Embora o novo ano pastoral avance veloz, não queria deixar de vos dirigir uma palavra pessoal, enquanto capelão da Capela do Rato, à semelhança dos anos anteriores. Somos uma Comunidade carregada de memória que quer continuar a ser lugar diferenciado, na cidade de Lisboa, de encontro entre a fé e a cultura, de testemunho profético laical. A densidade e a complexidade do tempo presente desafiam a nossa esperança e a nossa criatividade. A eucaristia dominical é, semanalmente, o grande acontecimento que nos congrega como comunidade. Não desistimos de procurar uma liturgia bela e simples, em que cada pessoa se sinta acolhida. Temos diante de nós o desafio de uma renovação geracional, pois sentimos também o peso das nossas idades e fragilidades, dos nossos hábitos adquiridos. O passado por si só não é garantia de futuro. Este precisa de ser preparado no presente.

Com a ajuda das novas tecnologias, alargamos o espaço da nossa tenda. Percorrendo o País, é-me gratificante receber o agradecimento pela partilha «à distância» dos nossos debates. É um serviço que prestamos à Igreja e à sociedade. E temos público, muito mais do que imaginamos… No presente ano pastoral vamos continuar a aprofundar o Pensamento Social Cristão a partir das interpelações da realidade atual, do País e do mundo. Num ciclo de quatro encontros, traremos a debate as complexas questões da segurança, do Estado de Direito, da cidadania e da integração de imigrantes. Estamos também a organizar uma nova edição do Curso «Filosofia, Literatura, Espiritualidade», este ano dedicado à alegria. Em tempos sombrios, como os nossos, a convocação à alegria é profecia de futuro, renúncia a nos deixarmos vencer pela tristeza. E, sobretudo, fidelidade ao apelo originário da experiência cristã: «Alegrem-se sempre» (1 Tes 5,16).

Iniciámos, no ano passado, uma dinâmica de partilha da Palavra nas celebrações dominicais. Assim quisemos tornar possível uma liturgia mais participada. A partilha orante em pequenos grupos, a leitura da realidade à luz da Palavra, a construção de um consenso que se pudesse partilhar na comunidade revelaram-se possíveis mas exigentes. Foi um caminho gratificante, embora não óbvio. Exigiu paciência, capacidade de escuta reciproca, tempo lento de crescimento. No presente ano pastoral vamos dar continuidade a esta dinâmica, envolvendo outros grupos de reflexão e partilha. Assim nos queremos cumprir como comunidade a crescer, sinodalmente.

Durante o verão passado, foram restauradas as imagens da Capela do Rato (de São Joaquim, de Santa Ana, de Nossa Senhora da Bonança), por técnicas do Museu Nacional de Arte Antiga. Brevemente pulicaremos no site da Capela uma reportagem fotográfica sobre a operação de restauro. Devolvendo beleza às imagens, temos aí uma expressiva parábola de uma comunidade que se quer cumprir pela via da beleza, como caminho de encontro entre o humano e o divino. Também queremos dar espaço a artistas que, através das suas obras, testemunhem que a arte «sabe inclinar-se sobre as feridas do mundo, sabe escutar o grito dos pobres, dos sofredores, dos feridos, dos presos, dos perseguidos, dos refugiados», como interpelava o querido Papa Francisco na homilia aquando do Jubileu dos Artistas.

Em julho passado, organizámos uma peregrinação pelas abadias cistercienses da Borgonha. Assim se cumpriu um sonho antigo do capelão. Durante oito dias, fomos peregrinos da beleza, mergulhando na exuberância figurativa do românico, na sobriedade da arquitetura cisterciense, ou na audácia naturalista do gótico que dá expressão (e doçura) à humanidade de Cristo. A pedra revela a carne. Em cada dia acertámos ritmos e horários, nos cumprimos como grupo a caminho, tão concreto, tão festivo, tão fraterno. O encontro com formas de espiritualidade do passado desafia-nos, no presente, a viver a nossa própria aventura espiritual. Em julho de 2026 poderá ser possível uma (outra) peregrinação por terras da Irlanda, fazendo memória da audácia do monaquismo celta (séculos VI a X), da resistência católica como identidade de um povo, ao encontro de uma Igreja tão missionária num passado recente, e no presente tão ferida.

Que todos e todas se sintam convidados a participar nas iniciativas da Comunidade da Capela do Rato, presencialmente ou à distância. A celebrar connosco a eucaristia dominical (às 11h.30). O nosso acontecer será sempre anunciado e partilhado.

Até breve!
P. António Martins