Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

A santidade parece-nos dimensão impossível, ao menos para nós mergulhados na vida quotidiana, com as suas tensões e contradições. Lendo as histórias de santos, cheias de fantasia miraculosa, as suas vidas parecem extravagantes, estranhas à nossa normalidade. A sua violência ascética feita de renúncias, a luta corpo a corpo com o demónio, a visões do céu e do inferno, a relação pacificada com as feras, a resistência heroica às perseguições, à difamação, são para nós difíceis de seguir como exemplos. Vista por este prisma, a santidade parece apenas possível a uma elite de extravagantes, de loucos e de marginais, de pessoas excessivas e fora do comum. Precisamos de redescobrir e viver a santidade como a expressão e a experiência mais própria da vida cristã, como estilo evangélico possível a qualquer pessoa, em qualquer situação existencial, em qualquer estado de vida.

Todos os cristãos são chamados à santidade, à experiência profunda do amor a Deus e do amor ao próximo no dia-a-dia, no concreto da existência. Pois essa é a vontade de Deus, como bem lembra o Concílio Vaticano II: «… todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade» (LG 39). A santidade é, pois, a marca própria da diferença e da originalidade cristãs, o acolhimento da gratuidade da misericórdia de Deus que vem ao nosso encontro, em nossa fragilidade, para nos humanizar.

Na sua obra «Contos Exemplares», Sophia de Mello Breyner Andersen apresenta «O Retrato de Mónica», retrato ácido e profético de um modo de viver que pode ser uma tentação permanente da vida cristã; o contrário do evangelho e das bem-aventuranças. Mónica era uma autêntica mulher de sucesso, influente, com poder, reconhecida, empenhada, ativa, exigente consigo mesma. Escreve Sophia: «De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade». Renunciou à beleza e à verdade profunda da vida; renunciou à sua mais profunda humanidade. «A santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias». Esta diária negação da graça é a tragédia do humano, a sua perdição, caminho de alienação, desperdício de tempo e de vida, vida perdida, vida inútil. E como se poderá viver numa permanente negação do dom e de si mesmo? Isso dá tanto trabalho.

Dá mais trabalho negar o dom da santidade do que acolhe-lo e vivê-lo. «É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes quando os casacos já estão prontos, as crianças já morreram à fome». Sim, na vida de Mónica há muitas obras de caridade, mas nenhuma bem-aventurança desejada, praticada, aproximada. «O Retrato de Mónica», caricato e trágico, é o retrato de uma possibilidade das nossas vidas, que nada tem de bem-aventurado.

Lemos o evangelho das bem-aventuranças, e vemos o mundo ao avesso, e esse avesso, para nós impensável e indesejável, é o próprio lugar onde se pode experimentar e viver a felicidade, a alegria e a exultação de uma vida marcada pela bondade e pela beleza. Haverá felicidade a partir dos excluídos, dos pobres, dos descartados, dos que sofrem injustiça e são perseguidos, dos humilhados e dos que choram? Poderá haver felicidade evangélica nos lugares de infelicidade humana? Sim. É possível uma vida autêntica, bela, bem-aventurada em situações de carência e de perseguição.

Basta um olhar puro, transparente, liberto de posse e de instrumentalização dos outros e das coisas: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus». Basta um despojamento interior das próprias certezas, a renúncia voluntária à riqueza, ao domínio e ao poder: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus». Basta resistir na perseguição e na injustiça, e acreditar numa alternativa possível, lutando para que aconteça: «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus». A desgraça pode ser o lugar onde se reinventa a esperança, uma vida humanizada como alternativa à desumanização. «Bem-aventurado», «feliz» é outro modo de dizer e viver a santidade. As bem-aventuranças são a alternativa da vida cristã.

