cf. Jo ). Estamos no evangelho que lemos e que fundamenta, na reforma litúrgica do pós-Concílio, a memória de Maria Madalena, a partir do rigor bíblico e não da criatividade fantasiosa. Como Pedro aparece sempre como o primeiro dos apóstolos, Marida Madalena aparece como a primeira entre as discípulas de Jesus.
A curiosidade da identificação dos «sete demónios», dos quais foi curada Maria Madalena, deu azo a uma figura compósita. Passou-se a identificar Maria Madalena com a mulher apanhada em flagrante adultério colocada diante de Jesus (cf. Lc 7,36-50), e com a mulher que unge o Senhor com um preciso perfume e lhe enxuga os pés com os seus cabelos. Vai-se elaborando a crença, sobretudo no ocidente latino, de que Maria Madalena teria sido uma prostituta rica. Esta identificação com a mulher pecadora vai impor-se na cristandade latina a partir do século VII, com Gregório Magno, em que os «sete demónios» passam a ser identificados como pecado de adultério (ou adultérios). E toda uma pregação moralizante, de apelo à conversão, se vai elaborando. Esta leitura «moralizante» e moralizadora nunca foi aceite pela tradição ortodoxa, mais fiel ao que diz o Novo Testamento.
O cristianismo gnóstico (exotérico e heterodoxo, digamos assim), ao longo dos séculos II e II, vai apresentar Maria Madalena em rivalidade com Pedro e com os apóstolos, desenvolvendo uma hermenêutica feminina do seu apostolado. O texto Pistis Sophia, do século II, apresenta Maria Madalena em concorrência com Pedro, iniciada nos mistérios da sabedoria divina: «Maria, bendita, a quem aperfeiçoarei em todos os mistérios das alturas, discursa abertamente, tu, cujo coração está elevado ao reino dos céus mais do que todos os teus irmãos». Simão Pedro desabava com o Mestre de não poder mais suportar os discursos de Maria Madalena, que não deixa ninguém mais falar. Alguns apócrifos exaltam a condição feminina de Maria Madalena, outros, como o Evangelho de Tomé, lamentam-na: «Deixai Maria sair do nosso grupo, porque as mulheres não são dignas da vida». Responde Jesus que ela fica no grupo, mas tornada homem. «Toda a mulher que se fizer homem entrará no reino dos céus». No Evangelho de Filipe, Maria Madalena aparece numa relação de proximidade e intimidade com Jesus, para escândalo dos discípulos que o interrogam: «Por que a amas mais do que a nós?» Alguns textos apócrifos chegam mesmo a afirmar uma relação esponsal entre os dois. No Evangelho de Maria, dedicado precisamente a Maria Madalena, as mulheres podem ser salvas tão como são, mulheres. Maria Madalena aparece, neste texto, a ensinar Pedro. Pede-lhe o primeiro dos apóstolos: «Irmã, sabemos que o Salvador te amou mais do as outras mulheres. Diz-nos as palavras do Salvador que conheces, e nós não conhecemos nem ouvimos». Na sua complexidade, imaginação, esoterismo, estes textos, expressão de um cristianismo gnóstico (esotérico), assinalam uma tradição que reflete bem, com tensões, contradições e fantasia, a importância de Maria Madalena no cristianismo primitivo.
E qual a nossa pessoal apropriação de Maria Madalena? O que significa ela para cada um de nós, homens ou mulheres? Que nos diz hoje a «apóstola dos apóstolos»? Diz-nos que a nossa vida é uma promessa, tem futuro. Podemos ser curados dos nossos muitos «demónios» que nos impedem de sermos nós mesmos, e arriscar um seguimento incondicional do Senhor. Sem renunciarmos à nossa identidade. Maria Madalena é aquela que segue Jesus na inteireza da sua condição de mulher; incondicionalmente até à cruz, enquanto os apóstolos o abandonam com medo. É a mulher de coração fiel, aquela que, como diz S. Bento em sua regra, nada antepôs a Cristo. Nela podemos ver existencialmente cumprida a passagem de Paulo lida: «Se alguém está em Cristo é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado».
Aquela que procura na sepultura os restos do Senhor que lhe transformou a vida e lhe devolveu a esperança, encontra-se com o vazio e a ausência. Todos nós bem sabemos que o lugar onde depositamos os nossos mortos são ainda um sinal um resto da sua presença. Mas aquele lugar de morte não contém o morto. Há um vazio, e nesse vazio um novo modo do Senhor se tornar presente a nós, para além do tempo e do espaço, para além do contacto imediato, do tocar e ser tocado. Imaginamos que quando Maria Madalena reconheceu Jesus, lançou-se a ela para o abraçar. «Não Me detenhas, porque ainda não subi para o Pai». Podemos imaginar como Maria Madalena ficou perplexa, desconsertada, confusa até. O Senhor retrai-se ao seu toque e paralisa-a no seu atrevimento. Pouco a pouco vamos percebendo que nos convoca a uma vivência da sua presença para além do contacto corpóreo e físico. A fé no Senhor apela a uma conversão dos nossos sentidos e da nossa sensibilidade, a um estar na sua presença privados de contacto físico. Há na fé um despojamento radical. Nesse «não me detenhas» a nos questionarmos até que ponto não somos obstáculo e impedimento à liberdade dos nossos irmãos, com as nossas pequenas «detenções» e dependências afetivas. O encontro com o Senhor ressuscitado convoca-nos a uma vivência da afetividade também ela ressuscitada e liberta das suas amarras.
Homilia de 15 de julho, na abadia de Claraval
Há muito que desejava visitar este lugar. E estar aqui hoje convosco é concretização de um sonho antigo. Possivelmente a realidade que aqui encontramos, o complexo de uma prisão, desconcerta-nos em relação a tudo aquilo que temos ouvido sobre Claraval e a expansão da Ordem de Cister a partir desta abadia mãe. O complexo monástico de outrora deu lugar, hoje, a um complexo prisional. Outrora foi lugar de penitência voluntariamente procurada, depois passou a ser lugar de penitência judicialmente imposta. A aventura monástica era uma escolha de liberdade; ser prisioneiro uma experiência de liberdade suspensa. Outrora, aqui, o monge experimentava um percurso pascal, de passagem do Homem Velho para o Homem Novo, deixando-se conformar com Cristo, em tudo igual a nós menos no pecado. O cumprimento da pena procurava ser regenerativo, mas nada garante que o tenha sido. Entre a memória do passado de um espaço de liberdade, e o encontro no presente como espaço de liberdade retirada, que síntese se pode fazer?
Tanto o monge como o preso descobrem-se miseráveis, na linguagem de S. Bernardo, a pedir à sociedade (aos irmãos) misericórdia e compaixão. Tanto o monge como o preso lutam com a solidão interior, a desolação, a repetição dos mesmos gestos quotidianos, o encontro com as mesmas pessoas que, por vezes, se torna violento. A vida quotidiana num mosteiro, sem a motivação interior que lhe dá sentido e forma, pouca diferença tem, em sua exterioridade, da vida numa prisão. Podemos encontrar, até, uma certa afinidade entre o monge e o preso, apesar da incomensurável diferença de circunstâncias e de motivações que os separa. O que diferencia o mosteiro da prisão é a aventura interior de liberdade, a paixão por Cristo que resulta em compaixão pelos irmãos e pela inteira humanidade. Porque o monge é um orante, irmão de todos os homens e mulheres, cuja humanidade continuamente oferece e agradece a Deus.
Aqui evocamos esse grande líder do monaquismo medieval que foi S. Bernardo. Podemos imaginá-lo, e não é inverosímil, por aqui, sentado em alguma pedra, bebendo de alguma fonte, descansando na frescura da sombra de alguma árvore, após ter ditado aos seus secretários alguma carta. Ou passeando com algum príncipe, bispo, papa ou abade. Podemos imaginá-lo, por aqui, a arquitetar algum sermão sobre o Cântico dos Cânticos. Podemos dar rédeas à imaginação, sabendo que poderia ter sido possível. Entre nós e ele separam-nos nove séculos. Mas lendo aqui hoje algumas passagens dos seus escritos, a sua palavra torna-se viva para nós, porque fala a partir da autenticidade da experiência. É uma palavra credível porque é sincera; fala da vida à nossa própria vida. Dirige-se ao coração, apela à nossa sensibilidade. Por isso continua a ser uma palavra atual, pela sua sinceridade, pela sua inspiração evangélica, pela sua forca profética, pela sua elegância poética.
