Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

A vida cristã é feita do quotidiano, do ordinário. Acreditamos em milagres, porque o modo de Deus intervir não conhece limites. Talvez até gostássemos que os problemas e as dificuldades da nossa vida se resolvessem milagrosamente. Mas é caso para dizer: não contemos com isso. O próprio evangelho de hoje é um estímulo a não vivermos na expetativa de uma aparição, de uma intervenção do além no quotidiano das nossas vidas, a dizer como temos de decidir e nos orientar. Não virão mortos ressuscitados a dizer-nos, a partir do céu, como havemos de viver, na terra, uma vida mais justa, mais solidária e mais fraterna.

Temos já tudo o que precisamos para nos orientar: a Escritura (Moisés, os Profetas, o Evangelho), a doutrina social da Igreja. Temos a Escritura para nos guiar uns aos outros e para guiar cada um por si. Esta é a normalidade da vida cristã: Palavra proclamada, Palavra ouvida e Palavra que vamos tentando viver e pondo em prática. Aqui estamos, semana após semana, para nos formarmos, continuamente, pelo evangelho do Senhor. Quer o texto do domingo passado, quer o de hoje, são um apelo, uma provocação na nossa relação, sempre problemática e tensa, com os bens materiais e com a riqueza.

No evangelho de hoje Jesus narra-nos a parábola de um homem rico, opulento; vestia luxuosamente de púrpura e linho fino, banqueteava-se todos os dias. A seu lado, mesmo à sua porta, jazia um homem pobre «coberto de chagas». O homem rico permanece anónimo; do pobre sabemos o nome, «Lázaro», que significa «Deus é a minha ajuda». Aquela ajuda que parece não existir, invisível, mas que não seu tempo se revelará. Estes dois homens, com condições de vida opostas e improváveis pontos de encontro, partilham um destino comum, a morte. A morte é a coisa mais democrática que existe: iguala-nos a todos na mesma condição. Torna-nos todos pobres; todos ficamos empobrecidos, despojados da nossa riqueza, e a maior riqueza é a vida. Se a morte iguala a condição de pobreza, o destino eterno é invertido: o homem rico é atormentado pelas chamas na morada dos mortos; Lázaro, por seu lado, é acolhido, festivamente, no coração de Deus, segundo a linguagem do texto, «no seio de Abraão». Mas onde nos quer fazer chegar este evangelho?

Podemos dizer que o texto não está preocupado em nos revelar a geografia da vida após a morte (ainda que não possamos ignorar a linguagem própria da época sobre o além). O texto não está tanto preocupado com o destino eterno, quanto com o aqui e o agora da nossa vida, com o modo como nos relacionamos com a riqueza e fazemos dela relação com os outros. A preocupação do texto está na nossa relação direta com a riqueza, como cuidamos dos pobres e como podemos colmatar o abismo entre ricos e pobres, entre países ricos e países pobres, entre miseráveis bairros periféricos e os opulentos centros das grandes cidades. Este abismo social começa dentro de nós. O abismo eterno, definitivo, intransponível, pode ser evitado, mudando os abismos sociológicos, relacionais, políticos, económicos, tão presentes nas nossas sociedades. Os abismos do presente são transponíveis, e depende de nós criar pontes onde imperem abissais separações, discriminações e indiferenças.

Outro aspeto que emerge da narrativa do evangelho deste domingo é o seguinte: as nossas escolhas, as nossas atitudes, os nossos comportamentos têm valor eterno. Podemos dizer que Deus confirmará as nossas escolhas que fizemos durante o tempo da nossa vida, respeitando o valor definitivo da nossa liberdade (mas isto é apenas uma parte da esperança cristã). A parábola do evangelho de hoje procura iluminar e, ao mesmo tempo, julgar o valor definitivo das decisões que vamos tomando no concreto da nossa vida. Podemos até admitir que o homem rico pudesse ser alguém religiosamente justo, com uma profunda piedade em sua relação com Deus. Poderia até considerar-se, na melhor tradição religiosa judaica, que a sua riqueza era uma bênção de Deus.

Mas não: a sua riqueza torna-o cego e insensível aos pobres que o rodeiam, que vivem a seu lado. Aqui está onde a parábola do evangelho nos quer conduzir: o problema não está na riqueza mas no uso que fazemos dela, como a partilhamos e através dela construímos o bem comum e a justiça social. O homem rico da parábola faz da sua riqueza uma ostentação, cego e indiferente ao grito do pobre. O seu comportamento contradiz o evangelho, porque não acolhe os pobres, os abandonados, os desprezados nos banquetes que dá. Lembramos aqui aquela parábola, também de Lucas, de um homem que convida para o banquete de casamento do seu filho pobres, estropiados, cegos e cochos que encontra pelos caminhos (cf. Lc 14,21-24). No uso da usa riqueza não há sensibilidade social, mas apenas esbanjamento.

É bom que as empresas tenham responsabilidade social. Uma responsabilidade social não burocrática e distante mas atenta às necessidades concretas das pessoas que estão ao nosso lado. Podemos com toda a facilidade ser generosos em campanhas de solidariedade mas continuarmos indiferentes e cegos a quem está perto de nós, a quem é carente e vulnerável, a quem está marcado por alguma pobreza, tantas vezes envergonhada, disfarçada e oculta. A atenção à pessoa concreta que está a nosso lado, à nossa porta é o maior desafio quotidiano. E sejamos honestos: tantas barreiras sociais e culturais, tantos preconceitos nos separam. Há pessoas que vivem lado a lado sem se conhecerem, sem se saudarem, numa profunda ignorância relacional. Através da parábola narrada, o texto do evangelho de Lucas deste domingo apela-nos a esse esforço contínuo de atenção e de cuidado pelos nossos irmãos mais vulneráveis, não deixando que os cães lambam as suas feridas, expressão de uma cegueira e indiferença, de uma dureza de coração incapaz de compaixão.

O evangelho de hoje é um radical apelo a superarmos os abismos de indiferença que estão dentro de nós. É dentro de nós que começam os abismos de discriminação racial, de estatuto social. Estes demónios que existem dentro de nós transformam-se depois em estruturas de injustiça social. Encontramos neste texto uma provocação à conversão quotidiana do nosso olhar e do nosso agir. A treinarmos a nossa capacidade de atenção aos nossos irmãos mais vulneráveis e indefesos, aos mais expostos em suas fragilidades, para fazermos dos nossos dons – e são tantos – partilha. A cultura, a afetividade, a sensibilidade também são riqueza a partilhar.
Não partilhamos apenas a riqueza material, mas também a riqueza dos valores, dos afetos e das relações.

Talvez o aspeto mais importante do evangelho de hoje seja a conversão do olhar e do coração. Este olhar para cada pessoa em concreto, para a sua circunstância, para a sua necessidade. O Senhor que protege os mais vulneráveis (os peregrinos, os órfãos, as viúvas, nas expressões do Salmo), ilumine o nosso olhar e nos cure da cegueira da indiferença e da insensibilidade.

Pe. António Martins, Domingo XXVI do Tempo Comum

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