Queridas Irmãs, queridos Irmãos

Aqui estamos reunidos na eucaristia para, mais uma vez, nos cumprirmos como comunidade cristã. Aqui estamos para renovar a nossa fé pessoal, na escuta da Palavra de Deus, na receção do corpo do Senhor fazendo corpo em comunidade. A eucaristia é a fonte da nossa espiritualidade cristã; o sacramento que, em cada domingo, nos realiza como Igreja, e como comunidade concreta.

Como o profeta Habacuc, também nós somos confrontados com o silêncio de Deus perante a crescente violência. A retórica da guerra domina a linguagem contemporânea. Atentados, invasões, ataques são notícias quotidianas. Veremos se os sinais de possível entendimento em Israel e o Hamas, para a desocupação da Faixa de Gaza e a devolução dos prisioneiros, tem pernas para andar, para bem de todos e fim dessa barbárie sem compaixão. Na Faixa de Gaza está a acontecer a falência de toda a Humanidade, a impossibilidade de diálogo, a loucura da destruição de um povo: «Até quando, Senhor, chamarei por Vós e não me ouvis? Até quando clamarei contra a violência e não me enviais a salvação? Porque me deixais ver a iniquidade e contemplar a injustiça? Diante de mim está a opressão e a violência, levantam-se contendas e reina a discórdia?». Perante a progressão da violência e do mal, a nossa própria fé entra em crise e questiona o próprio Deus.

Novas circunstâncias históricas, como os tempos conturbados que vivemos, convocam-nos a renovada fidelidade. Etapas da nossa própria vida, inesperadas circunstâncias, ou a nossa condição humana que se torna mais frágil e vulnerável com o passar da idade, confrontam a nossa fé com a dureza da realidade. As nossas seguranças são abaladas, as nossas certezas entram em crise. Que atitude de fé viver em tempos de turbulência pessoal e no mundo? Precisamos de reinventar e renovar a nossa fidelidade de crentes nestes tempos de prova que tanto exigem de nós. «O justo viverá pela sua fidelidade», diz-nos o profeta Habacuc. No meio deste mar agitado que é hoje a história humana, com audaz ousadia renovamos a nossa fidelidade. A nossa fidelidade às pessoas que amamos, às nossas opções, aos nossos compromissos, ao nosso Deus, fonte do amor que nos faz viver e resistir.

Com as palavras sinceras dos discípulos, também nós dizemos a partir da fragilidade das nossas vidas, dos impasses do mundo contemporâneo, da crescente violência: «Aumenta a nossa fé». Porque nos reconhecemos fragilizados na vivência e no testemunho da nossa própria fé. Falta-nos esperança, audácia, criatividade no modo de ser Igreja. «Aumenta a nossa fé», porque bem sentimos aquela diferença entre o projeto do Reino de Deus e a nossa própria vivência. Onde está a nossa fidelidade ao evangelho em termos de economia justa e partilhada? Onde está a nossa fidelidade ao evangelho na construção de um projeto de sociedade mais fraterna, inclusiva, assente na social, no primado do bem comum, e não dos interesses individuais ou de grupos? Onde está a nossa coragem na renovação permanente de uma Igreja que queremos corresponsável? Os nossos gritos, os nossos protestos, as nossas denúncias não serão apenas sinal do que vemos mal nos outros, colocando-nos de fora? Também nós, cada um(a) de nós, se reconhece pedinte na fé: «Aumenta a nossa fé».

E o Senhor responde-nos: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia». Resposta desconcertante, quase sem sentido, cheia de metáforas que nos fazem pensar. Um grão de mostarda, a mais pequena das sementes, que faz replantar uma amoreira no mar… No mar!?… Tentamos escavar possíveis sentidos das palavras do Senhor. A fé é uma questão de confiança, de relação e de fidelidade. E, como em toda a relação, quando mais é cultivada, mais se consolida. A fidelidade das relações renova a confiança entre as pessoas. Também assim na fé. Não é uma quantidade que se aumente, é uma relação com o Senhor que se pode renovar e intensificar. Pode ser uma pequena semente de mostarda, mas essa semente é portadora de futuro, tem promessa de fecundidade. Aceitemos a nossa fé com a pequenez do grão de mostarda… No profundo da nossa fé há uma força, uma energia, a promessa de uma audácia que ignoramos até. A fé é portadora de uma poderosa força de transformação: «… diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia». Não nos lamentemos da nossa pouca fé; aticemos, sim, a sua potencialidade. Como Paulo escreveu a Timóteo, e a cada um de nós: «Exorto-te a que reanimes o dom de Deus». É isso: vamos reanimar o «nosso grão de mostarda», torná-lo fecundo.

Cada um(a) de nós se reconheça como «útil e necessário servo inútil». Servo que cumpre o seu serviço, no lugar em que está, nas circunstâncias concretas do seu desempenho e da sua responsabilidade, sem esperar imediato reconhecimento. Todos gostamos que o nosso trabalho seja reconhecido penos nossos chefes. Todos gostamos de nos sentir importantes. Mas isso não será insuflar o nosso ego? Quando cada um sabe bem qual o seu serviço específico na empresa, na escola, na comunidade, em família, assume a própria tarefa com responsabilidade. E isso nos deixa em paz pela missão/tarefa cumprida. Uma das mais profundas razões de felicidade quotidiana, é a entrega generosa às nossas responsabilidades e a alegria de um serviço bem cumprido. Não nos sentimos inúteis, porque tantas coisas dependem de nós. A nossa responsabilidade não precisa de ser premiada: vale por si mesma: «Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’».

Bem-aventurados «inúteis servos» que foram e são tão úteis.

Pe. António Martins, XXVII Domingo do Tempo Comum