Hoje, como no passado, S. Bernardo não deixa ninguém indiferente. Podemos concordar com ele, ou nos opormos com frontalidade. Podemos achar que foi intransigente e radical, violento, implacável e manipulador. De uma forma mais objetiva, há nele passagens e atitudes que profundamente nos inspiram, outras que nos suscitam inteira rejeição. Também nós, lendo os seus textos, não ficamos indiferentes. No seu tempo, S. Bernardo foi uma daquelas pessoas (poucas!) que fraturou, questionou, denunciou; foi violento e pacificou; foi aclamado e acusado, exaltado e humilhado. Paradoxal e contraditório, nele a experiência cristã alcança dimensões sublimes e a política eclesiástica da época golpes baixos de manipulação. Se nos irrita em S. Bernardo a sua dieta ascética, rejeitando um bom vinho ou um prato mais requintado, em nome de uma educação e concentração dos sentidos, apaixona-nos a forma como soube integrar o desejo, a afetividade, a experiência amorosa. Proclamou e viveu o evangelho através da linguagem amorosa (cavaleiresca e trovadoresca) do seu tempo. E daí o seu sucesso. A sua palavra era experiência vivida e, por isso, credível. Falou a pessoas concretas, de carne e osso, a partir do seu sentir e do seu afeto. Tudo nele foi a procura de dar «forma» (formosura, beleza) a uma inteireza de vida. A beleza formal do rigor geométrico da arquitetura cisterciense, o despojamento da pedra sem excessos decorativos, está ao serviço de uma arte de bem viver. Porque a vida (do monge) é a grande obra de arte a construir, esse deixar-se transformar e unificar por Cristo em tudo o que faz, sente, vive e pensa.
Os textos bíblicos escolhidos procuram assinalar quanto a Palavra de Deus inspirou a vida e os textos escritos por S. Bernardo. Todo ele transpira Escritura; e os seus textos são tecidos e entrelaçados continuamente com passagens bíblicas. O Salmo 18 é um elogio à Lei/à Palavra de Deus: «As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida». A vida monástica procura ser uma ruminação da Palavra de Deus cantada no coro e meditada na lectio divina. O monge é como a abelha que procura na flor o suco do pólen para fazer mel. Procura saborear a Palavra para viver com sabedoria. «[Os preceitos do Senhor] são mais preciosos que o ouro, o ouro mais fino; são mais doces que o mel, o puro mel dos favos». S. Bernardo soube explorar o «mel» dos versículos, sugá-lo, saboreá-lo e partilhar com os seus irmãos monges essa experiência gostosa e sapiencial da Escritura. Por isso foi chamado de «Autor Melífluo», porque as suas palavras inspiram-se e transmitem o mel das Escrituras. Estando hoje aqui, na abadia de Claraval, e ouvindo a Palavra de Deus que profundamente inspirou S. Bernardo, cada um(a) de nós aproxime-se da Escritura como abelha que vai extrair o mel do rochedo do texto (e o texto pode ser mesmo rocha, resistir à nossa leitura…). Que a Palavra de Deus seja fonte de inspiração e de sabor para a nossa vida; e em nós se torne sabedoria, arte de bem viver.
Outra dimensão dos textos bíblicos hoje lido é a metáfora nupcial. Podemos interpretar toda a Escrita como um relato de paixão amorosa entre Deus e o seu povo, a inteira humanidade. O livro do Cântico dos Cânticos inspirou S. Bernardo e os padres cistercienses da primeira geração. Havia mesmo um estilo literário cultivado nas abadias cistercienses: comentar o Cântico dos Cânticos. Este livro dá voz ao desejo de uma donzela pelo seu amado: «O meu amado passou a sua mão pela fresta e as minhas entranhas estremeceram por ele. Levantei-me para abrir ao meu amado». Mas o amado desaparece, e o desejo só aumenta. Em busca do amado, a amada arrisca o perigo na noite, expondo-se à violência dos guardas: «se encontrardes o meu amado, sabeis o que dizer-lhe? Que eu desfaleço de amor». O amado é interpretado como o Verbo (esposo) que visita a alma humana (a sua esposa). A visita é fugaz, apenas pressentida.
A ausência do amado (de Cristo) suscita o desejo do encontro. Não faz diminuir a intensidade do amor, como escreve S. Bernardo, porque quem ama não teme: «A amada não pode temer. Tremem os que não amam e suspeitam contínuas vinganças. Eu, pelo contrário, amo e não posso duvidar que me ama [o Verbo], e tão pouco do meu amor. Não posso temer o seu rosto, porque experimentei o seu amor» (Serm. CC. 84, I. 6, in SAN BERNARDO, Obras Completas V, BAC, Madrid 1987, 1041.). A vida monástica, e por que não afirmar toda a aventura crente, pode ser nomeada através da linguagem amorosa/nupcial. Através da linguagem do Cântico dos Cânticos, a experiência cristã sobe integrar o desejo (o eros), a afetividade, a sensibilidade na vida espiritual que nada recusa do sentir corpóreo, mas eleva-o. O desejo bem pode ser outro nome da presença de Deus em nós, esta capacidade de amar e de se apaixonar, de, no profundo da própria carência, elevar-se ao encontro com o Outro. Afirma Bernardo: «Deus faz com que desejes, e é Ele o que desejas».
O primeiro milagre/sinal realizado por Jesus, segundo o evangelho de S. João, foi ir a um casamento e transformar a água em vinho, respondendo a uma carência assinalada por Maria, sua mãe: «Não têm vinho!». O vinho novo, o que vem por último, o mais excelente, é símbolo de Cristo em suas bodas com a humanidade. O abraço do Verbo à carne da nossa humanidade é compreendido, misticamente, como encontro nupcial, como festa de bodas. Há quem diga que a noiva, ausente no texto bíblico, é símbolo da Humanidade e da Igreja que acolhem o Esposa, o vinho novo que vem por último. O vinho, que é símbolo da alegria e da festa, da vida comungada, é também símbolo da vida dada na dor e no amor, do cálice do sangue de Cristo que na cruz nos amou até ao fim. Toda a espiritualidade de S. Bernardo está centrada em Cristo, aquele que comunga connosco a mesma carne, em tudo igual a nós menos no pecado. Por isso pode compadecer-se da nossa fraqueza porque a experimentou na própria carne.
Toda a vida de S. Bernardo foi a escrita existencial de um poema de amor apaixonado por Cristo, vivido de corpo inteiro. Escreveu, num dos seus mais belos textos da obra De diligendo Deo (Sobre o Amor de Deus): «a medida do amor a Deus é amá-lo sem medida. Por outro lado, o objeto do nosso amor a Deus é ele mesmo, um ser imenso e infinito» (De diligendo Deo, VI.16, in SAN BERNARDO, Obras Completas I, BAC, Madrid 1993, 323.). E continua: «Quem ama a Deus não fica sem recompensa, ainda que devamos amá-lo sem ter em conta este prémio. O amor verdadeiro é indiferente ao prémio, pois não é interessado. É um afeto do coração, não um contrato. Não é fruto de um pacto, nem busca nada análogo. Brota espontâneo e manifesta-se livremente. Encontra em si mesmo a sua satisfação. O seu prémio é o próprio objeto amado» (De diligendo Deo, VII.17, in SAN BERNARDO, Obras Completas I, 325.). Todos bem o sabemos: amar é a grande vocação humana, e amar no dom de si mesmo, o traço de identidade da vocação cristã. Lendo os textos de Bernardo descobrimos a frescura de uma palavra sincera, autêntica, que brota da raiz do ser e do sentir: existo para amar, e amando participo no próprio mistério de Deus. Podemos ter vivo amores feridos, relações que chegaram ao fim, mas se amamos de coração inteiro, mesmo feridos, cumprimo-nos. Porque o amor verdadeiro não exige recompensa, ama por si mesmo.
Que S. Bernardo, evocado e lido na vizinhança da sua abadia de Claraval, nos ajude a cumprir-nos no amor, mesmo de coração rasgado; e que as nossas feridas do amor sejam fontes de bênção para os outros, não de ressentimento, de violência ou de acusação.
Homilia de 17 de julho, na catedral de Reims
Estamos a fazer um circuito através de catedrais e abadias góticas: Auxerre, uma das primeiras, agora Reims, uma das mais esplendorosas, logo à tarde Saint Denis, matriz e inspiração das igrejas góticas, e, por fim, Notre Dame de Paris, devolvida à sua beleza e magnificência, após o restauro. Uma catedral é uma Bíblia visual. Mas para chegar a este esplendor arquitetónico e artístico muito caminho foi necessário fazer. O que floresceu na arquitetura e na iconografia góticas foi a maturação de uma epistemologia, digamos assim, uma conjugação de saberes e de experiências: técnicas de construção, técnicas decorativas, exegese bíblica, meditação da Escritura, contemplação da natureza, eclesiologia (conceção de Igreja), filosofia, espiritualidade…
As primitivas comunidades cristãs não se preocuparam em construir edifícios, nem tinham posses para isso. Romperam com o templo de Jerusalém e se compreenderam a si mesmas como templo santo, vivo, concreto. O culto desloca-se do templo para a existência. Não prescindindo da metáfora da arquitetura, da edificação, as comunidades cristãs nascentes compreenderam-se como realidades existenciais que se vão edificando, na complementaridade entre pessoas, carismas e ministérios. Paulo, no trecho que lemos da Primeira Carta aos Coríntios, oferece-nos significativas grelhas de leitura. Ele próprio se apresenta como «sábio arquiteto» que o foi na fecundidade apostólica e na capacidade de organizar comunidades: «Segundo a graça de Deus que me foi dada, eu, como sábio arquiteto, coloquei o alicerce e outro levanta o edifício».
