Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

A vida que Deus nos dá em Cristo ressuscitado é um excesso de amor. Ao tentar dizer esse excesso, as nossas palavras são sempre poucas e pobres; e, todavia, são necessárias. Precisamos de palavras e de símbolos para falar de Deus e da sua presença em nós, para tomarmos consciência da identidade da nossa fé, para darmos sentido ao nosso agir e à nossa esperança.

Hoje falamos de ascensão. Narram os Atos dos Apóstolos: «elevou-Se à vista deles, e uma nuvem escondeu-O a seus olhos». O Senhor ressuscitado desaparece à vista dos discípulos, escondido por uma nuvem. Que significa, pois, este desaparecimento, este escondimento, esta elevação para a invisibilidade? A linguagem é simbólica.

Nos relatos do Novo Testamento, a presença de Jesus em nossa humanidade e em nosso mundo está marcada por dois movimentos, um de esvaziamento e de descida, e outro de elevação e de subida. Como nos diz a Carta aos Filipenses, Cristo despoja-se de sua condição divina para assumir a condição de servo, «tornando semelhante a nós»; em consequência deste seu despojamento, o Pai exalta-o e lhe «dá um nome que está acima de todo o nome». Em seu despojamento, Cristo vem ao nosso encontro, tornando-se um de nós, para nos servir, amar, curar e reunir numa nova humanidade.

Ressuscitado da morte, Cristo é movimento ascensional, arrebatamento, vida de Deus em nós que nos eleva para Deus e em Deus nos completa. A ressurreição é movimento que nos arrebata, intensidade de vida que nos envolve, força de Deus que integra e supera as nossas vulnerabilidades e os nossos limites. Aquele que desce e nos serve, é também Aquele que nos eleva consigo para o Pai, que nos coloca em movimento ascensional de futuro, que nos projeta para uma plenitude de vida, a Santíssima Trindade. Onde estará o Filho, em sua relação íntima com o Pai, na intensidade fecunda do Espírito, também aí, com Ele, nós estaremos e seremos.

No belo e denso texto da Carta aos Efésios hoje lido na segunda leitura, S. Paulo indica-nos que o «Pai da glória» exerceu no Filho uma poderosa e eficaz força de vida, ressuscitando-o dos mortos e colocando-o à sua direita. Ressuscitado, Cristo é princípio de vida nova para toda a criação, é Senhor do universo, está acima de todas as coisas, pois Ele «preenche tudo em todos». Escreve o Papa Francisco em Laudato si`: «as criaturas deste mundo já não nos aparecem como uma realidade meramente natural, porque o Ressuscitado as envolve misteriosamente e guia para um destino de plenitude» (LS 100). Podemos dizer que a ascensão é o dinamismo da vida de Cristo ressuscitado a elevar e a dinamizar a humanidade e o universo para a plenitude.

Concentremo-nos agora no relato do evangelho de Mateus. Jesus ressuscitado convoca os discípulos para um encontro com Ele na Galileia, aí onde tudo começou. E agora onde tudo recomeça para uma missão universal, para esse êxodo da Igreja pelo mundo que continua connosco. Mas este reencontro com o Ressuscitado é desconcertante: «Quando o viram, adoram-no; mas alguns ainda duvidaram». Passagem paradoxal, mesmo contraditória: como é possível prostrarem-se em adoração perante o Senhor e continuarem a duvidar? Talvez essa paradoxalidade seja uma condição permanente da nossa experiência da fé, que avança entre adoração e dúvidas, confiança e hesitações.

Mas é a estes discípulos que ainda duvidam, hesitam e cheios de perplexidades a quem o Senhor confia a missão: «Ide e ensinai todas as nações». Ou noutra tradução possível: «Ide e fazei discípulos [discipulai] de todas as nações». Esta é a missão de uma Igreja em contínuo estado de saída: saída das suas seguranças geográficas, litúrgicas, teológicas, canónicas, culturais, económicas; saída para ir ao encontro do diferente, do estrangeiro, do pobre e do excluído, da diversidade de culturas, de línguas, de pessoas, para «ensinar a cumprir o que o Senhor nos mandou». O mesmo é dizer, testemunhar o evangelho das bem-aventuranças.

É a nós com as nossas imperfeições, hesitações, incertezas, medos, mas também com a semente da fé e da esperança, com a nossa capacidade de sermos fermento do seu reino, que o Senhor confia, de novo, esta missão de o tornarmos presente em nosso mundo. Nunca estaremos à altura da missão que Ele nos confia; vivemos da sua confiança, vamos fundados na sua promessa de futuro. Para continuamente aprendermos a ser discípulos, a renovarmos a nossa esperança, a nos sentirmos desafiados pelos imprevistos da história, como atualmente está acontecendo. Na escola evangélica do Mestre somos sempre discípulos, estamos sempre a aprender. E nunca estaremos preparados.

Fazer discípulos das nações e batizá-los: não se trata apenas do gesto ritual do batismo. Mas, através do gesto ritual do batismo, assinalar, celebrar e testemunhar a nossa pertença e o nosso destino divinos. Batizar quer dizer imergir, mergulhar. Imergir e mergulhar «no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo», no mistério de vida e de amor que brota da comunhão íntima da Trindade. Batizados, o mesmo é dizer imersos na abundância do amor divino que nos funda e nos promete, nos origina e nos destina, nos faz ser e viver. Somos de Deus, a Ele pertencemos; Deus nos atrai e nos seduz no grito profundo das nossas carências e do nosso desejo. A Trindade, abundância de vida transbordante, é o nosso habitat, o oceano que nos faz viver, a fonte que mata a nossa sede, a pátria da nossa inteireza para onde nos orientamos em nossas ascensões. «Só Deus [nos] basta», como escreveu Santa Teresa de Ávila.

Vivemos o presente fundados na promessa do Senhor: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos». A sua palavra promete-nos futuro e é o fundamento da nossa esperança. Nas nossas lutas diárias, nas nossas resistências aos desafios inesperados da história, no nosso cuidado pela criação, no nosso testemunho de discípulos tentando viver as bem-aventuranças e ser sal da terra e luz do mundo, o Senhor está connosco. Não estamos desamparados. A sua promessa consola-nos, conforta-nos e encoraja-nos. Podemos viver com atrevimento e ousadia: Ele está connosco em todos os dias da nossa vida, os luminosos e os mais sombrios, os de paz interior e os de tormenta, os de clareza e os de incerteza.

Que o Senhor «ilumine os olhos do nosso coração para compreendermos a esperança a que somos chamados».

Pe. António Martins, Ascensão do Senhor

PAUSA ESTIVAL

A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 13 de setembro.

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