Queridos Irmãos e Irmãs

Avançamos hoje recordando o que Jesus disse no evangelho do domingo passado: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados». É com esta palavra que nos medimos. Ela é o nosso juízo. O modo de Deus ser para nós, misericordioso, há de imprimir a forma do nosso ser, do nosso pensar e do nosso agir. Há de tomar corpo em nós e marcar a novidade do estilo da vida cristã, dessa ousada diferença, como fermento no mundo. E, reconheçamos com profunda humildade, frequentemente somos carrascos uns dos outros, marcados por prejuízos e por julgamentos ferozes, mesmo condenatórios, pelo simples facto de não agirem e pensarem segundo os nossos critérios.

Aprofundemos o evangelho de hoje, que concretiza um pouco mais o que ouvidos no domingo passado. Somos chamados, continuamente, a nos vermos e a nos julgarmos em profundidade. Aliás, é sobre nós e de nós que devemos ser severos juízos, para descermos à nossa pobre verdade humilde, conhecermos os nossos limites, as nossas vulnerabilidades, os nossos defeitos que tanta dificuldade temos em aceitar. Os julgamentos que fazemos dos outros mais não são do que a projeção de nós mesmos: acusamos nos outros dimensões que em nós temos dificuldade em aceitar, que não queremos ver. «Porque vês o argueiro [a palhinha] que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?».

Jesus, no evangelho de Lucas, convida-nos a não julgar, ou a julgar sobretudo a si mesmo, esse ver a própria trave (bem grande e bem visível) que transportamos nossos nossos olhos. Condenamos e julgamos os irmãos, e isso frequentemente acontece nas nossas relações de amigos, em família, com os colegas de trabalhos, com os irmãos da própria comunidade cristã: estamos prontos a acusar, a apontar, a denunciar, e não nos olhamos na nossa verdade, na nossa humanidade também defeituosa, deficitária, imperfeita e limitada. Essa pobre humanidade é a nossa verdade mais profunda, e também a fonte de compaixão para com os irmãos.

«Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás bem para tirar o argueiro da vista do teu irmão». A hipocrisia, a falsidade, ou essa máscara de santidade que podemos pôr, protegidos por uma prática religiosa rígida, formal, certinha, esconde, muitas vezes, tanta falsidade, tanta incapacidade de se reencontrar com a própria verdade, humilde e pobre. O Papa Francisco tem continuamente denunciado essa rigidez, tão típica dos intransigentes. E para não se confrontarem consigo mesmos acusam e excluem os outros. Não estaremos todos a pagar um alto preço por um falso e hipócrita moralismo, fácil em denunciar os pecados dos outros e a encobrir os próprios?… Somos todos pecadores solidários uns dos outros numa pobre e frágil humanidade que precisa de compaixão e de misericórdia.

Ver a própria trave, ver-se na sua pobre verdade, conhecer-se em sua miséria, para, assim, poder acolher a misericórdia de Deus e ser misericordioso com o seu irmão em humanidade, em dificuldade, com limites, defeitos e incapacidades. A pior cegueira é a daquele que vendo recusa ver os próprios limites, o próprio pecado, a própria miséria, e coloca máscaras, camuflagem, aponta baterias aos outros e faz julgamentos ferozes, assassinos da sua dignidade. E assim vai adiando o seu caminho de cura e de libertação, pois é a verdade que nos torna livres. Ver-se a si mesmo na pobre verdade dos seus limites, para não jugar nem condenar, mas para se colocar em permanente estado de discernimento, de exame de consciência e de autocrítica.

Somos a densidade dos nossos gestos e das nossas palavras; eles revelam-nos, expõem a nossa nudez, dizem a bondade ou a maldade que nos habita, o nosso sentir profundo. Tudo brota, pois, dessa fonte interior de motivação que é o coração. Como nos diz o Livro de Ben Sirá, na primeira leitura: «O fruto da árvore manifesta a qualidade do campo: assim as palavras do homem revelam os seus sentimentos». Ver a própria trave é acolher o próprio sentir, a densidade contraditória dos sentimentos e das emoções, também em sua negatividade, em sua violência por vezes não verbalizada. Perceber o que dizem de nós mesmos no momento atual, qual é a verdade sobre nós que anunciam. O caminho do evangelho, que Jesus nos apresenta, é sempre de regresso à nossa verdade interior, mais profunda, ainda que difícil, ainda que dolorosa, ainda que profundamente sombria. «O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, da sua maldade tira o mal; pois a boca fala do que transborda do coração».

Perguntemo-nos, pois: Que abundância interior nos habita? Que emoções e sentimentos levedam no tesouro do nosso coração?

Pe. António Martins, Domingo VIII do Tempo Comum

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