A edificação da comunidade cristã não é obra de uma pessoa: há uma evolução, uma dinâmica de relações, de gerações, de uns após outros, etapa a etapa. Uns colocam os alicerces, outros levantam o edifício, outros decoram os interiores, outros restauram e conservam. A Igreja é um projeto sempre em construção, nunca finalizado. E cada pessoa é uma «pedra viva» na construção do templo do Senhor, cuja rocha e alicerce é Cristo. É obra humana, pois depende do compromisso de cada um de nós, mas acima de tudo é obra do Espírito Santo, fonte da fecundidade da vida eclesial: «Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?» Pergunta provocatória que nos interpela e nos convoca para agirmos em consequência: «Veja cada um como constrói».
Numa complexa evolução semântica, o termo «igreja»/ecclesia vai ser aplicado também ao edifício onde a comunidade cristã se reúne e celebra a eucaristia. À medida que se vai estruturando o projeto unificante de «Cristandade», uma unidade de todos os saberes e dimensões da vida inspirados no evangelho e tendo a Igreja como interprete autorizado, juntamente com o crescimento urbano e o aumento populacional (a partir do séculos XI-XII), os templos vão-se ampliando em volume, altura e profundidade. A litúrgica complexifica-se; é celebração pública e esplendorosa. A Igreja e a sociedade compreendem-se como corpo unitário e hierarquizado, uma unidade na diversidade. O alargamento arquitetónico e a exuberância do programa iconográfico (decorativo) de abadias e catedrais expressa essa eclesiologia: dar corpo e expressão, através da unidade dos materiais, ao corpo que é a Igreja. As catedrais são expressão da autonomia e do poder dos bispos locais, libertos da tutela dos senhores feudais. São também expressão das correntes intelectuais, filosóficas, exegéticas que se maturam nas escolas das catedrais e que vão estar na origem das futuras universidades. A catedral, como edifício público, procura afirmar a Igreja no espaço público: é o centro da cidade e a síntese de todo o saber (filosófico, teológico, exegético, arquitetónico, vidreiros, carpinteiros, mestres de obras, pedreiros…).
Através das suas esculturas, das imagens dos seus vitrais, o programa iconográfico das catedrais é uma catequese bíblica visual; procura dar a ver, para uma população maioritariamente analfabeta, a Escritura, fazendo corresponder cenas do Antigo ao Novo Testamento, numa compreensão unitária e cristológica da Escritura: as cenas do AT prefiguram o cumprimento das Escrituras que é Cristo, Verbo encarnado (exegese tipológica). A visão da Cidade Santa, a Jerusalém Celeste do Livro do Apocalipse, inspira a edificação, na horizontalidade e na altitude, do templo físico e a sua decoração: «Tinha o resplendor da glória de Deus: brilhava como pedra preciosa, como pedra de jaspe cristalino; tinha uma grande e alta muralha com doze portas; nas portas havia doze anjos e em cada uma estava gravado o nome de umas das doze tribos de Israel» (Ap 21, 11-12). A arquitetura traduz a compreensão da Igreja como comunidade que se edifica na articulação das suas partes fazendo um todo, numa harmonia de proporções, como nos declara Paulo na Carta ao Efésio: «sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo Cristo como pedra angular. É nele que toda a construção bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor» (Ef 2,19-21). Tudo isto podemos nós já ver nas catedrais e abadias românicas (Saint Bénigne de Dijon, Cluny, Vezlay). Mas em que é que o gótico inova?
Vamos ao evangelho hoje lido. Na dura disputa com os fariseus do seu tempo (grupo judaico profundamente piedoso), Jesus afirma: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,15). A vida cristã procura ser uma experiência de «iluminação», uma tomada de consciência de Cristo como verdade que ilumina a existência e rasga novas compreensões de Deus, do Homem, da vida, do universo. Cristo, o Filho, é «luz da luz» que é o Pai, fonte de toda a luz. Toda a criação começa pelo aparecimento da luz. Numa filosofia cristã de inspiração platónica, todas as criaturas são compreendidas como centelhas da luz divina, marcadas por uma «iluminação» que lhes vem de Deus. Todo o universo é um facho luminoso. A luz une todas as coisas numa ordem cósmica. A matéria é boa e luminosa; o corpo humano é bom e luminoso, apesar das trevas do pecado. Por isso, a existência é um contínuo combate entre a luz e as trevas. Cristo ressuscitado cura o Homem com a luz da ressurreição. Por Cristo, pelo qual tudo foi criado na luz, e para Cristo, destino esplendoroso e glorioso de tudo, toda a Humanidade e toda a criação se transfiguram. A luminosidade e a bondade da matéria têm destino eternos. Como afirmou um teólogo medieval do século XII, Hugo, da Abadia de São Vítor de Paris, inspirando num autor místico do século VI, conhecido como Pseudo-Dionísio, o Areopagita: «Deus, o Pai das luzes, é o bem em si mesmo e autor dos bens que dele provêm; estes bens são luzes, e iluminam os seres que podem brilhar e tornar-se brilhantes pelo efeito da luz que os ilumina».
Esta noção de luz é a chave da renovação do projeto arquitetónico e decorativo que o abade Suger empreendeu, entre 1137e 1153, na abadia de Saint-Denis, matriz de toda a arte gótica. A inspirar o gótico há toda uma teologia e uma mística (contemplação) da luz: através da luminosidade das coisas visíveis, o crente ascende à contemplação e ao conhecimento das realidades invisíveis. A luminosidade da pedra, dos vitrais, das janelas, das rosáceas, a altura e o volume das catedrais, a subtileza e a solidez da construção com ogivas cruzadas, com arcos, procura ser uma pedagogia contemplativa, uma transfiguração luminosa da matéria e do Homem, uma orientação de vida, pois o Homem e o universo brotam da luz e à luz se destinam. Num tempo em que começa a surgir o maniqueísmo dualista cátaro, com a diabolização do corpo e da matéria, as catedrais são a celebração da matéria criada (luminosa) como caminho de contemplação e de acesso à luz divina. A catedral oferece um caminho de luz transfigurada pelas cores dos vitrais. Propõe uma ascensão ao crente, ou a nós que agora nos queremos deixar imergir e inundar por esta luz transfigurada que nos transfigura e ilumina. O espaço interior da catedral, o itinerário visivo (iconográfico) revelam-nos, por imagens, a Palavra de Deus que ilumina os nossos passos e ressuscita em nós a luz original com que fomos criados, à imagem da Luz Divina.
A catedral é uma síntese do universo, um microcosmo. Tem a forma de cruz e do corpo humano, do corpo de Cristo crucificado, Homem Novo. Na arquitetura e iconografia de uma catedral gótica, todo o universo se concentra e se transfigura. Podemos dizer que uma catedral é uma suma teológica em pedra, uma enciclopédia visual, uma Bíblia em imagens (os vitrais são iluminuras). As esculturas celebram, na pedra, a carne, o drama da vida, o Verbo encarnado que assumiu a nossa humanidade carnal e a matéria do universo. Celebra-se, na pedra, a humanidade de Cristo, a vulnerabilidade do Menino que nasce, o corpo ferido do Crucificado. O Cristo do Juízo Final, no pórtico de Saint Denis, está rodeado dos símbolos da sua paixão. O hieratismo do românico dá lugar ao naturalismo do gótico, com traços de doçura. Apetece tocar as imagens, fazer carícias à Nossa Senhora que apresenta o Menino ao colo (Notre Dame de Paris). Como o vitral, Maria é transparência à Luz que nela encarna. O vitral é símbolo do Homem Novo, transfigurado pela luz que é Cristo.
Visitando, percorrendo e contemplando a arquitetura e a iconografia das catedrais góticas francesas, somos convidados a fazer uma peregrinação de iluminação interior pela via da beleza. Possivelmente alguma imagem bíblica ficou na nossa memória visual. Fomos acolhidos pelo sorriso do Anjo. Ou na contemplação da coroação de Maria, antevemos a redenção de todo o universo. Abrigados e transfigurados pela beleza das catedrais e das abadias, podemos sair renovados em nossa consciência de sermos «pedras vivas» na construção de uma Igreja que continuamente se reforma, e de uma sociedade que, mais do que nunca, grita por paz e por esperança. Mergulhados de corpo inteiro no espaço, na policromia e na sinfonia visual de uma catedral, somos devolvidos à pergunta de Paulo, com que iniciamos a nossa meditação: «Veja cada um como constrói».
