A Quaresma convida-nos a fazer uma viagem por dentro de nós mesmos, a atravessar os nossos desertos, os nossos jardins, a arrumar a casa dos nossos afetos, a raiz dos nossos desejos, a reordenar o rumo da nossa vida e a qualidade das nossas relações. Fazemos essa viagem guiados pelo evangelho que é Cristo, Ele próprio em seu «êxodo», em sua travessia/passagem pela morte para a glória da ressurreição e da plenitude da vida. Se no domingo passados interpretávamos a nossa vida permanentemente sujeita a escolhas sedutoras, tentadoras, hoje somos convidados a transfigurar, com Cristo, as nossas crises de viagem, de crescimento, de fé, de relações. É num contexto de crise, de medo, de incerteza e de perigo, que Jesus revela a três dos seus discípulos a sua mais profunda intimidade/identidade, a de ser Filho, permanentemente em sintonia/oração com o Pai.

Pedro acaba de reconhecer que Jesus é «o Cristo de Deus», o Ungido, o Messias enviado. Quanta esperança e quanta ambiguidade neste reconhecimento. Jesus acautela os discípulos para o equívoco de um messianismo compreendido em jeito de triunfo político, revolucionário, justiceiro, de um Deus que se afirma pela força. Prepara os discípulos para a sua futura páscoa e a passagem pelo sofrimento da cruz: «É necessário que o Filho do homem sofra muito, seja rejeitado…, seja morto e ressuscite ao terceiro dia». Convoca-os para um modo de agir que passa pelo dom de si mesmo, pelo serviço, pela vida que se ganha consentindo perde-la, numa lógica profundamente em desencontro com as tendências dominantes do poder, do prestígio, da eficácia, do ganho sempre garantido. E essas eram/são as tentações a que esteve (estamos) exposto(s).

Jesus desconcerta as expetativas dos discípulos, desarruma-os, vira-os do avesso: um messias assim não lhe passava pela cabeça; era, para eles, uma violência, uma impossibilidade mental e teológica: o Cristo de Deus só poderia vir pela força, trazendo uma libertação do domínio político romano. Essa era a profunda expetativa de um povo inteiro, da qual eles comungavam. Por isso Jesus desconcerta-os. Podemos imaginar que entram numa profunda crise. Atravessam a insegurança, a ameaça, o risco, o perigo. É neste contexto que vemos Jesus tranquilizar e consolar os discípulos, ou ao menos o núcleo duro, os mais próximos: Pedro, Tiago e João. Faz com eles uma viagem. Sobem a um monte, e aí Jesus expõe-se em oração ao Pai. Essa viagem, com Cristo, é uma antecipação da páscoa, uma profecia da ressurreição para o presente do nosso tempo presente, quando marcado pela crise e pela incerteza.

A oração é esse lugar onde somos transfigurados pelo Espírito, onde se vive, no discreto do quotidiano dos nossos dias, a morte e ressurreição, a passagem da desolação à consolação, da revolta à aceitação, do medo à confiança. Na oração somos ressuscitados, transfigurados, pelo Pai que nos consola, nos acolhe pelo abraço do Espírito. Diz-nos Lucas: «Enquanto orava, alterou-se o aspeto do seu rosto, e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente». Em oração Jesus revela a sua profunda identidade de Filho, aquela eterna comunhão de vida e de amor que o funda e lhe dá ser. A oração é essa ligação permanente de Jesus ao Pai, à fonte da sua identidade de Filho, a razão do seu ser e do seu agir. A alteração do rosto é uma forma simbólica, visual, estética, colorida, para assinalar a presença ativa do amor de Deus em nossas vidas, e como somos, positivamente, alterados, quando procuramos sintonizar a nossa vida (o nosso sentir e o nosso agir) com o apelo que nos funda, a vocação profunda que nos habita, o desejo de Deus que grita no mais profundo do nosso ser.

