Queridas Irmãs, queridos Irmãos,

Aqui estamos de novo para iniciar mais um ano pastoral. Já tínhamos saudades uns dos outros, de estarmos juntos, de celebrarmos em comunidade a eucaristia. Como é belo e consolador quando me perguntam: «Quando remeçamos no Rato?» Ou ainda: «Fazem-me falta as celebrações da Capela do Rato». Aqui estamos para darmos continuidade ao que somos, para nos reinventarmos arriscando antecipar o futuro. Porque estamos em caminho. O mundo e nós próprios estamos em acelerada e perplexa transformação. E a nossa comunidade, com a sua memória profética de intervenção pública, de espaço livre de reflexão, sente-se interpelada pelos desafios da história atual, neste tempo tão denso de incertezas, tão marcado pela violência e pelo radicalismo. A desafiar uma esperança audaz, ousada, criativa.

Trazemos a esta eucaristia as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias do mundo contemporâneo. Este nosso tempo ambíguo, denso, intenso, duro, em que somos convocados a ler os sinais de violência que aumenta, de desumanidade e impiedade que galopa, de barbárie que se adensa. A devastação impiedosa da faixa de Gaza continua implacável. As tentativas de diálogos de paz na Ucrânia não têm tido resultados. As políticas anti-imigração radicalizam-se em dimensões de desumanidade. A violência verbal, na praça pública, desemboca em homicídio, como aconteceu recentemente nos EUA. A cidade de Lisboa continua a chorar os mortos da tragédia do elevador da Glória. O espaço de diálogo e de valores comungados está em progressiva erosão, dando lugar a expressões políticas radicais assentes no medo e na mentira. Este é o nosso tempo, o tempo em que estamos a envelhecer, o tempo em que os jovens estão a crescer e a maturar.

Recomeçamos as nossas celebrações dominicais celebrando a Festa da Exaltação da Santa Cruz, por coincidir, precisamente, este ano ao domingo. Esta Festa, comum católicos, ortodoxos e anglicanos, tem origem no ano 326, em Jerusalém. Santo Helena tinha descoberto, dois anos antes, as relíquias da Santa Cruz. O Imperador Constantino tinha acabado de erguer em Jerusalém uma basílica no Gólgota para assinalar a paixão de Cristo, e outra no Santo Sepulcro para assinalar a ressurreição. O cristianismo é agora religião tolerada, ao serviço da unidade do império. Por isso a cruz é apresentada como sinal de glória e de triunfo. A cruz, expressão da máxima violência política do império, enquanto cruel e bárbara pena de morte, passa a ser expressão do cristianismo vencedor, implantado na praça pública.

A cruz é, pois, um sinal ambíguo, paradoxal e contraditório. E essa sua paradoxalidade não pode ser anulada, em favor ou da brutalidade do sofrimento, sem amor nem compaixão, ou em favor de um cristianismo vitorioso que esquece o sofrimento das vítimas, o horror da violência. A estética de uma cruz gloriosa corre o risco de esquecer o sofrimento das vítimas da história, a crueldade de todas as máquinas de poder opressivo. Cristo ressuscitado aparece aos discípulos expondo as feridas da sua eterna paixão e compaixão. Por isso também a festa da Exaltação da Santa Cruz não pode ignorar as feridas, o corpo rasgado de todos aquele e aquelas que caiem, humilhados e aniquilados, nos campos de morte; dos que morrem de fome, de sede, náufragos no Mediterrâneo, caídos em caminhos de êxodo e de fuga. A exaltação da Santa Cruz não pode esquecer a barbárie de cruz, as barbáries da história que continuam.

O cristianismo nascente teve de enfrentar o escândalo da crucifixão do Senhor e encontrar aí um sentido redentor. A tarefa não foi fácil; levou tempo, décadas até. Como pode a cruz, expressão de crueldade, de horror e de infâmia, ser também expressão do poder de Deus, do dom da sua paz e do seu perdão? Paulo é o primeiro autor a fazer esta elaboração de transfiguração de sentido. Escrever na Primeira Carta aos Coríntios, um texto do início dos anos 50 da nossa era: «nós, porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas para os que foram chamados, tanto judeus como gentios, Cristo é poder e sabedoria de Deus» (1 Cor 22-24). O escândalo e a loucura da cruz são expressão da loucura do poder de Deus capaz de fazer do horror fonte de misericórdia e de perdão, expressão do seu amor incondicional. E por isso, é um poder capaz de confundir os poderes deste mundo, porque é o poder do amor que se afirma na fragilidade, na exclusão, na sabedoria da loucura da cruz.