Testemunhos
Semana de viagem no tempo e passeio interior pela alma (António Morais Arnaud)
A passagem pelos mosteiros construídos numa época conturbada da História fez-me imaginar o que terão sentido os milhares de monges que tomaram a decisão de se afastar do mundo para se recolherem em oração e meditação sobre a nossa vocação Divina. Confesso que não me sentiria capaz de tomar decisão tão forte, mesmo que pertencesse a uma elite social, como São Bernardo e os amigos que o seguiram, o que representava alguma segurança.
A abdicação do que pudesse ser a vida confortável da Nobreza para uma clausura de orações a várias horas do dia e da noite, trabalho agrícola e de manutenção, transposta para os dias de hoje, com todas as comodidades da sociedade de consumo, e sem o respaldo de uma família senhorial abastada, seria uma decisão admirável, o que pudemos sentir ao visitar os locais onde a austeridade deixou marcas no tempo.
Impressionou-me a rejeição da deriva de Cluny para a ostentação da riqueza, a grande doença do mundo atual, junta à ganância ilimitada. Talvez esta motivação de S. Bernardo nos ajude a procurar uma ordem de vida mais austera, sem penitencia.
Esta viagem no tempo para o início do milénio passado e finais do anterior, obrigou-me a pensar, e a voltar a ler, sobre as Cruzadas, passando a vê-las do lado da resposta a 400 anos de domínio Muçulmano sobre os Lugares Santos. Foi outra viagem ao regressar.
Noto, em passagem, que também reencontrei Ildegard Von Bingen, de quem já tinha ouvido musica sacra: a dimensão do seu conhecimento sobre plantas medicinais, saúde e energia das pedras impressionou-me, comprei livros e procurei mais informação sobre o seu papel na difusão de conhecimento milenar também vindo do Oriente.
Gostava de partilhar que o meu entusiasmo por esta peregrinação acrescentou, à natural curiosidade, um desejo de comunicar com Santa Margarida Maria de Alacoque, ligada à Margarida Maria com quem vivi 56 anos e cujo nome se deve à devoção do seu padrinho e tio Padre Cruz a Santa Margarida Maria. Aprendi sobre o Coração de Jesus e observei e anotei coincidências que só podem ter uma explicação Divina, como a grave doença cardíaca que se manifestou a meio da vida e à qual a Margarida sobreviveu.
Tudo isto me fez ferver por dentro e no final senti uma grande leveza notada por quem me viu no regresso.
Os 35 peregrinos, com exceção do Sr. Padre António, eram desconhecidos mas durante as numerosas visitas, orações e convívio foi-se criando uma intimidade e descobrindo amigos comuns e inesperadas coincidências.
Senti uma amizade coletiva e uma solidariedade que foi crescendo, abafando a tristeza que me pesava, ficando por isso Grato a todos os amigos que ficaram, em especial ao Padre António pelo trabalho meticuloso na preparação da peregrinação terminada com uma missa na renovada Catedral de Notre Dame.
Mergulhando nas abadias cistercienses… (Luísa Vieira)
Desde que frequentei um curso de História de Arte que fiquei com vontade de conhecer algumas Abadias Cistercienses, pois só tinha visitado o nosso Mosteiro de Alcobaça.
Gostei muito da Abadia de Citeaux, no caminho para Dijon, que foi fundada em 1098 por um grupo de monges da Abadia de Molesme. Foi aqui que S. Bernardo de Claraval iniciou a sua vida monástica. Achei todo o conjunto muito interessante. À entrada no exterior está uma cruz (figura1) e depois, já no interior, podemos ver o claustro dos copistas (figuras 2 e 3) do século XIII e a biblioteca do século XV, onde se consegue aprender mais sobre o universo monástico e a tradição cisterciense (figura 4 – exterior dessa biblioteca e figuras 5).
Há mais coisas para ver, mas foram estas que me chamaram mais a atenção. Também achei muito curioso o facto da Abadia ter produção própria de queijo (fromage de Citeaux, que se pode comprar na loja da Abadia (figura 6). As explicações que nos deram sobre esta Abadia foram muito boas. Também foi aqui que eu fiz uma das leituras.
Para terminar vou citar o que o Papa Francisco pensava dos cistercienses. Num discurso aos cistercienses, afirmou que a vida monástica de oração e contemplação é um serviço missionário que contribui para a evangelização, ensinando que a Igreja, deve levar a Boa Nova ao Mundo. Referiu ainda que a oração num mosteiro é uma maneira de anunciar o amor de Deus e o caminho para o céu.
“Contar os dias pelos dedos e encontrar uma mão cheia” (Maria Carmo Marques Lito (Bli))
“…Ele que abriu diante de nós
uma porta que ninguém pode fechar” (José Augusto Mourão – Consolação)
Para me inspirar, fiz as contas aos quilómetros percorridos na nossa memorável viagem… No Google Maps indicava cerca de 1300 Km em autocarro, desde Lyon a Paris, e cerca de 2700 Km pelo ar.
Também vi as fotos que partilhamos no grupo de WP “Peregrinação à Borgonha” e li, espantada, com o tamanho talento dos textos maravilhosos do Miguel Veiga e da Teresa Vasconcelos, que imprimi, e agradeço, não vá perder a memória, o que seria uma desilusão.
E tenho pensado e recordado muito os amigos que fiz, o que vi, o que aprendi e senti.
Em jeito de confidencia, fiquei marcada por uma viagem que fizemos há um tempo, onde tudo se esfumou, apagando memórias, sem pedir licença. Nessa experiência deteto talvez uma forma inconsciente de cicatrizar um mau bocado, vivido nas vésperas dessa viagem.
Para a Borgonha preparei a mala, roupa confortável, máquina fotográfica. Tudo pronto e a mente mais liberta.
E como “não há bela sem senão” ao terceiro dia, a minha LUMIX foi de castigo para dentro da mala…
Mas passemos estes detalhes malignos… ficar sem fotos e sem memória. Um horror!
Voltando ao antes da viagem, ia lendo umas “coisas” e tentei apanhar ao máximo a informação das ótimas Sessões na Capela, com peritos “TOP”, a sabedoria do P. António, a par do seu entusiasmo. Também gostei das viagens de estudo no nosso Portugal e da entusiasta “aparição” do nosso Agente de viagem António Barrosa, fazendo prever boa organização e profissionalismo. Aproveito para brindar ao incansável “timoneiro”!
Tinha uma espectativa grande em relação ao tema da Viagem, conhecer o grande legado espiritual, arquitetónico, cultural, das abadias cistercienses medievais na Borgonha, que são um berço cultural importante na nossa História de Portugal.
Gostei muito da Viagem, desses 4000 Km percorridos entre o céu e a terra.
Uma certa Paz.
E pergunto. Como foi possível não haver chatices, maledicência, aquelas coisinhas quase adolescentes e ridículas que podem acontecer e minar, e irritar, qualquer criatura bem-intencionada e tolerante, quando se viaja num grupo heterogéneo, muitas horas a fio e por vezes cansaço.
Senti-me contente, abençoada e privilegiada.
Se peregrinar é desejo de proximidade, em muitos momentos o Visitante Invisível passou.
Não sei se o vi.
Estou agradecida pelo bem recebido.
Por tudo o que vi, e aprendi – não esquecendo um passado que também foi tenebroso.
Por me ter emocionado com as pedras, a lisura dos lugares, os monges de Citaux a rezar e o arame farpado em Clairvaux.
Pelas confidências inesperadas que guardo no coração.
Pelas pagelas lindas, feitas com solene cuidado e oferecidas diariamente pelo P. António.
E pelo respeito e delicadeza de tantos gestos.
Pela consciência que a História se repete… e isso é assustador.
Pelo abraço do P. António, na missa na Catedral de Reims no dia dos meus anos – Há abraços que salvam!!
Pelo carinho de todos – num cartão cheio de mensagens queridas e gestos que não vou esquecer e um brinde inesperado ao jantar.
Ah, e pelas gargalhadas sonoras, que adoro, em momentos tão divertidos!
Só falta dizer que Notre Dame renasceu das cinzas, linda e luminosa. E olhou para nós, certamente!
Agradeço muito a todos os que fizeram tanto para nos darem esta alegria e também a companhia.
Há um ditado que diz: “contar os dias pelos dedos e encontrar uma mão cheia”
Peregrinação pelas abadias cistercienses da Borgonha (Maria João Schalk)
De regresso a casa, os telefonemas começam a chegar — vozes ansiosas querem saber se tudo correu como esperava. Mas como responder a isso? A verdade é que eu própria não sabia bem o que esperava destes sete dias longe das minhas rotinas.
