Chegou a hora da cruz, chegou a hora da verdade: Aquela hora que Jesus anunciava, e que ainda não chegara, a hora da sua entrega de Filho que se abandona nas mãos do Pai; a hora do seu amor levado até ao fim, até ao total esvaziamento de si.

«Está tudo consumado», grita o Crucificado: o que havia de ser feito foi feito; a missão foi levada até ao fim; o cálice foi bebido até à última gota. Tudo está consumado; tudo é posto a nu; todas as profundas intenções humanas são descobertas; a violência oculta nos corações não é mais disfarçada; os inimigos (judeus e romanos) tornam-se aliados para eliminar a vítima inocente, numa conjugação oportunista de interesses. Esta é a hora apocalítica (da revelação) dos corações: ninguém se pode esconder mais; acabam os disfarces e as máscaras; nenhum traço de hipocrisia ou de indiferença permanece oculto.

Esta é também a hora em que se coloca a cada um de nós a questão: «A quem procurais?» Como procuramos Cristo, com que intenções, com que desejos profundos? Que razões temos ainda para seguir um Crucificado, desnudado e abandonado, exposto e consumado pela violência organizada, sem dignidade nem reconhecimento?… Se procuramos um Cristo triunfalista, a legitimar as nossas pretensões de domínio, de afirmação, de prestígio, encontramos um rosto desfigurado, um homem rejeitado, a quem repugna olhar. Um homem que perdeu, na profecia de Isaías, a aparência de um ser humano.

A cruz será sempre o rosto desfigurado de uma Igreja que, seguindo Cristo, passa pela humilhação, pela rejeição, pela acusação. A cruz é o ícone provocador de uma Igreja que só se pode cumprir fiel a Cristo no despojamento e na pobreza. Capaz, nas mais duras horas da prova, de testemunhar uma fidelidade resistente e uma esperança contra toda a esperança. Também como Cristo, os seus discípulos precisam de ser expostos na praça pública, para, com Ele e somente por Ele, serem revestidos de perdão e de misericórdia, capacitados com aquela força que só pode vir do alto.

É na hora da cruz que se mede e se julga o contraste abissal entre a fidelidade filial e fraterna de Cristo e a inconsistência e traição dos seus discípulos. Assinalamos o contraste entre o «Sou eu» de Cristo, a afirmação da verdade do seu ser (divino) e da sua origem (o Pai), a força interior de uma vida unificada entre ser e agir, e por isso inteira verdade, túnica sem costura, e as contradições e mentiras de Pedro, a salvar a vida, fugindo ao compromisso, ao testemunho, à confissão da sua pertença: «Não sou»: não sou seu discípulo nem seu seguidor. Por um lado, a afirmação de Cristo e, por outro, a negação de Pedro: Perdoa-nos, Senhor, uma vez mais e sempre, as traições à nossa verdade mais profunda, ao teu amor incondicional, o amor que nos faz ser nós mesmos.

Na hora da cruz iluminam-se, paradoxalmente, todas as horas da humanidade, as dores tão pessoais e únicas que cada um de nós experimenta, por vezes numa profunda solidão. A hora da cruz revela a crueldade do sofrimento, a violência organizada das instituições e dos poderes, a ferocidade das multidões manipuladas, a brutalidade de que um ser humano é capaz de infligir a outro ser humano. Na narrativa do evangelho de João: tanta gente armada, a agredir, a manietar, a manipular, acusar, a violentar…; tanta espada desembainhada, tanta raiva em explosão. A cruz revela a brutalidade do humano, a sua mais profunda e violenta desumanização. Cristo é vítima inocente de toda a violência do mundo; é o rosto de cada excluído da história, de cada homem e mulher rejeitados em sua identidade, daqueles que foram silenciados para que triunfassem os mais fortes.

Mas é também a hora em que na dor brota a mais profunda compaixão; em que no meio do absurdo de todos os projetos desfeitos, é possível encontrar uma pacificação, escolher a bondade e a ternura, estender uma mão que ampara e consola, uma toalha que limpa … José de Arimateia, discípulo oculto com medo dos judeus, revela-se agora, e pede a Pilatos o corpo de Jesus para lhe dar sepultura. Também Nicodemos aparece em plena luz, ele que se tinha aproximado de Jesus durante a noite, para não ser visto nem reconhecido. Prepara-lhe agora a sepultura uma cara mistura de mirra, num excesso de generosidade sem preço.

Podemos ler também a hora da cruz como a hora da revelação do masculino e do feminino. Há uma masculinidade, brutalmente viril, presente nos militares, nos governantes e nos sacerdotes, até na força de Pedro (tira a espada da bainha pronto para a violência): os protagonistas da violência são todos homens armados. Homens com poder, mas homens hesitantes; homens com armas mas homens ambíguos. E no meio de um grupo de mulheres com nome e identidade (Maria, mãe de Jesus, Maria mãe de Tiago e Maria Madalena), estranhamente, está um homem, que não está do lado do poder, nem das armas, nem da violência.

Este jovem junto à cruz, entre três mulheres, é a figura do discípulo fiel (o discípulo amado). É a este homem, aparentemente tão pouco viril, que Jesus confia, como herança, sua Mãe: «Filho eis a tua mãe». O discípulo amado, José da Arimateia, Nicodemos assinalam a capacidade de ternura masculina, a coragem que vence o medo, a fidelidade no meio da provação, a grandeza dos pequenos gestos, a dignidade de uma presença fiel. Eles são, na narrativa de João, os autênticos homens viris, de coração desarmado, densos de humanidade.

A hora da cruz é, paradoxalmente, a hora da mais profunda humanidade de um ser humano. A revelação das entranhas de compaixão. A violência e a brutalidade da dor não têm de ser a vitória do humano. A história humana não é uma trágica fatalidade, sem saída; é um drama de amor divino, uma redenção do humano a partir do seu (do nosso) mais profundo inferno: «pelas suas chagas fomos curados».

Pe. António Martins, Sexta-feira Santa – Celebração da Paixão do Senhor

PAUSA ESTIVAL

A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 15 de setembro.

You have Successfully Subscribed!