Queridas Irmãs
Queridos Irmãos,

A primeira leitura, do livro da Sabedoria, oferece-nos uma das mais belas invocações de Deus, em toda a Escritura: «Senhor, amigo/amante da vida». Tudo o que existe, vive, respira, os diferentes ecossistemas, cada pessoa, cada povo, tudo, contemplado na fé, é expressão do amor criador de Deus. Deus cria porque ama. E só um Deus de amor pode criar, porque o seu amor dá vida: «Vós amais tudo o que existe e não odiais nada do que fizeste». Podemos dizer que a alegria criadora, o prazer amoroso de fazer acontecer, de dar ser e vida é o fundamento de todas as coisas, de todas as criaturas.

Terminou no passado domingo o Sínodo sobre o Amazonas, em que o povo de Deus dessa região, juntamente com os seus bispos, expressou a consciência da urgente necessidade de salvar a selva amazónica e os povos indígenas que nela habitam. Como refere o documento final: «A Amazónia é hoje uma formosa formosura ferida e deformada, um lugar de dor e violência. Os atentados contra a natureza têm consequências contra a vida dos povos». Viveram-se intensos dias de autêntico e fecundo debate eclesial. Houve festa, celebração, alegria e profecia. Houve uma vontade de soltar a palavra, sem freios nem filtros; um dar a palavra ao povo que sente, sofre, vive, celebra e espera respostas concretas dos seus pastores.

Este Sínodo trouxe às comunidades cristãs do Amazonas uma renovação do impulso conciliar: a Igreja cumpriu-se de forma sinodal, ouvindo e discernindo o sentir dos crentes. «Foi uma nova experiência de escuta para discernir a voz do Espírito que conduz a Igreja para novos caminhos de presença, evangelização e diálogo intercultural na Amazónia» (Documento final). Neste Sínodo, que muitos de dentro e de fora tentaram inviabilizar, deturpar e esvaziar, sai uma Igreja mais reforçada na sua vontade de renovação; confirmam-se o estilo e os desafios do Papa Francisco que convoca a Igreja para acolher as periferias, escutar o clamor do pobre, e cumprir-se, em missão, no cuidado das feridas da humanidade e da criação. Reconheceu-se a necessidade de ampliar a participação laical, a urgência de promover ministérios para homens e para mulheres de forma equitativa. Foi pedido o diaconado permanente para mulheres e proposto que se possam ordenar padres diáconos permanentes. Saiu deste Sínodo uma maior e mais fina consciência de uma Igreja sinodal, samaritana, misericordiosa, a traçar novos caminhos de renovação pastoral.

O texto do evangelho de hoje oferece-nos o encontro inesperado e insólito de Jesus com Zaqueu, chefe dos publicanos, quando atravessava a cidade de Jericó. Trata-se de um episódio que só Lucas narra. Vale a pena perceber o improvável daquele encontro e quanto o mesmo tem de subversivo e de audaz da parte de Jesus. O publicano é a figura do judeu colaboracionista com o poder ocupante romano; cobra impostos nas fronteiras das cidades, violentando os seus concidadãos com a proteção da força militar ocupante; e mais, parte do que extorquia, em nome do ocupante, era para proveito próprio. Este homem, chefe da «quadrilha» dos publicanos, e ainda por cima rico com uma riqueza suspeita, feita de corrupção, de violência e de falsificação, era alguém que um justo judeu, e possivelmente cada um de nós, não queria ter por amigo, com quem não se poderia dar.

Zaqueu, o publicano rico, é pobre em estatura; era pequenino e todos lhe passavam à frente; no meio da multidão, ficava sufocado, perdia as vistas. Mas é um homem imaginativo e pragmático. Aproveita-se das possibilidades da realidade para alcançar o seu desejo de ver Jesus: sobe a um sicómoro. Há nisto algo de caricato, de indigno, de impróprio. Mas aquele homem não se importa nada com os juízos dos outros, habituado que está à maledicência alheia. Age por si, e com grande liberdade. Não há situações humanas ideais para experimentar o encontro com o Senhor; qualquer situação humana, mais a mais caricata, mais pequenina e humilde, mesmo no maior obstáculo, pode ser uma situação de encontro redentor. Estamos no otimismo tão próprio de Lucas, desse seu singular olhar de misericórdia para com as fragilidades e os limites humanos, os de cada um de nós também.

Zaqueu quer dizer puro, inocente; mas esse nome no personagem do texto resulta contradição. Zaqueu, homem rico, era um homem excluído, um maldito, um impuro, de quem todos se afastavam. Este homem que procura ver Jesus, acaba por ser visto e encontrado por Jesus, devolvido em sua humanidade recuperada. «Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa”». Que bela inversão do olhar: o que procurava olha, é visto. Porque o olhar de Jesus, olhar de misericórdia e de compaixão, é sempre primeiro; é pelo seu olhar que podemos ver com mais clareza o mundo, os outros, a nós mesmos. Jesus devolveu a Zaqueu o verdadeiro Zaqueu, o homem puro, integro, inocente. Devolve a humanidade mais profunda de cada ser humano, sufocada por tantos juízos sociais, por tantas cumplicidades com os poderes dominantes, por tantas experiências negativas. Há um Zaqueu em nós a recuperar, a restituir.

Jesus faz-se pedinte da nossa hospitalidade; solicita o nosso dom. Vem até Zaqueu pelas possibilidades do dom e não pelos caminhos da condenação nem da acusação. Vem até Zaqueu, e até nós, solicitando o melhor de nós próprios, pedindo a nossa mais pura e mais bela humanidade, a de acolher: «Hoje devo ficar em tua casa». Jesus pede a Zaqueu hospitalidade, não a sua conversão; ser recebido em sua casa, sem nenhuma garantia de mudança ou de justiça. Jesus não pede condições. E isso impressiona-nos pelo excesso de nada. Não há troca, não há exigências; há encontro livre entre pessoas livres que se acolhem. E esse encontro é redentor; nele começa para Zaqueu uma nova vida, e começa de sua livre iniciativa.

O pedido de Jesus de permanecer junto de Zaqueu não comportava restituição dos bens às pessoas a quem lesou. «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais». A amizade antecipa a conversão. Jesus não dá sermões, faz-se amigo, companheiro de vida. Não aponta erros, faz-se presente, quer viver connosco a nossa própria vida. Dá-nos crédito: o pecador descobre-se amado. E tudo recomeça, uma nova vida tem início.

Porque nos podemos reconhecer amados e perdoados sem condições, somos capazes de nos converter, de sermos justos, de corrigirmos os nossos erros e desvios. No evangelho, só o amor tem poder para curar e salvar; para regenerar a nossa humanidade inocente e sufocada. É também a nós que o Senhor diz: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

Pe. António Martins, XXXI Domingo do Tempo Comum

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