Pergunto a mim mesmo se não somos um pouco como Mónica: esquecemo-nos da santidade, vivemos indiferentes à diferença cristã. A felicidade evangélica das bem-aventuranças pode passar-nos ao lado: é coisa poética sem viabilidade prática, porque as exigências concretas da vida são luta e competição, aumento da riqueza e do poder, posse e influência, expansão do domínio e da força. Ninguém fica isento da atração dos valores dominantes da sociedade, dos apelos atrativos a uma vida de sucesso, reconhecida e influente. A santidade pode acabar por ser uma renúncia prática, que não temos a coragem de reconhecer e de admitir. Ficamos como que impermeáveis à novidade do evangelho, dizemos que não é para nós e vamos fazendo pactos secretos com os senhores deste mundo, para assegurarmos o nosso lugar. Quantas cedência ao desejo de possuir e de dominar! Talvez haja uma Mónica em cada um de nós, aquela Mónica que renuncia à santidade, a uma vida bem-aventurada e feliz.

A santidade é a nossa vocação primeira, o decisivo da vida cristã, a marca da nossa diferença, o divino apelo que nos faz viver e agir. É o desejo de uma vida bela e feliz que, silenciosamente, grita, com gemidos inefáveis, no mais profundo do nosso ser e que recusamos ouvir, distraídos por tantas solicitações imediatas. Precisamos de cultivar o desejo de sermos santos, porque é isso a que Deus nos chama. Santos na família, santos no trabalho, santos na empresa, santos na amizade, santos nas estradas, no lazer, nos afetos, em tudo o que somos, pensamos e agimos. A santidade é o desejo de unificação e inteireza da nossa vida, e a orientação exigente nesse sentido, nas possibilidades concretas da existência, com a ousadia do passo possível a cada momento.

Todavia, convém dizer que não sabemos muito bem o que é a santidade, por onde passa, como se experimenta, quem é santo. Procuramos, tateamos, tentamos. Vivemos da procura, e não da certeza da posse; num caminhar incessante, feito mais de desapropriações do que de aquisições, Quem é santo, como se vive a santidade, só Deus sabe. Na santidade há uma dimensão inconsciente, desconhecida, de ignorância, se me atrevo a dizer. O santo nunca sabe bem que é santo, pois experimenta cada vez mais uma maior distância na sua aproximação de Deus. Sublinho a particularidade da passagem do livro do Apocalipse, lido na primeira leitura de hoje: Quem é santo, no fundo, só Deus sabe. «Meu Senhor, vós é que sabeis»; «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».

O critério decisivo da santidade é ter vivido na própria carne a páscoa de Cristo, num testemunho que pode ir até ao martírio, esse lavar as próprias túnicas no sangue do Cordeiro, a expressão maior da santidade. Enquanto vivermos, a nossa vida está em aberto, pendente entre a santidade/a bem-aventurança e a maldição/a desgraça, entre a felicidade e a tragédia. Somos vidas em aberto, promessa ainda por cumprir, «ainda não se manifestou o que havemos de ser». E nenhum passado condiciona o encontro redentor/santificador com Cristo. No evangelho da santidade, não há determinismos, nem vidas condicionadas. Vivemos entre a oportunidade e o risco, a cada instante, até ao momento derradeiro. A santidade bem pode ser o triunfo da graça, num último instante, numa vida de pecado que se rende, por atração e fascínio, à beleza redentora do amor e do perdão, como foi o caso do bom ladrão.

Recordemos, a concluir, quanto nos desafia o Papa Francisco, em sua exortação apostólica «Alegrai-vos e exultai/Gaudete et exsultate», dirigindo-se a cada um de nós, diretamente: «Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida “existe apenas uma tristeza: a de não ser santo”» (GE 34). No meio das nossas tristezas quotidianas possa fermentar em nós o desejo da alegria da santidade.

Não tenhamos medo de procurar ser santos: seja essa a nossa alegria, procurada e renovada em cada dia, feita de pequenos e corajosos passos.

Pe. António Martins, Solenidade de Todos os Santos

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