Queridas Irmãs
Queridos Irmãos

Finalmente voltamos a estar juntos, após esta diáspora de dois meses. É certo que alguns de nós fomos mantendo contactos, até nos encontrámos, ou partilhámos tempos de férias. A comunidade da Capela do Rato, e é importante dizê-lo, não se esgota no ritmo eucarístico nem nas dinâmicas dos encontros: é maior do que o previsto no calendário. Porque é feita de pessoas que se querem bem, que gostam de se encontrar, partilhar vida, afetos, cultura, saber e cuidar uns dos outros. Porque nos sentimos irmãos e queremos viver a nossa fraternidade no concreto da vida. Também no tempo de férias.

Confesso: já tinha saudades de vós, da qualidade e intensidade afetiva das nossas celebrações. Já me faziam falta para o meu viver de cristão e de padre. Aqui estamos, de novo, para iniciarmos mais um ano pastoral, mais um ano académico, mais um ano laboral, ou simplesmente mais um ano após as férias. Com a promessa do recomeço, o desejo e o ânimo de voltarmos a viver, uns com os outros, esta aventura de sermos crentes, marcada pela fecundidade do Espírito, que age no interior dos corações, e pela responsabilidade das nossas escolhas e dos nossos compromissos.

A comunidade da Capela do Rato é, antes de mais, um dom de Deus a cada um de nós, um lugar para nos acolhermos uns aos outros em nossa humanidade. Mas é, igualmente, o resultado da generosidade, da corresponsabilidade, do compromisso, do pensar e do agir de cada um de vós. A comunidade do Rato somos todos nós: é um dom e uma tarefa permanentes, minha e vossa, de cada um de nós. Nunca está concluída. Porque humana e sujeita ao tempo, a comunidade necessita continuamente de reorganização, de novas motivações, de revisão de vida, de recomeços. Porque há desgaste, porque nos cansámos, porque surgem tensões e conflitos. Porque somos humanos, limitados, imperfeitos e frágeis. Aqui estou eu, vosso padre/pastor, a consagrar-vos na unidade. A caminhar convosco na fé, a tentar ser sinal humano da humanidade de Cristo bom Pastor, que vai ao encontro da ovelha perdida. Peço-vos que continuamente rezeis por mim e pela minha missão, convosco.

Recomeçamos, para mais um ano, esta peregrinação que é o nosso viver crente. Com as suas previsões de calendário, que nos orienta, mas abertos ao imprevisível. Com o afeto e o conhecimento uns dos outros, mas disponíveis para acolher novos irmãos, que queiram caminhar connosco, ou simplesmente beber, de passagem, desta fonte. Aqui estamos para marcar, pela hospitalidade, pela inclusão e pela ternura, a diferença de um viver e ser eclesial possíveis. Que ninguém de nós fique indiferente a quem nos visita ou por aqui passa; mas faça sempre as honras da casa em nome do evangelho: Vinde benditos(as) de meu Pai e aqui encontrareis alívio e consolo para as vossas vidas. Queremo-nos cumprir como uma comunidade que sabe acolher e incluir cada pessoa em sua singularidade e percurso de vida.

Continuamos a leitura fracionada do evangelho de Lucas. A litúrgica apresenta hoje, por inteiro, essa exclusividade de Lucas que é o capítulo XV. Um evangelho dentro do próprio evangelho, a marca da originalidade de Lucas, porque ele é o evangelista da misericórdia, da ternura incondicional do Pai. Como nenhum outro evangelista, Lucas narra o «fraquinho» de Jesus pelos pecadores, por aqueles que sabem que precisam de médico e têm consciência das próprias feridas. Disso é expressão as três parábolas de hoje (a do louco e insensato pastor à procura de uma ovelha, a da mulher varredora de casa procurando uma moeda perdida, a de uma família disfuncional mas em processo de reconciliação, aquele pai com os seus dois filhos, tão opostos, tão contraditórios…).

Jesus frequenta a mesa dos pecadores e dos publicanos, aqueles que o típico judeu piedoso só podia excluir do seu convívio e da sua relação. Jesus, expondo-se à contestação, partilha o destino de exclusão dos pecadores. Por estes é procurado e ouvido: «os publicanos e pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para o ouvirem». Porque a sua palavra dá vida, salva, perdoa, cura, renova, recupera… Por isso o modo de Jesus se relacionar provoca escândalo, cria contestação.