Não se tratava de uma viagem de lazer, nem de descanso ou de trabalho. Sabia que ia integrar um grupo em peregrinação, com pessoas que não conhecia, pertencentes à comunidade da Capela do Rato. E sabia, também, que seria necessário abraçar o espírito de partilha – não apenas espiritual, mas também a partilha de momentos celebrativos, de entreajuda, de escuta.
Há muitos anos, li Os Pilares da Terra, o bestseller de Ken Follett, e desde então ficou o desejo de percorrer territórios onde existissem Mosteiros que tivessem sido marcantes no século XII. Mais recentemente, ao ler Portugal – A Primeira Nação Templária, o interesse pelas catedrais cistercienses reacendeu-se. Assim, este percurso foi mais do que uma simples viagem: foi o reencontro com uma curiosidade antiga, agora vivida de forma comunitária e espiritual.
As primeiras impressões chegaram através da ampla janela do confortável autocarro que, em Lyon, acolhera os peregrinos e, ao longo de um percurso de mil quilómetros, lhes facilitou a peregrinação até Paris. Primeira paragem Cluny, onde outrora habitavam homens miseráveis, vestidos de andrajos e cingidos com um vulgar cordão. No majestoso Mosteiro, os jardins são um local propício à meditação, imaginando os monges a passear entre tufos de verde admirável, à procura do belo, da harmonia e do equilíbrio. Na boutique, fiz a única compra desta viagem: o famoso Bálsamo dos Peregrinos, destinado ao tratamento e higiene dos pés.
Estalagem agradável em Paray-le-Monial. Para saciar a fome, uma Terrine de la Campagne.
Até ao final da viagem, ao jantar, este delicioso manjar e uma cerveja bem fresquinha foram uma excelente companhia. Seguiu-se um passeio pela cidade muito bem iluminada, com condições climatéricas de sonho e um céu estrelado, propício à observação de si mesmo em si mesmo!
De Citeaux medieval não restou praticamente nada. Partilhar a celebração de Vésperas com os 13 monges que actualmente habitam a Abadia foi um privilégio que jamais se esquecerá!
Missa dominical em Dijon, na Catedral de Saint Bénigne; impossível confirmar a existência deste santo. Final de tarde com um belíssimo concerto de órgão. Após o pôr-do-sol, celebrou-se o 14 de Julho com um imponente espectáculo de iluminação na Place de La Libération; como companhia, um excelente Chardonnay, símbolo da alegria e festa!
Ville-sous-la-Ferté, onde São Bernardo, acompanhado de alguns monges vindos de Citeaux, fundou o mosteiro de Claraval; nesta abadia, ele poderá ter pregado: “Amo porque Amo, Amo para Amar!
No quinto dia, subir a íngreme colina de Vézelay acabou por não custar assim tanto. A paisagem era aprazível e, muito provavelmente, também ajudou aquela paz interior que fora conquistando. Antes da peregrinação tinha lido que São Bernardo pregou aqui com tanto fervor, a 31 de Março de 1146, que esse momento ficou na história da Segunda Cruzada. Na Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios (2 Cor 5,14-17), lida na Missa celebrada na catedral românica de Vézelay, a 15 de Julho de 2025, encontrei forças para viver com alegria, os três dias seguintes: Se alguém está em Cristo é uma nova criatura. As coisas antigas passaram: tudo foi renovado.
Nas viagens de autocarro seguintes, os peregrinos já trocavam ideias, as conversas iam animadas e o espírito de partilha e escuta estava bem presente. A peregrinação pelas abadias chegou ao fim, mas aguardam-nos agora as magníficas catedrais góticas.
Chegámos cedo a Auxerre, onde o Ibis Styles nos recebeu com uma piscina rodeada por uma paisagem deslumbrante. O quarto era supermoderno; a casa de banho, pequenina, mas funcional e com tudo no seu devido lugar. Descansei a noite inteira na verdadeira “paz dos Anjos”!
Concluída a visita às Abadias seguem-se três esplêndidas Catedrais: Reims, com os extraordinários vitrais de Chagall, Saint Denis, onde repousam para sempre os reis de França; e Notre-Dame de Paris, renascida das cinzas, onde o Grupo participou na Celebração Eucarística do meio-dia.
Respondendo à pergunta que me tinha feito antes desta caminhada, só posso afirmar que correu melhor do que esperava e, acima de tudo, trouxe comigo ferramentas para continuar essa CONSTRUÇÃO, de que falou o Amigo e Mestre, Senhor Padre António, na Missa da Dedicação da Igreja, a 17 de Julho.
Um pequeno passarinho… (Rita Costa)
Não estava nos meus planos escrever, sentia que nada podia acrescentar, ao que já tinha ido sendo escrito, mas hoje, olhando um pequeno passarinho que veio comigo da Borgonha, atrevi-me…
Não vou falar da beleza da região que percorremos, onde tudo se apresentava ordenado, grandioso e bonito ao nosso olhar. A história ao vivo diante de nós, na sua monumentalidade e beleza, onde qualquer plano ou recanto onde os nossos olhos pousassem, tinha um encanto natural.
Destaco o programa, feito à medida do grupo, desenhado com equilíbrio e sensibilidade, seguindo a linha de uma peregrinação onde a espiritualidade era a envolvente que nos conduzia.
Por último, refiro um fator decisivo para tornar o passeio singular: o grupo, a companhia… É a comunidade que nos leva adiante, nos maus e nos bons momentos, e eu que o diga!…
O meu muito obrigada ao Pe. António e a todos, pela abertura, companheirismo e boa disposição!
Em busca da luz – Peregrinação pelas abadias cistercienses da Borgonha (Teresa Vasconcelos) – Testemunho disponível no site 7MARGENS (clique aqui)
Textos Preparatórios (Pe. António Martins)
Para contextualizar na história, nos debates culturais da época, nas correntes de espiritualidade, o P. António Martins preparou três textos: o primeiro sobre a correspondência amorosa entre Abelardo e Heloísa; o segundo sobre o violento confronto teológico entre São Bernardo e Abelardo; e o terceiro sobre o veemente apelo de São Bernardo aos nobres franceses, mobilizando-os para a cruzada à Terra Santa.
ABELARDO E HELOÍSA:
A HISTÓRIA DE UM AMOR IMPOSSÍVEL

Começamos com uma história de amor que aconteceu (porque há documentos a prová-lo) mas envolta também em profunda lenda: o amor impossível no seu tempo entre Abelardo e Heloísa. Com esta nota de telenovela e de romance, iniciamos a nossa peregrinação por terras francesas. Tomamos estes dois personagens e o seu amor, com traços de tragédia, como fio condutor que vai unir os lugares que vamos visitar, a começar por Cluny e a acabar em Paris.
Na dramática história de Abelardo e Heloísa vão entrar Pedro, o Venerável, abade reformador de Cluny, Bernardo de Claraval, Guilherme de Saint Thierry, o abade Suger, construtor de basílica de Saint Denis, berço do gótico, a escola da catedral de Paris, gérmen da futura Surbonne, o efervescente debate intelectual da época, a concorrência entre professores (mestres) que arrastavam alunos. Abelardo e Heloísa são a cifra desse intenso, violento, efervescente e passional século XII que vamos fazer memória. Com o fio condutor de uma paixão amorosa, metemo-nos à estrada em terras de França. Podemos desafiar a nossa imaginação, reinventando os cenários (os lugares) com traços das personagens do nosso romance, entre história e ficção. Através de Abelardo e Heloísa vamos dar densidade afetiva aos lugares que vamos visitar.
Pedro Abelardo (1079-1142), de origem nobre, é um reputado professor de matemática e de lógica na escola catedral de Paris. Homem maduro, por volta dos 40, está no auge da sua carreira académica. É um professor bem pago que atrai alunos e por estes é venerado e respeitado. Suscita apaixonantes adesões, mas igualmente violentas perseguições e acusações. É alguém a quem se venera e a quem se odeia. A este reputado professor de Paris, confia o cónego Flaubert, da catedral de Paris, a sua sobrinha Heloísa (1092-1164). Talvez filha ilegítima, com 16 anos, era uma jovem à frente do seu tempo: sabia latim, grego e hebraico (sobrinha de cónego a quanto obrigas). Foi a primeira mulher a seguir o ensino das artes liberais, reservado aos clérigos. Estava, na intenção do tio, prometida a bom casamento com um nobre cavaleiro (talvez um cruzado que regressasse rico da Terra Santa…).
