Há muito que desejava visitar este lugar. E estar aqui hoje convosco é concretização de um sonho antigo. Possivelmente a realidade que aqui encontramos, o complexo de uma prisão, desconcerta-nos em relação a tudo aquilo que temos ouvido sobre Claraval e a expansão da Ordem de Cister a partir desta abadia mãe. O complexo monástico de outrora deu lugar, hoje, a um complexo prisional. Outrora foi lugar de penitência voluntariamente procurada, depois passou a ser lugar de penitência judicialmente imposta. A aventura monástica era uma escolha de liberdade; ser prisioneiro uma experiência de liberdade suspensa. Outrora, aqui, o monge experimentava um percurso pascal, de passagem do Homem Velho para o Homem Novo, deixando-se conformar com Cristo, em tudo igual a nós menos no pecado. O cumprimento da pena procurava ser regenerativo, mas nada garante que o tenha sido. Entre a memória do passado de um espaço de liberdade, e o encontro no presente como espaço de liberdade retirada, que síntese se pode fazer?
Tanto o monge como o preso descobrem-se miseráveis, na linguagem de S. Bernardo, a pedir à sociedade (aos irmãos) misericórdia e compaixão. Tanto o monge como o preso lutam com a solidão interior, a desolação, a repetição dos mesmos gestos quotidianos, o encontro com as mesmas pessoas que, por vezes, se torna violento. A vida quotidiana num mosteiro, sem a motivação interior que lhe dá sentido e forma, pouca diferença tem, em sua exterioridade, da vida numa prisão. Podemos encontrar, até, uma certa afinidade entre o monge e o preso, apesar da incomensurável diferença de circunstâncias e de motivações que os separa. O que diferencia o mosteiro da prisão é a aventura interior de liberdade, a paixão por Cristo que resulta em compaixão pelos irmãos e pela inteira humanidade. Porque o monge é um orante, irmão de todos os homens e mulheres, cuja humanidade continuamente oferece e agradece a Deus.
Aqui evocamos esse grande líder do monaquismo medieval que foi S. Bernardo. Podemos imaginá-lo, e não é inverosímil, por aqui, sentado em alguma pedra, bebendo de alguma fonte, descansando na frescura da sombra de alguma árvore, após ter ditado aos seus secretários alguma carta. Ou passeando com algum príncipe, bispo, papa ou abade. Podemos imaginá-lo, por aqui, a arquitetar algum sermão sobre o Cântico dos Cânticos. Podemos dar rédeas à imaginação, sabendo que poderia ter sido possível. Entre nós e ele separam-nos nove séculos. Mas lendo aqui hoje algumas passagens dos seus escritos, a sua palavra torna-se viva para nós, porque fala a partir da autenticidade da experiência. É uma palavra credível porque é sincera; fala da vida à nossa própria vida. Dirige-se ao coração, apela à nossa sensibilidade. Por isso continua a ser uma palavra atual, pela sua sinceridade, pela sua inspiração evangélica, pela sua forca profética, pela sua elegância poética.
Hoje, como no passado, S. Bernardo não deixa ninguém indiferente. Podemos concordar com ele, ou nos opormos com frontalidade. Podemos achar que foi intransigente e radical, violento, implacável e manipulador. De uma forma mais objetiva, há nele passagens e atitudes que profundamente nos inspiram, outras que nos suscitam inteira rejeição. Também nós, lendo os seus textos, não ficamos indiferentes. No seu tempo, S. Bernardo foi uma daquelas pessoas (poucas!) que fraturou, questionou, denunciou; foi violento e pacificou; foi aclamado e acusado, exaltado e humilhado. Paradoxal e contraditório, nele a experiência cristã alcança dimensões sublimes e a política eclesiástica da época golpes baixos de manipulação. Se nos irrita em S. Bernardo a sua dieta ascética, rejeitando um bom vinho ou um prato mais requintado, em nome de uma educação e concentração dos sentidos, apaixona-nos a forma como soube integrar o desejo, a afetividade, a experiência amorosa. Proclamou e viveu o evangelho através da linguagem amorosa (cavaleiresca e trovadoresca) do seu tempo. E daí o seu sucesso. A sua palavra era experiência vivida e, por isso, credível. Falou a pessoas concretas, de carne e osso, a partir do seu sentir e do seu afeto. Tudo nele foi a procura de dar «forma» (formosura, beleza) a uma inteireza de vida. A beleza formal do rigor geométrico da arquitetura cisterciense, o despojamento da pedra sem excessos decorativos, está ao serviço de uma arte de bem viver. Porque a vida (do monge) é a grande obra de arte a construir, esse deixar-se transformar e unificar por Cristo em tudo o que faz, sente, vive e pensa.
Os textos bíblicos escolhidos procuram assinalar quanto a Palavra de Deus inspirou a vida e os textos escritos por S. Bernardo. Todo ele transpira Escritura; e os seus textos são tecidos e entrelaçados continuamente com passagens bíblicas. O Salmo 18 é um elogio à Lei/à Palavra de Deus: «As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida». A vida monástica procura ser uma ruminação da Palavra de Deus cantada no coro e meditada na lectio divina. O monge é como a abelha que procura na flor o suco do pólen para fazer mel. Procura saborear a Palavra para viver com sabedoria. «[Os preceitos do Senhor] são mais preciosos que o ouro, o ouro mais fino; são mais doces que o mel, o puro mel dos favos». S. Bernardo soube explorar o «mel» dos versículos, sugá-lo, saboreá-lo e partilhar com os seus irmãos monges essa experiência gostosa e sapiencial da Escritura. Por isso foi chamado de «Autor Melífluo», porque as suas palavras inspiram-se e transmitem o mel das Escrituras. Estando hoje aqui, na abadia de Claraval, e ouvindo a Palavra de Deus que profundamente inspirou S. Bernardo, cada um(a) de nós aproxime-se da Escritura como abelha que vai extrair o mel do rochedo do texto (e o texto pode ser mesmo rocha, resistir à nossa leitura…). Que a Palavra de Deus seja fonte de inspiração e de sabor para a nossa vida; e em nós se torne sabedoria, arte de bem viver.
