Queridas Irmãs, queridos Irmãos,
Nas nossas sociedades contemporâneas, um dos grandes problemas sociais, políticos e cultuais é a vinda de imigrantes e a sua integração no contexto da cultura local que os recebe. Por vezes chegam através de redes clandestinas de tráfico, sem liberdade e completamente dependentes. Vivem amontoados, sem condições de higiene, de habitabilidade. Têm tendência para se organizar em grupos fechados que os protegem mas que dificultam também a sua integração. Por vezes, os seus comportamentos chocam com as culturas locais, numa mútua incompreensão. Propostas políticas extremadas fazem dos imigrantes o bode expiatório do mal-estar social, atiçando o medo, o ressentimento, a revolta. Sem a sua cooperação, serviços dos quais depende a vitalidade da sociedade e da economia, tais como a construção, os transportes, a agricultura, os cuidados de saúde, simplesmente, paralisavam. E nós, onde temos o nosso coração? O que inspira o nosso juízo crítico, a nossa responsabilidade cívica na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva?
A Palavra de Deus, hoje lida, dá-nos dois belos exemplos de estrangeiros que, inesperadamente, dão sinais de diálogo e de respeito para com a cultura e as pessoas de Israel. É histórica a resistência nacionalista do Judaísmo em integrar quem é estrangeiro, sempre considerado «impuro». Como, igualmente, há no Judaísmo uma vocação universalista, de diálogo com as nações estrangeiras. É esta linha de abertura ao outro, que atravessa os textos da Escritura hoje proclamados. Do II Livro dos Reis temos o exemplo do general sírio que pede ao Profeta Ezequiel ajuda para se curar da sua lepra. O profeta manda-o mergulhar sete vezes no rio Jordão conquista. A pessoa na sua humanidade está para além do seu cargo político ou militar. O general é aqui um simples leproso a necessitar de cura. «A sua carne tornou-se terna como a de uma criança e ficou limpo da lepra». E o seu coração de abre ao Deus único de Israel. Quando somos capazes de nos encontrar e reconhecer na verdade da nossa frágil humanidade, quando o ódio ao estrangeiro dá lugar à compaixão, a política de ocupação ao respeito pela vulnerabilidade das pessoas, então vence a nossa comum humanidade: todos ganhamos. E esse é o caminho da paz.
O outro caso é-nos narrado pelo evangelho de Lucas. Jesus atravessa territórios fronteiriços, expostos à «contaminação», não só pela impureza da lepra, mas também pela impureza de ser «estrangeiro». No caminho, dez leprosos pedem a Jesus para serem curados. A cura não acontece de imediato, mas na obediência à palavra do Senhor que implica compromisso pessoal de corpo inteiro: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». É no caminho percorrido com confiança que a cura da lepra acontece. E aqui verifica-se a estatística da gratidão: só um em dez volta atrás para agradecer; nove avançam no seu caminho, sem nenhuma preocupação de gratidão pela cura acontecida. Esse único que volta atrás diz a sua gratidão de corpo inteiro: glorifica a Deus «em alta voz», «prostra-se com o rosto por terra diante de Jesus». Precisa o texto, para espanto do leitor: «Era um samaritano». Um «contaminado», um impuro, alguém que pertencia a um povo rejeitado pelo judaísmo ortodoxo. E como são, nos evangelhos, os samaritanos acolhidos e reconhecidos em sua humanidade e compaixão! Era samaritana aquela mulher a quem Jesus pede de beber à beira do poço; era samaritano este leproso curado que volta atrás para agradecer; era samaritano aquele homem viajante que encontra outro à beira do caminho, meio morto, ferido e espancado, e o ajuda movido de compaixão.
Os evangelhos são um magnífico hino à humanidade e à compaixão dos estrangeiros, corpos feridos e humilhados, e, por isso mesmo, corpos necessitados de compaixão e compassivos, corpos carentes de humanidade e abertos ao reconhecimento da humanidade dos outros. Corpos que são templos vivos de gratidão, de louvor e de ação de graças, como acontece com o leproso do evangelho de hoje. Na humanidade dos estrangeiros, aquela que por vezes rejeitamos e ignoramos, revela-se a nossa própria humanidade. A indiferença, o medo, o ressentimento, dão lugar ao encontro, ao mútuo reconhecimento, à alegria da vida salva e curada, à gratidão: «Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?»; «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».
A fé cura, a fé salva. Cuida da vida, amplia vida, protege a vida. Salva-nos da doença do ressentimento, da indiferença, da xenofobia (medo de quem é estrangeiro). A fé, confiança em Deus, é também confiança na nossa comum humanidade. Por mais estranho que um estrangeiro possa parecer, em trajes, gestos, comida, práticas religiosas, partilha connosco um corpo vulnerável, exposto ao sofrimento, necessitado de ser protegido e cuidado. Possa, nos tempos presentes, a nossa fé nos salvar xenofobia, do medo de quem é estrangeiro. Como, igualmente, nos possa salvar das apropriações ideológicas da religião. Desse emergente perigo que são as derivas messiânicas de políticos e nações que se apresentam como salvadores, legitimados e «ungidos» por Deus. Que a sinceridade universalista da fé católica nos proteja de toda a deriva nacionalista.
Pe. António Martins, Homilia do XXVIII Domingo do Tempo Comum