Abelardo e Heloísa, mestre e discípula, apaixonam-se, subvertendo as normas da época. Vivem o seu amor na clandestinidade (num edifício na Ille de France, que ainda hoje existe). Abelardo compõe canções (com o tema do amor por Heloísa) que serão cantados em tabernas. Em canto, o seu romance circula por Paris. Heloísa fica grávida. Os dois amantes refugiam-se na Bretanha, norte de França, junto de familiares, onde nasceu o filho chamado Astrolábio. Abelardo tenta convencer Heloísa do casamento que esta rejeita. Para Heloísa, o casamento é como uma prostituição, vender a sua liberdade pessoal a um marido (dono) que lhe garantia sustento económico. Prefere ser «concubina» do que «esposa» de Abelardo. Por fim convencida, não sem violência, casam-se secretamente, com a cumplicidade do tio. Ao saber do casamento da sobrinha que, assim, se libertada das garras do tio e de um casamento arranjado, o cónego Flaubert, enfurecido, envia mercenários a perseguir Abelardo. Quer vingança de sangue. Abelardo foi apanhado e castrado. O escândalo rebenta em Paris. Os alunos defendem o mestre, os colegas que o perseguiam têm aí a prova do engano que ele é. O tio Flaubert é destituído do canonicato, os seus bens confiscados.
Após a catástrofe, Heloísa revela-se mais forte do que Abelardo. Aos 18 anos, Heloísa, com a ajuda de Abelardo, entra o mosteiro de Santa Maria de Argenteuil, onde fora educada em criança. Banido da escola catedral de Paris, Abelardo entra no mosteiro de Saint Denis, perto de Paris, mas a sua vocação monástica não convence os monges. Enquanto aí está, escreve um livro sobre a Santíssima Trindade que será denunciado e queimado em Reims, numa reunião de bispos e abades. Abelardo terá uma vida errante, de escola em escola, de mosteiro em mosteiro, sem poiso. Mas nunca lhe faltou o apoio dos alunos que o seguiam, nem de bispos amigos que o defendiam. Nem de acusadores que o perseguiam, espreitando nos seus escritos qualquer traço de heterodoxia. Funda em 1131, com discípulos, um o mosteiro consagrado à Santíssima Trindade, chamado do Paráclito. Forjando documentos, o Abade Suger confisca o mosteiro de Argenteuil (forma de punir Abelardo?), reivindicando que pertencia à jurisdição da Abadia de Saint-Denis.
Heloísa transfere-se para este mosteiro do Paráclito que, com a sua fecunda gestão económica, alcança prestígio. Chegou a ser aí durante largos anos abadessa, com reconhecimento intelectual no seu tempo. Apesar da impossibilidade da vida conjugal, Heloísa solicita a Abelardo que a guie na sua vida espiritual. Pede-lhe ajuda para que este mosteiro tenha uma regra especificamente feminina, pois dizia que a regra de S. Bento fora escrita a pensar em homens e não em mulheres.
Abelardo, para consolar um amigo, faz-lhe uma narrativa sincera das suas infelicidades. O texto chega ao conhecimento de Heloísa que escreve a Abelardo. Os dois amantes trocarão uma fecunda correspondência, amorosa e intelectual. A intensidade da paixão inicial dará lugar a uma apaixonante troca de ideias. O eros dá lugar à filosofia, à comum amizade pela sabedoria, à partilha de questões teológicas e de organização monástica. A correspondência entre Abelardo e Heloísa é um clássico da literatura amorosa e epistolar francesa. Nas suas cartas, Heloísa analisa os próprios sentimentos, as suas paixões, o seu desejo amoroso, com uma impressionante e invulgar sinceridade.
Passional e com traços «feministas», avant la lettre, Heloísa inventa, na cultura ocidental, o princípio do amor livre, liberto das amarras institucionais do casamento, narrado na primeira pessoa, em sua condição feminina. Tendo sido a primeira pessoa a narrar a especificidade do desejo amoroso no feminino (depois da Amada do Cântico dos Cânticos), tornou-se símbolo da paixão amorosa no ocidente. Abelardo, mais racional nas ideias, apresenta-se mais brutal e violento na expressão do desejo, na manipulação de Heloísa. Vê no seu infortúnio um desígnio da Providência para se curar das suas doenças, o orgulha intelectual e a desordem do desejo. Heloísa procura integrar na sua experiência de monja a memória da sua afetividade passada, numa visão mais unitária da vida espiritual. Na sua compreensão do amor por si mesmo, como puro desinteresse, sem nenhuma outra finalidade que não seja a do próprio amor, vemos uma profunda coincidência com S. Bernardo. A espiritualidade e a liturgia cistercienses teriam influenciado o mosteiro feminino do Paráclito. A correspondência amorosa entre Abelardo e Heloísa está no contexto da intensa correspondência de amizade entre monges e monjas na época, revelando uma profunda sensibilidade e sinceridade nas narrativas dos afetos e na expressão do desejo.
Damos a palavra aos amantes. Escreve Abelardo na História das minhas infelicidades: «Na altura estava devorado pela febre do orgulho e da luxúria; a graça divina veio curar-me, apesar das minhas doenças; primeiro a luxúria, depois o orgulho; da luxúria, privando-me dos meios para a satisfazer; do orgulho da ciência das letras (…), humilhando-me pela condenação ao fogo do famoso livro pelo qual tive particular vaidade [o livro que escreveu em Saint-Denis sobre a Trindade]» (Abélard e Héloïse, Correspondence. Perfácio de Étinne Gilson, edição crítica de Edouard Bouyé, Gallimard, Paris 2000, 65. O número da página será citado no texto.). Abelardo, com toda a sinceridade, narra as estratégias que usou para seduzir a jovem Heloísa. Convencido de si mesmo, da sua fama, da sua beleza, da força da sua juventude, julgava que Heloísa lhe seria irresistível. Na carta V, precisa Abelardo: «Sabes a que infâmias os surtos da minha paixão tinham conduzido os nossos corpos; nem o respeito pela decência nem o respeito por Deus, mesmo nos dias da paixão de Nosso Senhor e das maiores solenidades, me puderam arrancar do lamaçal em que me debatia. Tu própria não querias, resistias com todas as suas forças, repreendias-me, e quando a fraqueza da tua natureza devia proteger-te, quantas vezes não usei ameaças e golpes para forçar o teu consentimento! Ardia-me por ti com tal ardor de desejo, que, por essas volúpias miseráveis e infames, cujo próprio nome nos faz corar, esquecia-me de tudo, de Deus, de mim mesmo: poderia a clemência divina salvar-me de outro modo senão impedindo-me para sempre essas volúpias»? (Abélard e Héloïse, Correspondence, 156.)
A esta narrativa confessional, de arrependimento e autojulgamento, responde Heloísa dirigindo-se a Abelardo: «Ao seu mestre, antes, ao seu pai; ao seu esposo, antes, ao seu irmão, a sua serva, antes, a sua filha; a sua esposa, antes, a sua irmã; a Abelardo, a Heloísa» (Abélard e Héloïse, Correspondence, 111.). E, da sua parte, confessa-lhe a sua dor, «é menor a maneira pela qual te perdi do que ter-te perdido» (Abélard e Héloïse, Correspondence, 116.). Ainda que o nome de esposa possa parecer mais digno, chega a afirmar que preferia o nome de «amiga» ou de «concubina» (Abélard e Héloïse, Correspondence, 117.). Na quarta carta, em resposta a Abelardo, espanta-se por este se dirigir a ela como a um superior, colocando o nome dela antes do seu, subvertendo, assim, as regras formas da correspondência e da ordem natural (a mulher estava sujeita ao marido): «a esposa antes do marido, a serva antes do mestre, a monja antes do monge, a diaconisa antes do padre, a abadessa antes do abade» (Abélard e Héloïse, Correspondence, 131.). Penaliza-se, em sua condição de mulher, pelo suplício de Abelardo e por isso faz também penitência: «Entre as mulheres nobres e poderosas, há alguma cujo infortúnio tenha ultrapassado o meu?» (Abélard e Héloïse, Correspondence, 134.)
Os gestos, os tempos, os lugares partilhados pelos amantes permanecem vivos. Revisitando a memória, escreve Heloísa: «Quanto a mim, essas volúpias do amor que saboreámos juntos foram tão doces para mim que a sua recordação não pode desgostar-me nem sequer apagar-se da minha memória. Para onde quer que me vire, elas aparecem, misturam-se ao meu olhar com os desejos que despertam; as suas imagens enganadoras nem sequer me poupam o sono. É até na solenidade da missa, quando a oração deveria ser mais pura, as representações obscenas destas volúpias tomam posse da minha alma miserável, que me preocupo mais com as suas torpezas do que com a oração. Deveria gemer pelas faltas que cometi e suspiro por aquelas que perdi!» (Abélard e Héloïse, Correspondence, 138-139.). E continua: «Não é só o que fizemos, são as horas, são os lugares que testemunham o que fizemos, que estão profundamente gravados no meu coração contigo, que me encontro contigo nos mesmos lugares, às mesmas horas, a fazer as mesmas coisas: Mesmo a dormir, não encontro descanso» (Abélard e Héloïse, Correspondence, 139.). Na Carta VI, Heloísa lamenta-se que não haja regras monásticas próprias para a condição feminina. A própria regra de S. Bento foi escrita a pensar em homens. Pede a Abelardo que institua a regra que no futuro a comunidade do Paráclito deve seguir. À mulher sempre se exigiu mais do que aos homens. Faz eco de uma antiga norma, do Concílio de Calcedónia, celebrado em 451, em que as diaconisas só podiam ser ordenadas após os 40 anos, enquanto que os diáconos apenas com 20. Não parece que Heloísa e o seu mosteiro tenham seguida uma regra escrita por Abelardo. Aproximam-se antes do estilo litúrgico e espiritual dos cistercienses. O próprio S. Bernardo chegou a visitar o Paráclito e aí teria pregado algumas vezes. Defende mesmo Heloísa numa carta dirigida ao Papa Eugénio III.
