Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

Recomeçamos.

Gostaria de ver os vossos rostos sem máscaras. Vejo sorrisos nos olhos e imagino nos lábios. Celebrar com a cara tapada é, para todos nós, um desconforto, uma estranheza que nos incomoda. Toda a nossa tradição cristã é a valorização do rosto como expressão da singularidade e identidade de cada pessoa. Ainda que incomodados, aceitamos o uso de máscara como proteção e cuidado que damos uns aos outros.

Voltamos a ser comunidade celebrante, voltamos a ser corpo comunitário. A eucaristia é ação de uma inteira comunidade, comunhão concreta de pessoa organizadas. Com o presidente (o padre), o diácono, os leitores, os cantores, agora os técnicos e todos vós. É toda uma comunidade concreta que celebra a eucaristia. Tínhamos todos saudades de sermos assembleia celebrante, comunidade ao vivo, concreta, presente. Hoje, com este espaço comum mais frequentando, ainda que com distâncias, voltamos a ser, numa «só voz», uma assembleia celebrante.

Narra a primeira leitura: «Os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar». Subitamente as janelas escancaram-se com uma forte rajada de vento que inundou toda a casa de novo ar. Também hoje a Capela do Rato é, nestas celebrações pós confinamento, um lugar de janelas abertas, onde acontecem correntes de ar. Esperemos que não nos constipem… Possa isso ser para todos nós uma profecia ao vivo de um novo Pentecostes.

«Todos reunidos no mesmo lugar»: Uma expressão bela e forte dos Atos dos Apóstolos. Diz, ao mesmo tempo, a dimensão inclusiva (todos) e local (no mesmo lugar) da comunidade de Jerusalém. Onde quer que se encontre, a Igreja realiza-se sempre como comunidade local de pessoas concretas, reunidas «mesmo lugar». Durante o tempo de confinamento, orgulho-me de nunca termos interrompido a identidade e a ligação ao local que é a nossa Capela.

Este nosso lugar não é apenas o espaço simbólico, carregado de história; é, sobretudo, um lugar onde vivemos intensas experiências de fé, de beleza, de cultura, de teatro, de música, de literatura, de pensamento… Um pequeno resto manteve viva neste comum lugar a presença da Comunidade do Rato e até a alargou através das redes. Nada estava garantido à partida; poderia ter havido baixas pelo caminho… Graças a Deus não houve. Multiplicamos amigos, irmãos e irmãs que connosco sintonizam e nos seguem em suas casas.

Recomeçamos. O mesmo é dizer, pelo Espírito toda a Igreja, cada um de nós, está sempre a recomeçar, a renovar-se, a ampliar respiração, a receber novo ar. Viver é estar em constante renovação; aceitar o imprevisto, o risco, o inseguro. E isso não é, propriamente, um caminho fácil, pois todos nós nos acomodamos, gostamos de seguranças e de estabilidade. Este tempo de crise sanitária obrigou-nos a tomar novas atitudes e a adquirir comportamentos que até há uns meses não imaginávamos possíveis. Houve como que uma revolução nos nossos hábitos.

Também está a acontecer uma revolução na vida eclesial, que ainda não sabemos bem identificar. Como vão ser as nossas comunidades no futuro?… Este recomeço em dia de Pentecostes é um sinal profético: seja promessa de uma Igreja viva que se recolheu em casa, valorizando a sua dimensão doméstica, e que agora volta aos espaços comuns com prudência, para se alargar, se renovar e se reinventar, confiando-se ao dom do Espírito que faz novas todas as coisas.

Sublinho a passagem da segunda leitura, tirada da primeira epístola de Paulo aos Coríntios: «há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo». Cada pessoa em sua história única de vida é um carisma para bem da sociedade, da família e da comunidade cristã. Na Igreja Católica há uma tremenda tentação: fazer regras para tudo, reduzir tudo a um denominador comum. É a nossa herança romana para o bem e para o mal. Mas quem garante a unidade da Igreja é o Espírito Santo, que dá a cada um qualidades, dons, inspirações para edificar a comunidade: «E a todos nos foi dado a beber um único Espírito».

Juntar num projeto comum todas as nossas singularidades, carismas, dons, serviços, qualidades pessoais é um caminho com inevitáveis tensões. Pode haver singularidades caprichosas, autoritárias, ávidas de protagonismo… A afirmação do próprio grupo pode excluir participação de outras pessoas. Onde não há diversidade e inclusão, a Igreja fica adiada. Precisamos, continuamente, de recomeçar como comunidade, diferentes, cooperativos, em unidade na diversidade. «Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum (…)».

Uma referência, por fim, ao evangelho de hoje. Podemos dizer que o texto lido nos narra o desconfinamento dos discípulos. É uma feliz coincidência em dia de recomeço das celebrações comunitárias. «Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes “A paz esteja convosco”». Na narrativa de João, estamos no final do domingo de Páscoa. Jesus ressuscitado, pleno de vida, atravessa o confinamento dos discípulos e coloca-se no meio deles, pacificando-os e enviando-os para fora. Faz um gesto que nós aqui, em contexto de regras sanitárias, não poderíamos fazer: «soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos”».

Na simbologia bíblica, soprar significa dar vida, alento, ânimo, a partir do ar que de dentro se expira. É o gesto próprio de Deus, que cria, que dá respiração e alento, que faz viver. O universo, a humanidade, o tecido da vida é uma grande respiração. Esse vento/hálito que dá oxigénio ao universo, a cada ser vivo, a cada ser humano é o Espírito Santo. Soprando sobre os discípulos, Jesus inaugura uma nova criação, dá origem a uma nova humanidade. O seu hálito, o Espírito Santo, não contamina, não põe a vida em risco; pelo contrário, revitaliza, regenera, fortalece, potencia. O seu sopro faz-nos viver: pacifica-nos, perdoa, envia-nos para fora de nós mesmos. Desconfina-nos do medo, abre as portas dos nossos fechamentos, arranca-nos das falsas seguranças.

Que este feliz dia de recomeço, em dia de Pentecostes, seja também para cada um de nós, para a nossa Comunidade do Rato e para a Igreja deste tempo, o princípio de um futuro fecundo e renovado.

Pe. António Martins, Pentecostes

PAUSA ESTIVAL

A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 13 de setembro.

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