Queridas irmãs,
Queridos irmãos.

Um silêncio invade as nossas ruas e a nossa própria consciência. As nossas cidades cosmopolitas ficam desertas. A vida económica reduzida ao mínimo; as atividades culturais, eclesiais e escolares suspensas. Nós todos, recolhidos em nossas casas, tentamos agora reorganizar a vida, dar continuidade às atividades pelo teletrabalho, pelas vídeo-aulas, a que se junta a vida da casa, o cuidado dos filhos, dos pais, dos avós, dos doentes.

O espaço familiar concentrado, apertado, pode ser explosivo. Todo o cuidado é pouco connosco mesmos, com os mais próximos, para que o veneno das tensões e das acusações não mine as relações afetivas e familiares. Não temos apenas de nos preservar do contágio, temos também de cuidar da nossa saúde relacional, emocional, mental e espiritual. Tantas frentes, tantos desafios ao mesmo tempo. Podemos vacilar, mas vamo-nos ajudar uns aos outros a manter uma rede intensa e cuidada de afetos, de estímulos, de encorajamento, de confiança.

Todos precisamos de cultivar o diálogo, a partilha de tarefas, tempos de humor e de divertimento. Precisamos de estar informados, mas precisamos também de nos proteger do bombardeamento informativo e da saturação das redes sociais. Saibamos aproveitar este tempo de isolamento para cultivar um profundo silêncio interior, tanto quanto a vida de uma casa cheia agora nos permite. A elaboração do sentido de tudo o que estamos a viver faz-se no diálogo e na partilha de uns com os outros (há histórias e experiências a contar, medos a verbalizar), mas faz-se também nos processos pessoais de profundo recolhimento, de silêncio interior. É nesse recolhimento interior que a nossa consciência se alarga e se ilumina. O mundo novo que desejamos, após o coronavírus, não virá depois, começa já hoje.

Tudo o que vivemos, cada gesto, cada situação, cada emoção, cada reação diz uma verdade de nós mesmos, no presente, a ser acolhida e interpretada na fé, na nossa relação com Deus, que está presente em tudo o que experimentamos. Deus une o que nos parece dividido, une-nos todos, em Cristo, numa única humanidade. O isolamento e o jejum das relações, dos encontros e da comunidade, sendo caminho duro de deserto, não seja desperdiçado. Podemos crescer no conhecimento de nós mesmos, na relação com os que estão próximos, na atenção aos que estão longe, numa oração pessoal mais intensa, onde presentes a Deus e celebrando a sua presença, procuramos reunir e unificar estes tantos pedaços de vida rasgada, estas fraturas na sociabilidade. Assumir e atravessar na fé essa passagem pelo desconhecido, pelo imprevisível, com ousadia, criatividade, resistência e inteira confiança, é tarefa pessoalíssima, que não podemos delegar. Cada um de nós vai fazer a sua travessia interior pelos acontecimentos, dar-lhes um sentido. Este é o nosso Mar Vermelho que vamos atravessar em conjunto, e cada um por si.

Na ausência do pão eucarístico, alimenta-nos o pão da Palavra. Seguimos o evangelho de João que marca agora o ritmo da Igreja a caminho da Páscoa. Aquele homem cego de nascença carregava um destino de culpa e de exclusão; era visto como alguém punido por Deus. Na fórmula longa do evangelho, que não lemos aqui, Jesus diz que essa cegueira não é punição nem castigo de Deus pelos pecados dele ou dos seus pais. As palavras de Jesus em relação ao cego podem ser ditas diretamente para nós, no drama da atualidade. Há que evitar cair na tentação de interpretar o flagelo e o sofrimento como punição de Deus, como se Deus fosse um sádico castigador.

Jesus aponta outro horizonte, o da misericórdia de um Deus que entra na paixão da nossa humanidade. Todas as circunstâncias, todos os acontecimentos são sinais da sua presença que sempre nos acompanha. Podemos ver nos dramas da vida e da história «manifestações» da graça de Deus: a bondade e a solidariedade entre as pessoas, esta unidade no perigo, esta comunhão profunda na dor, esta capacidade de lutarmos por uma causa comum, a confiança e a esperança que nos fazem resistir, a capacidade de nos transcendermos no meio da prova. Porque o bem da humanidade é a glória de Deus. Essa é a ousadia criativa da fé: identificarmos na complexidade do que estamos a viver sinais da presença de Deus e de esperança. Cada um de nós possa dizer como o cego, do profundo da sua situação, por mais difícil que seja: «Eu creio, Senhor».

No tempo presente peçamos e desejemos o dom de abrir-se-nos os olhos. A urgência do presente transporta o grave apelo a um acordar da cegueira e da embriaguez alucinada em que todos estávamos a viver, da superficialidade das relações, da vertigem do consumo, do exacerbado individualismo reinante, da lógica dominante do lucro imediato, da arrogância de uma vontade de dominar tudo e todos. O drama do tempo presente devolve-nos ao realismo da nossa finitude. Somos convocados a crescermos juntos em humanidade, a valorizar a simplicidade, a aceitar a nossa vulnerabilidade. Possa a dor e a angústia que vivemos limpar os olhos do coração. Possa cada um de nós proclamar do profundo da sua inquietação e incerteza: «Agora vejo».

Consola-nos e encoraja-nos o Salmo 23 que recitámos. Lido na presente situação, este Salmo é mesmo Palavra de Deus que nos é diretamente dirigida. Repetíamos no refrão: «O Senhor é meu pastor: nada me falta», quer andemos pelos «prados verdejantes», quer «atravessemos ravinas tenebrosas». E é nesta travessia que todos estamos. Conforta-nos essa certeza atrevida da fé, traduzida em oração de confiança, em esperança corajosa. Possamos dizer, do profundo dos nossos receios e das nossas inquietações: «não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo». Não porque estejamos livres de perigo, mas porque «A bondade e a graça [do Senhor] hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida».

Vivemos tempos difíceis a exigir de todos nós cadeias de solidariedade, de partilha, de compaixão e de consolo. «Há que dar todo o apoio aos grupos mais vulneráveis, como os idosos, evitando de todos os modos que eles tenham que se expor a riscos (fazendo compras por eles, por exemplo)»; «o combate à pandemia exige uma consciência mais apurada do bem comum. Só unidos poderemos superar o desafio» (Nota da Comissão Nacional de Justiça e Paz, 16.03.2020). Muitas famílias com fracos recursos ficam sem apoios; noutras aumenta a instabilidade económica com o encerramento de postos de trabalho. Muitos idosos isolados têm dificuldades acrescidas no acesso à saúde, a medicamentos, a bens essenciais. Os sem-abrigo não têm casa para se isolar. Muitas redes de ajuda e de partilha, com o encerramento dos restaurantes e das lojas, cessam de existir. Muitos voluntários regressam também a casa. Ao risco de morte real acrescenta-se o risco de morte social. Os mais vulneráveis são também vítimas colaterais do vírus. Possa o estado de emergência tornar-se (e tornar-nos) num estado de urgência solidária e fraterna.

Se este nosso tempo presente é de risco, é também de promessa. Procuremos encontrar e ativar a esperança no medo, a cooperação no isolamento, a vida na morte, o encorajamento no desânimo e na exaustão. Esta é uma hora densa da nossa história contemporânea. É a hora da nossa reinvenção pessoal e comunitária, como nações e como humanidade global. Esta é uma oportunidade para um acordar de consciências.

Como nos apela Paulo: «Desperta, tu que dormes».

Pe. António Martins, Domingo IV da Quaresma