Nestas parábolas está contida a novidade de Jesus: não há situação de desgraça humana que não possa ter salvação, não há situação de morte que não possa voltar à vida, não há perda que não possa dar lugar ao encontro e à recuperação. E tudo como acontecimentos de intensa alegria entre o céu e a terra, de uma alegria comunicante e contagiante que se partilha com vizinhos e amigos. É a alegria do arrependimento, a promessa de um recomeço, a possibilidade de uma vida que volta a ser feliz depois de ter caído no fundo, de ter atravessado o abismo da perda, da perdição. Ser reencontrado(a), liberto(a) dos perigos de morte, voltar a casa, ser abraçado(a) é festa contagiante.

Sublinhamos o pormenor do texto: Jesus dirige-se, diretamente, àqueles que o contestam e criticam, provocando-os: «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar?» Talvez a primeira reação dos ouvintes tivesse sido esta: esse pastor é um louco. Por causa de uma ovelha põe em risco um rebanho inteiro. Ninguém, com sensatez e responsabilidade, se atreve a tanto. Mas o evangelho não vai pela racionalidade nem pelo óbvio. Vai pelo excesso, pela loucura do amor, pela intensidade de uma procura que não quer perder nada nem ninguém. Entre proteger os de dentro (o rebanho) e perder uma ovelha, e colocar em perigo o rebanho mas não perder nenhuma ovelha, o insólito pastor da parábola opta pela segunda. Porque o seu amor não suporta nenhuma perda.

Podemos imaginar os perigos por que passou a ovelha que se perdeu, exposta às feras, enleada e presa em silvas, perdida de sede na noite do deserto, caída nalgum precipício ou caverna… Como podemos imaginar também os perigos e o esforço por que passou o pastor, a sua angustia de não encontrar, o seu desânimo, a tentação de desistir da procura, o remorso por ter deixado o rebanho exposto ao perigo. Aquele coração vai inquieto, divido, mas não desiste até encontrar. Porque vai movido por um amor que quer recuperar o perdido. Mas Lucas foca-se apenas na alegria contagiante e comunicativa do encontro; é esse final feliz que ele quer narrar: «Alegrai-vos comigo porque, encontrei a minha ovelha perdida». «Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento».

Não posso silenciar a parábola da dona de casa que procura a sua dracma perdida. A narrativa sugere-nos que Jesus não passou indiferente ao viver e ao trabalho femininos. Importa dizer que as casas rurais da Palestina eram feitas de pedra e barro a unir as pedras, de lajes no solo, com muitas frestas entre elas. Esta mulher não desiste; pacientemente, «acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar». A nota curiosa de Lucas é, através da parábola, nos sugerir um Deus feito dona de casa, a varrer no meio do pó. Pastor que procura a ovelha, mulher a varrer o pó à procura da dracma, pai a reconciliar os filhos: rostos humanos do Deus que vem ao encontro da nossa pobreza, que vem recuperar o que está perdido. Porque, para Deus não há casos perdidos.

Outra dimensão presente no evangelho de hoje é a forte admonição aos de dentro, aos do rebanho constituído, à dinâmica identitária e protecionista de todos os grupos, de todas as comunidades cristãs. A comunidade corre sempre o risco de se proteger dos perigos exteriores, de fechar-se em si mesma. Vivemos hoje tempos de construções e recuperações ferozes de identidades nacionalistas e religiosas. Precisamos de vigiar constantemente o perigo identitário, para que pastores e comunidades não ignorem os perigos a que estão sujeitos tantos irmãos nossos em humanidade e que estão fora das nossas comunidades, que não são dos nossos, ou simplesmente se perderam nos labirintos da vida.

Inspirados nas palavras de S. Paulo, cada um de nós possa reconhecer: É o Senhor que me julga digno de confiança. Também eu necessito, continuamente, de misericórdia. Por isso «dou graças Àquele que me deu força, Jesus Cristo, Nosso Senhor».

Pe. António Martins, Domingo XXIV do Tempo Comum

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