A correspondência amorosa entre Abelardo e Heloísa foi guardada, talvez secretamente, no scriptorium da abadia de Claraval, possivelmente por um monge copista. Enquanto Bernardo combatia Abelardo, denunciando heresias nos seus escritos, um monge de Claraval, talvez amigo ou antigo discípulo de Abelardo, guardava religiosamente a sua correspondência amorosa com Heloísa. Tantas matizes e tantos contrastes neste fecundo, criativo, passional e violento século XII.
Aquando da morte de Abelardo (1142), Heloísa quer que o corpo do seu amado seja enterrado ao seu lado, o que viria a acontecer 20 anos depois. Em 1817, os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério Père-Lachaise, em Paris, sedo hoje um dos lugares românticos da cidade. Pedro o Venerável, abade e reformador de Cluny, amigo de S. Bernardo, defendeu Abelardo e Heloísa, testemunhando a reputação intelectual da abadessa.
E o filho Astrolábio? A rapaz, como os pais, seguiu a carreira das letras. Foi cónego da catedral de Nantes e, depois, abade na abadia cisterciense de Hauterive, na Suíça. Morre em 1171, aos 54 anos, talvez assassinado.
ABELARDO E BERNARDO:
O CONFRONTO DE DOIS GIGANTES

Vamos assistir a um duelo de gigantes, duas personalidades antagónicas, dois modos contrastantes de ver a relação entre fé e razão, dois líderes que mutuamente se excluíam um ao outro, o inovador Pedro Abelardo e o conservador (para não dizer tradicionalista) Bernardo de Claraval. Neste confronto de gigantes, dramáticos, revemos a fecundidade intelectual, os contrastes eclesiais, a intensidade vida intelectual nos mosteiros ou nas escolas catedrais daquele tempo, o debate violento entre tradição e renovação que acompanha a vida da Igreja de cada tempo.
Bernardo goza de prestígio político; é influente nas relações com reis, príncipes e papas. Chegou a ter, no ocidente latino, uma autoridade superior à do próprio papa. Abelardo era um prestigiado professor que arrastava multidões e fazia fortuna com as aulas. Agostinho cultiva as letras, é um artista na composição retórica do latim, com intensidade poética e emotiva. Valoriza mais a experiência, o sentir, o afeto, do que a racionalidade. É um monge letrado, apegado à tradição. Homem do conhecimento e da racionalidade, Abelardo está na origem do método escolástico (com rigor sistemático, contraditório, argumentação, racionalidade) que marcará a teologia como disciplina universitária. Abelardo está aberto à inovação, a outras compreensões da racionalidade. Cultiva a argumentação e o rigor, enquanto Bernardo foge à dialética, porque a sua formação, mais de letras do que filosofia, não era consistente. Perante a inovação teológica e filosófica de Abelardo, Bernardo fica apavorado. Numa coisa um e outro coincidem, talvez não por acaso: preferiram a carreira das letras à das armas.
Guilherme de Saint-Thierry, abade beneditino e amigo de S. Bernardo, levanta suspeitas sobre a doutrina trinitária de Abelardo. E instiga Bernardo a combater a heresia. Bernardo faz uma exposição dos erros de Abelardo ao Papa Inocêncio II (carta 190). Em causa está, sobretudo, a interpretação trinitária de Abelardo com argumentação da razão. Questiona Bernardo: «Existe algo mais fora da razão do que tentar superar a razão unicamente com forças da razão? E que mais contrário à fé que negar-se a acreditar o que supera a razão?» (In SAN BERNARDO, Obras Completas II, BAC, Madrid1994, 531.) (I.1). Abelardo pede que a questão seja resolvida em público numa reunião de bispos e abades em Sens em julho de 1140. Bernardo tem medo de uma disputa com Abelardo e porque lhe «parecia indigno provar a solidez da fé com pobres raciocínios humanos, quando nos consta que ela [a fé] se apoia na verdade certa e imutável». As duas personalidades mais influentes do tempo excluem-se mutuamente. Bernardo movido pela experiência da fé, Abelardo pelo vigor da razão. Abelardo prepara-se para o triunfo da disputa; Bernardo, prevendo a derrota, vai usar um golpe baixo, manipulando influências. A disputa não acontece, e Abelardo é condenado ao silêncio por instigação de Bernardo. A principal questão é trinitária, a possível não «consubstancialidade» entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Erro atribuído a Abelardo: «O Pai é a potência plena, o Filho uma potência definida, o Espírito Santo nenhuma potência» (Heinrich DENZINGER-Peter HÜNERMANN, Enchiridion Symbolorum, edição bilingue, EDB, Bolonha 2000, citado pela sigla DH.)(DH 721). Corrigindo o radicalismo de Santo Agostinho e da doutrina do pecado original, Abelardo teria defendido: «O livre arbítrio é por si suficiente para [operar] qualquer bem» (DH 725); «De Adão, não contraímos a culpa original mas apenas a pena» (DH 728). Mas, apesar da racionalidade do pensamento de Abelardo, o mesmo não está isento de alguma deriva supersticiosa e mágica: «O diabo inspira sugestões por meio da conjugação de pedras e de ervas» (DH 736).
Abelardo pede recurso ao Papa, e morre aos 63 anos a caminho de Roma, no mosteiro cluniacense de Saint Marcel de Chalon, acolhido e protegido pelo abade Pedro o Venerável, amigo de Bernardo e Abelardo. É possível que tenha tentado uma reconciliação entre os dois, mas sobre isso não há fontes. Pedro o Venerável escreveu um comovente epitáfio para Abelardo chamando-o «Sócrates das Gálias», «o maior Platão do ocidente», «princípe dos estudos em todo o mundo conhecido», «… mais vencedor que nunca foi quando, tendo professado como monge o costume de Cluny, passou-se à verdadeira filosofia de Cristo». Esperava Pedro o Venerável que Abelardo um dia «fosse contado entre os filósofos santos». Bernardo foi declarado santo, Abelardo não, mas não deixou de ser um dos maiores filósofos medievais.
Numa sentida carta escrita à abadessa Heloísa, Pedro o Venerável informa-a da morte de Abelardo e das circunstâncias em que acabou santamente os seus dias, acompanhado e absolvido dos seus pecados: «Aquele ao qual tu antes estiveste unida pelos laços da carne, depois pelos laços sagrados e mais fortes do amor divino, aquele que foi teu companheiro e teu guia no serviço de Deus; esse mesmo, digo eu, Deus o aquece agora em seu seio em teu lugar ou como um outro de ti mesma». Na carta, elogia Heloísa como mulher de letras, «louvável pelos seus estudos que tiveram fama», célebre pela sua erudição e pela sua piedade. E qual outra «nova Eva», também ela «esmagará a cabeça da serpente, esse antigo e pérfido inimigo da mulher».
Neste combate entre as duas maiores personalidades do seu tempo, está a tensão entre tradição e inovação, presente na vida da Igreja em cada tempo, e também hoje, como todos sabemos. Bernardo representa a fidelidade ao monaquismo tradicional, é a expressão de um mundo rural apegado á tradição. Abelardo representa a inovação intelectual, a novidade do conhecimento, o cosmopolitismo urbano, a troca de ideias, a racionalidade da fé. Duas visões de igreja confrontaram-se dramaticamente. Mas houve alguém que fez a mediação, Pedro o Venerável. O futuro deu razão a Abelardo: com ele era já um modo novo que começa a acontecer, o mundo urbano das universidades medieval. Mas fica a questão de fundo de Bernardo: porque haver uma inteligência da fé que seja pura racionalidade sem experiência afetiva, sem vida de contemplativa e leitura orante das Escrituras? É a teologia sabedoria ou pura especulação racional? A questão de Bernardo não está fechada. Bernardo e Abelardo representam duas «almas» da vida católica que, em tensão, se fecundam mutuamente. É dramático quando se polarizam e se tornam incapazes de dialogar. Mas todos nós comungamos da grandeza e dos limites do tempo em que vivemos. E vivemos sempre em tensão criativa, entre fidelidade á tradição e audácia de inovação.