É ainda Paulo que na Carta aos Colossences apresenta a cruz de Cristo como lugar de reconciliação e pacificação cósmica, de todas as criaturas: «Aprouve a Deus (…), por Cisto e para Cristo, reconciliar todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus» (Col 1,20). Ponto de reconciliação e de pacificação cósmica (de todas as criaturas), na cruz de Cristo são atravessadas e superadas todas as fronteiras rácicas, culturais, sociológicas, religiosas, de género. Todas as criaturas, todos os seres humanos se reencontram e se reconciliam pelo sangue pacificador do Crucificado. Aqui está, precisam, a dimensão de exaltação e de glória da Santa Cruz, ser expressão de paz e de reconciliação para todas as criaturas, nos céus e na terra. O universo inteiro está unifico e pacificado pela cruz do Senhor.

E chegamos ao texto do evangelho de João, o mais tardio e aquele que melhor fundamenta a exaltação da cruz. Lugar de crueldade, de horror e de atroz sofrimento, em que o corpo do Filho é trespassado, exposto, expropriado e aniquilado, a cruz é também o lugar da exaltação e da glorificação do Filho de Deus feito carne, em tudo igual a nós. Na paradoxalidade do acontecimento da cruz, o horror e a crueldade são o contexto e a circunstância em que toma forma o amor incondicional e apaixonado de Deus pela humanidade, por cada um e cada uma de nós: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna». Sendo expressão de infâmia e de humilhação, a cruz é também expressão de exaltação de glorificação. Nela o Filho é glorificado pelo Pai e glorifica o Pai. Nela o Filho expressa o seu amor incondicional, «até ao fim» pelo Pai e por nós: «tento amado os seus, amou-os até ao fim», o mesmo é dizer, até à morte de cruz.

Por isso mesmo, segundo o evangelho de João, a cruz é a suprema expressão da doação livre da vida por parte do Filho: «A minha vida ninguém ma tira, sou eu que a dou». Mais uma vez o paradoxo da cruz em que, na convergência de uma condenação à morte que reconcilia inimigos, judeus e romanos, o Filho se doa em plena liberdade. Por isso João interpreta a cruz de Cristo à luz do acontecimento do êxodo, do episódio das serpentes que matam com o seu veneno e da serpente esculpida por Moisés exposta como sinal de cura: «Moisés fez uma serpente de bronze e fixou-a num poste. Quando alguém, era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e ficava curado». Proclama com solenidade o Senhor no evangelho de João: «Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna».

Fica-nos a pergunta, e o desafio: Como podemos viver e experimentar em nossa vidas esta dimensão de exaltação, de pacificação e de cura das nossas próprias cruzes, dos nossos lugares existenciais de derrota, de humilhação e de morte? Como passar de uma estetização «exaltante» da cruz, tornada ícone de um cristianismo triunfante ou reduzida a banal objeto decorativo (ainda que preciso), pendente aos nossos pescoços, a uma dimensão existencial pascal capaz de integrar na aventura crente as feridas da vida e a dor do mundo?

Não nos queremos, nem podemos livrar-nos dessa reelaboração existencial e espiritual da cruz (e das cruzes) que vamos vivendo. Carregar a própria cruz em cada dia, segundo o apelo do Senhor, é convocação a uma tarefa exigente e paciente: transfigurar as nossas dores, as nossas feridas, as nossas humilhações, as nossas inimizades, em promessa e possibilidade de reconciliação, de perdão, de cura, de expressão de amor que pacifica, regenera e promete futuro. Como em Cristo, é pelo amor que o veneno e o escândalo das nossas crucifixões, aquelas que nos acontecem e aquelas que provocamos nos outros, podem transformar-se em remédio e cura. De lugares de dor e de humilhação pode tornar-se lugares de exaltação e exultação. O veneno que envenena e pode matar as nossas relações pode tornar-se remédio fecunda, possibilidade de cura e regeneração. Por vias não fáceis, nada óbvias nem imediatas, que chamamos «terapêuticas» (de cura), podemos viver uma aventura existencial de pacificação e de reconciliação em nossas inimizadas e feridas através do amor. Para podermos erguer a nossa própria vida como lugar de exaltação, de jubilação e de ressurreição.

«Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna».

 Pe. António Martins, Festa da Exaltação da Santa Cruz