Queridas Irmãs
Queridos Irmãos,

Estamos todos desejosos de sair um pouco do nosso confinamento, de respirar com mais folgo, de voltar a uma certa normalidade (uma normalidade na anormalidade). Bem sabemos que vivemos no imprevisível e na insegurança, cuidando de nós próprios e uns dos outros. E por aí se vai desenhar a nossa vida futura. Continuamos ainda confinados em nossas casas, preservados de contactos corpóreos, distanciados na sociabilidade. Todos os dias fazemos gestos de heroísmo.

É aí nos espaços familiares fechados que o Senhor vem estar connosco, para se colocar no meio de nós, para ser o centro das nossas vidas. «Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-se no meio deles». Parece que João escreveu diretamente para nós o trecho do evangelho de hoje; e, de certo modo, isso é verdade, porque a Palavra de Deus é sempre dirigida ao concreto das nossas vidas.

O Senhor ressuscitado, fonte eterna de vida nova, vem atravessar as paredes do nosso isolamento e estar no meio da nossa família. Vem quebrar as portas do nosso egoísmo, quando estamos fechados em nós mesmos, indiferentes a quem está à nossa volta. Vem derrubar as paredes do nosso individualismo, quando pensamos apenas nos nossos interesses. Este é «o primeiro dia da semana», o tempo novo da nossa ressurreição pessoal, familiar, comunitária, de toda a humanidade no tempo presente. Estamos perante uma nova etapa da história humana, incerta, desconhecida, imprevisível, com menos recursos económicos.

Naquele primeiro dia da semana, os discípulos estavam trancados em casa, «com medo dos judeus». Tinham medo, temos medo. Tinham medo de ser perseguidos, até mortos, como aconteceu a Jesus. Por isso escondem-se em casa e, assim, protegidos e juntos, com a segurança possível, resistem ao medo. Quando a vida está em perigo, ativa-se o medo como mecanismo auto-protetor. Mas o medo arruína a confiança uns nos outros. Olhamos com desconfiança cada pessoa que encontramos, com medo de sermos infetados e de infetar. Este é um inesperado sentimento que, no presente, nos afeta e infeta. Este vírus ainda pode-se revelar bem mais perigoso do que o outro, porque afeta o fundamento da nossa convivência humana. O medo é o alimento de todas as ditaduras.

É a esta pequena comunidade medrosa, às nossas famílias, a cada um de nós, à sociedade inteira que Jesus vem. Vem para nos encorajar a sair e a vencer os nossos medos, a pacificarmos as nossas relações feridas, a ventilar-nos com o sopro do seu Espírito: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». Cristo ressuscitado é sopro de vida, ventilação renovada, respiração que alarga, pulmões regenerados. Que atualidade simbólica tem esta passagem do evangelho de hoje!

Este é «o primeiro dia da semana» de uma nova respiração. Todos somos, nesse sopro/neste Espírito, enviados a uma missão, que foi a de Cristo e é agora a nossa: perdoar, reconciliar, refazer relações, superar inimizades, recomeçar onde houve roturas, curar onde houve feridas. O perdão é o efeito continuado da ressurreição em nós, a nossa permanente ressurreição. Em suas consequências concretas, o perdão pode ir até ao perdão das dívidas financeiras (cf. Mt 6,12). Vai nesse sentido o apelo profético do Papa Francisco, no domingo de Páscoa, à solidariedade internacional, «reduzindo, se não mesmo anulando, a dívida que pesa sobre os orçamentos dos países mais pobres». A criatividade do perdão tem inesgotáveis aplicações.

O evangelho de João apresenta-nos o paradoxo da páscoa de Cristo, e da nossa: morte e vida, dor e júbilo, violência e paz, corpo trespassado e corpo glorificado pelo Espírito, uma única realidade que permanece. Cristo ressuscitado guarda a memória viva da paixão e da cruz. Vem ao meio dos discípulos expondo as suas mãos rasgadas e o seu lado trespassado. Ele é um Deus ferido que integra em si a nossa vulnerabilidade humana. Toda a dor da história humana, de cada pessoa, entra na glória da ressurreição. O Deus em que havemos de acreditar após o covid 19, não será um Deus invencível, mágico, mas um Deus trespassado e vulnerável, um Deus que assume em si mesmo, através da humanidade do Filho, as feridas de toda a humanidade.

Nas feridas expostas do Ressuscitado, estão recolhidos e consagrados todos os corpos violentados, naufragados, recusados e destruídos, pela violência da guerra ou da fome, pela exclusão social ou pela miséria. Que boa nova o evangelho nos anuncia: As feridas visíveis e invisíveis de cada um de nós, as expostas no corpo ou gravadas nos recantos interiores da alma, acolhidas, à luz de Cristo ressuscitado, têm a sua fecundidade, não são para rejeitar. Somos chamados a acolher, na fé, a nossa vulnerabilidade humana, aquela dimensão de nós mesmos que nos fere, nos humilha e nos incomoda.

Apaixona-nos essa curiosa figura do evangelho chamada Tomé: homem atrevido, que não fica sujeito ao confinamento, que não está recolhido, com medo, em casa. Corajoso mas duvidoso na fé: não acredita no testemunho dos outros discípulos. Pede provas, quer ver e tocar com as próprias mãos: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Tomé fascina-nos: nele revemos a nossa vontade de sair de casa, mas também as nossas dúvidas de fé.

Todos nós também pedimos, de certo modo, provas; queremos tocar o intangível com as próprias mãos; gostaríamos que a confiança e o amor pudessem ser verificados. Tomé representa o nosso caminho longo, hesitante, até duvidoso, para chegarmos a uma adesão plena e sincera de fé na ressurreição, na vida que se ergue da morte. Revemo-nos nas dúvidas de Tomé; possamos também nos rever na sua confissão de fé, tão profunda, tão pessoal, tão sincera: «Meu Senhor e meu Deus».

Uma palavra final: a utopia cristã da fraternidade, vida ressuscitada no tecido quotidiano das relações. Os Atos dos Apóstolos narram o estilo da «comunhão fraterna» das origens cristãs: «Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam propriedades e bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um». O evangelho de João assinala a importância da comunidade na resistência ao perigo, na caminhada de fé: é no meio deles que Jesus se apresenta. Isolados ficamos desprotegidos; em comunidade a vida renova-se e multiplica-se.

As inseguranças, os desafios e as urgências do presente, e do futuro que já começa, apelam-nos a reinventar uma qualidade de vida que passa pelo reforço da comunhão fraterna, dos laços de amizade e de solidariedade, por uma economia que dá vida, pelo cuidado da nossa comum humanidade, sempre em risco, sempre ameaçada. Essa qualidade de vida, em linguagem cristã, chama-se evangelho.

Renascidos, por Cristo, para «uma esperança viva», avancemos sem medo.

Pe. António Martins, II Domingo da Páscoa

PAUSA ESTIVAL

A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 13 de setembro.

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