VEZELAY: S. BERNARDO E A TRAGÉDIA DA II CRUZADA

Em tempos como os nossos de invasões militares, aumento das despesas com a defesa nos orçamentos dos estados, de um discurso bélico dominante, do adiamento de soluções de paz, revisitamos a «lógica militar» que levou à mobilização das cruzadas medievas. No ano 1146, em Vezelay, S. Bernardo de Claraval, com a sua pregação inflamada, a sua autoridade incontestada, mobilizou, para não dizer arrebatou, os cavaleiros cristãos a irem defender o reino cristão latino de Jerusalém (resultado da primeira cruzada), sob pressão dos ataques muçulmanos (dos turcos). De uma forma um pouco simples, podemos afirmar que as cruzadas aparecem como uma forma de peregrinação militar à Terra Santa convocadas pelos papas, com privilégios espirituais e temporais, com o objetivo de libertar o túmulo de Cristo da ocupação muçulmana (é a época do ressurgir dos Turcos).
A cruzada era uma forma de fazer penitência, de dar sentido espiritual à cultura guerreia da cavalaria: identificar-se com Cristo, acabar com as guerras fraticidas entre nobres, proteger os fracos, defender a paz. Começou por ser um movimento de massas, de classes inferiores, um pouco anárquico, sem armas. Só depois se tornou um movimento de cavaleiros nobres. Mas cedo se tornou numa aventura de conquista de terras, de ambição de poder e riqueza, longe da sua pureza espiritual. As cruzadas, convocadas pelos papas, em resposta ao pedido de socorro dos cristãos bizantinos, são também uma forma de afirmação da independência do Papado em relação ao Imperador da Alemanha. Com tons apocalíticos, a pregação da I cruzada começa a gerar perseguição aos judeus, considerados inimigos de Cristo. É o fim do estatuto jurídico dos judeus como comunidade integrada e protegida nos reinos cristãos europeus. Um primeiro produto do ideário de cruzada foi o antissemitismo.
Os estados latinos da Terra Santa estão a ser atacados pelo avanço muçulmano. O ducado cristão de Odessa tinha sido tomado; Jerusalém está cercada. O Papa Eugénio III convoca a uma nova cruzada e encarrega Bernardo de Claraval de mobilizar a nobreza francesa. Em 31 de março de 1146, em Vezelay, o Abade de Claraval inflama a multidão de nobres. O rei Luís II, de França, e sua esposa Leonor de Aquitânia, com os nobres franceses, respondem imediatamente. Bernardo percorre outras regiões de França, da Flandres e do vale do Reno apelando à mobilização. A custo, consegue convencer o imperador da Alemanha, Conrado III, que se opunha à mobilização do papa. No Vale do Reno, um pregador inflamado, de nome Raúl, acusa os judeus de não colaborarem com as despesas da cruzada, e suscita fortes perseguições às comunidades judaicas locais. S. Bernardo sai em defesa das comunidades judaicas (carta 326). Segundo o Abade de Claraval, os «judeus são para nós memória viva pois nos representam a paixão de Cristo». Esta sua atitude tem o seu fundamentado na passagem paulina de Rom 11,25-26, em que Paulo espera que o «todo o Israel será salvo».
O êxito da pregação e a mobilização para a peregrinação foi, sem dúvida, devido à capacidade de sedução e liderança de Bernardo. Os exércitos de cada senhor partem, sem coesão interna nem estratégia comum. Uns vão por terra, outros por mar. Os cruzados ingleses, na passagem para a Terra Santa, ajudam a conquistar Lisboa aos mouros. Há rivalidade entre francos e alemães. O exército bizantino não facilita o caminho aos exércitos cristãos latinos. Estes por onde passam, saqueiam. A cobiça, a conquista de terras e de riqueza sobrepõem-se à espiritualidade de ser cruzado e morrer por Cristo. Antes de chegarem à Terra Santa, os exércitos cristãos são dizimados pelos Turcos. Os diferentes senhores dividem-se e desmobilizam-se. Em julho de 1148, com a conquista de Damasco pelos Turcos, acaba em total fracasso a segunda cruzada. Alguns nobres, regressados a França, acusam S. Bernardo pelo fracasso. A sua fama cai a pique, o seu prestígio fica ferido. Bernardo sente-se responsável pelo fracasso. Tinha proposto um elevado ideal moral e espiritual, pouco realista e talvez ingénuo, a que os cavaleiros não corresponderam. A própria ordem cisterciense recente-se do desastre; diminui o número de novas fundações cistercienses. Escreve o abade de Saint-Michel (Normandia): «nada de aproveitável nem digno de memória foi cumprido no decorrer desta peregrinação».
No tratado De consideratione (Sobre a Consideração), escrevendo ao Papa Eugénio III (1152), Bernardo de Claraval faz um exame de consciência e assume a responsabilidade do fracasso: «De bom agrado carrego com as reprovações, as blasfémias, para que não vão contra Deus. Parece-me bem que seja utilizado como escudo de Deus. Não recuso carecer de glória, desde que não se ataque a glória de Deus» (II.I.1). Referindo-se ao fracasso da cruzada, reconhece o pesar em que se encontra, tão grandes sãos as suas aflições que até admite que lhe podem acabar com a vida. Assim descreve a situação dos cristãos na Terra Santa: «Os filhos da Igreja, os que se gloriam de ser cristãos, ficam abatidos em pleno deserto, mortos à espada ou devorados pela fome» (II.I.1). As promessas pregadas por Bernardo ficam frustradas, o seu ideal de paz foi traído: «Que vergonha para os que anunciam a paz e para os encarregados de trazer boas notícias! Pregámos a paz quando não havia paz; prometemos bem-estar e nos caiu em cima o caos, como se os nossos projetos tivessem incorridos em temerária ligeireza. Entreguei-me plenamente à obra, e não acaso, mas porque tu próprio mo pediste, ou antes, Deus me pediu por teu intermédio» (II.I.1). Numa leitura teológica do desastre da II cruzada, S. Bernardo justifica a derrota dos cruzados pela infidelidade destes ao ideal de cruzada. É castigo de Deus porque não foram fiéis ao evangelho, dar a vida por Cristo.
Não restam fontes da pregação de Bernardo em Vezlay. Nos textos que nos chegaram, conhecemos a sua mística e espiritualidade da cruzada, sobretudo a partir do seu Livro sobre as Glórias da Nova Milícia. Aos Cavaleiros Templários (1130-1136). A cruzada era forma de salvação, uma oportunidade de conversão, uma oferta de perdão dos pecados, um modo de seguir a Cristo até à morte, até ao martírio. Bernardo apresenta a morte do cruzado como uma glória: «Caminhai, pois, soldados, seguros para o combate e carregai valentes contra os inimigos da cruz de Cristo, certos de que nem a vida nem a morte poderão privar-nos do amor de Deus que está em Cristo (…). Com quanta glória voltam os que venceram numa batalha! Que felizes morrem os mártires em combate! Alegra-te, valioso atleta. Se vives e vences no Senhor, mas salta de alegria e de glória se morres e vences no Senhor. Porque a tua vida será fecunda e gloriosa a tua vitória; todavia a tua morte é muito mais que tudo isto. Serão ditosos os que morrem no Senhor» (I.1).
A tradição beneditina proibia ao monge pegar em armas; estas ficavam reservadas ao poder temporal. Por isso há uma resistência beneditina às cruzadas. Pedro o Venerável preferirá combater os «sarracenos» pela dialética da razão e não pela força das armas. A peregrinação a Jerusalém é, sobretudo interior, e vive-se no mosteiro, prefiguração da Jerusalém celeste. As cruzadas colocaram novos problemas teológicos. Em relação ao tradicional pacifismo monástico, aparece agora uma «milícia cristã» (miles Christi), da qual S. Bernardo foi, sem dúvida, o grande ideólogo. E também o grande suporte da política belicista do Papado que é uma novidade teológica. Até então, as armas estavam reservadas ao poder temporal. A partir da dita reforma gregoriana (séculos XI-XII), o poder temporal passa a estar submetido ao poder espiritual do Papa. As cruzadas ajudaram a Europa a abrir-se ao Oriente. Os cristãos europeus latinos descobriram uma variedade de tradições cristãs orientais. Mas aquilo que começou por ser um pedido de socorro dos cristãos ortodoxos, pelas guerras de conquista, pelo saque de cidades, pela carnificina, acabou ainda mais por separar os cristãos. O ódio ao latino conquistador ainda permanece vivo hoje na ortodoxia grega. O Islão era visto como inimigo a perseguir. Na Península Ibérica e na Sicília, por essa época, o diálogo cultural com o Islão foi bem mais fecundo. As cruzadas ajudaram, sim, à «diabolização» do outro.