Outra dimensão dos textos bíblicos hoje lido é a metáfora nupcial. Podemos interpretar toda a Escrita como um relato de paixão amorosa entre Deus e o seu povo, a inteira humanidade. O livro do Cântico dos Cânticos inspirou S. Bernardo e os padres cistercienses da primeira geração. Havia mesmo um estilo literário cultivado nas abadias cistercienses: comentar o Cântico dos Cânticos. Este livro dá voz ao desejo de uma donzela pelo seu amado: «O meu amado passou a sua mão pela fresta e as minhas entranhas estremeceram por ele. Levantei-me para abrir ao meu amado». Mas o amado desaparece, e o desejo só aumenta. Em busca do amado, a amada arrisca o perigo na noite, expondo-se à violência dos guardas: «se encontrardes o meu amado, sabeis o que dizer-lhe? Que eu desfaleço de amor». O amado é interpretado como o Verbo (esposo) que visita a alma humana (a sua esposa). A visita é fugaz, apenas pressentida.
A ausência do amado (de Cristo) suscita o desejo do encontro. Não faz diminuir a intensidade do amor, como escreve S. Bernardo, porque quem ama não teme: «A amada não pode temer. Tremem os que não amam e suspeitam contínuas vinganças. Eu, pelo contrário, amo e não posso duvidar que me ama [o Verbo], e tão pouco do meu amor. Não posso temer o seu rosto, porque experimentei o seu amor» (Serm. CC. 84, I. 6, in SAN BERNARDO, Obras Completas V, BAC, Madrid 1987, 1041.). A vida monástica, e por que não afirmar toda a aventura crente, pode ser nomeada através da linguagem amorosa/nupcial. Através da linguagem do Cântico dos Cânticos, a experiência cristã sobe integrar o desejo (o eros), a afetividade, a sensibilidade na vida espiritual que nada recusa do sentir corpóreo, mas eleva-o. O desejo bem pode ser outro nome da presença de Deus em nós, esta capacidade de amar e de se apaixonar, de, no profundo da própria carência, elevar-se ao encontro com o Outro. Afirma Bernardo: «Deus faz com que desejes, e é Ele o que desejas».
O primeiro milagre/sinal realizado por Jesus, segundo o evangelho de S. João, foi ir a um casamento e transformar a água em vinho, respondendo a uma carência assinalada por Maria, sua mãe: «Não têm vinho!». O vinho novo, o que vem por último, o mais excelente, é símbolo de Cristo em suas bodas com a humanidade. O abraço do Verbo à carne da nossa humanidade é compreendido, misticamente, como encontro nupcial, como festa de bodas. Há quem diga que a noiva, ausente no texto bíblico, é símbolo da Humanidade e da Igreja que acolhem o Esposa, o vinho novo que vem por último. O vinho, que é símbolo da alegria e da festa, da vida comungada, é também símbolo da vida dada na dor e no amor, do cálice do sangue de Cristo que na cruz nos amou até ao fim. Toda a espiritualidade de S. Bernardo está centrada em Cristo, aquele que comunga connosco a mesma carne, em tudo igual a nós menos no pecado. Por isso pode compadecer-se da nossa fraqueza porque a experimentou na própria carne.
Toda a vida de S. Bernardo foi a escrita existencial de um poema de amor apaixonado por Cristo, vivido de corpo inteiro. Escreveu, num dos seus mais belos textos da obra De diligendo Deo (Sobre o Amor de Deus): «a medida do amor a Deus é amá-lo sem medida. Por outro lado, o objeto do nosso amor a Deus é ele mesmo, um ser imenso e infinito» (De diligendo Deo, VI.16, in SAN BERNARDO, Obras Completas I, BAC, Madrid 1993, 323). E continua: «Quem ama a Deus não fica sem recompensa, ainda que devamos amá-lo sem ter em conta este prémio. O amor verdadeiro é indiferente ao prémio, pois não é interessado. É um afeto do coração, não um contrato. Não é fruto de um pacto, nem busca nada análogo. Brota espontâneo e manifesta-se livremente. Encontra em si mesmo a sua satisfação. O seu prémio é o próprio objeto amado» (De diligendo Deo, VII.17, in SAN BERNARDO, Obras Completas I, 325). Todos bem o sabemos: amar é a grande vocação humana, e amar no dom de si mesmo, o traço de identidade da vocação cristã. Lendo os textos de Bernardo descobrimos a frescura de uma palavra sincera, autêntica, que brota da raiz do ser e do sentir: existo para amar, e amando participo no próprio mistério de Deus. Podemos ter vivo amores feridos, relações que chegaram ao fim, mas se amamos de coração inteiro, mesmo feridos, cumprimo-nos. Porque o amor verdadeiro não exige recompensa, ama por si mesmo.
Que S. Bernardo, evocado e lido na vizinhança da sua abadia de Claraval, nos ajude a cumprir-nos no amor, mesmo de coração rasgado; e que as nossas feridas do amor sejam fontes de bênção para os outros, não de ressentimento, de violência ou de acusação.
Pe. António Martins, Abadia de Claraval, 15 de julho de 2025, memória litúrgica de S. Bernardo