A Quaresma exercita-se como um tempo de oração. Esta deve ser percebida e vivida, não tanto como um recitar de fórmulas, mas mais como silêncio hospitaleiro, repousante, do gemido de Deus nas profundezas da nossa consciência e do nosso sentir. Somos convidados a organizar em nossas vidas um tempo/horário habitual (quotidiano) para, no silêncio, esperar Deus, numa passividade recetiva e expectante, onde nada fazemos mas consentimos fazer, onde somos escuta e não dizer. Consintamos, positivamente, ser alterados na presença de Deus pela oração.

Em oração, Jesus entra em comunicação com Moisés e Elias, atravessa o tempo, é eterno presente, e todos os crentes de todos os tempos lhe são contemporâneos. Passado e futuro coincidem no presente orante: a oração é comunhão que atravessa o tempo e o espaço. Mas Moisés e Elias são as representações do AT, da Lei e dos Profetas, com quem Jesus dialoga, porque é Ele é a Palavra viva, o cumprimento das Escrituras. O êxodo, a páscoa de Cristo, a sua morte, são vistas a partir da glória de Deus, da intensidade do seu amor e da sua beleza. Com Cristo, pela sua Palavra, atravessamos toda a Escritura; Ele é o critério de leitura, Ele é o nosso interprete, o nosso mestre, como o fez com os discípulos de Emaús. Em Lucas, Jesus apresenta-se ressuscitado com intérprete das Escrituras, como profecia cumprida.

«Despertando, viram a sua glória». Em Lucas, nos momentos mais importantes e intensos da vida de Jesus, os discípulos são vencidos pelo sono, e ficam ausentes dos acontecimentos, como que alienados. Isso volta a acontecer na agonia do Calvário. Jesus em oração, suando sangue, pedindo várias vezes companhia, e os discípulos rendidos ao sono. O seu sono é bem o símbolo da nossa fragilidade, do peso do cansaço, da angústia, de uma inconsciente fuga aos desafios do presente. Quando acordam a intensidade do diálogo de Jesus com Moisés e Elias já passou; apanham o final do acontecimento, como tantas vezes acontece em nossas vidas. Apanhamos restos: restos de vida, de notícias, de vivências, de oportunidades, de momentos profundos. Chegamos atrasados, vencidos pelo nosso sono. Mas chegamos ainda, e isso é a beleza do texto. Alguma coisa se vive ainda, se apanha, se vê, se presencia. Há a graça de um resto que se nos oferece. Essa é a beleza de Lucas: a graça de Deus nunca nos falta, mesmo que seja de passagem, à última da hora, como o bom ladrão.

Aquele resto de beleza, de intensidade fugidia ainda apanhada, de presença que se ausenta, Pedro quere-a agarrar, fazer dela um estado permanente de vida. «Mestre, como é bom/belo estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer». Pedro e nós todos, não sabemos o que estamos a dizer. Mas estamos no direito de intuir a beleza, a bondade, a inteireza, a santidade como o definitivo e o pleno da vida. E nisso estamos certos.

O desejo de Pedro é autêntico na origem mas equívoco na concretização. Porque a vida é passagem, é viagem, itinerância e trânsito, é êxodo, e por isso não nos é possível parar e permanecer na intensidade dos momentos belos, de inteireza sentida, de presença de Deus vislumbrada, de pacificação experimentada. Isso são traços de eternidade na continuidade do tempo que passa, no trânsito da vida, em que nada é fixo, permanente e definitivo. Todos os momentos de transfiguração são graças, a acolher com gratidão, que nos ajudam a atravessar o nosso tempo de deserto, de crise, de aridez. São profecias da nossa páscoa definitiva no entretanto da vida, marcado pela sombra, pela ausência, pela solidão, pelo risco da liberdade que elege e escolhe, pela invenção do quotidiano.

No meio das nuvens, apela-nos a voz do Pai: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O”». Escuta, atenção à presença, hospitalidade do silêncio, jejum da palavra que ordena, comanda, organiza. Tempo para ouvir, de dentro, outras vozes que nos chamam a ser. Por aí também se viaja em tempo de Quaresma.

Pe. António Martins, II Domingo da Quaresma

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