Avançamos no tempo comum guiados, neste ano, pelo evangelho de Lucas. Este autor vai sendo, domingo após domingo, o nosso mestre. Através do seu modo de narrar os acontecimentos da vida de Jesus, vamos nós também construindo, e renovando, a nossa identidade cristã. Lucas ensina-nos também a ser uma comunidade celebrante, que encontra na leitura e na escuta da Palavra a sua identidade comum.

Admiramos o rigor de Lucas, o modo metódico e ordenado como nos narra os factos da vida de Jesus. Escreve de forma sistemática, após ter investigado, analisado e interpretado «cuidadosamente», ou seja, com critério. A sua escrita tem um destino comunitário. É para fazer crescer, maturar e aprofundar a nossa amizade com Deus que Lucas escreve: «para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado». «Teófilo» quer dizer «amigo de Deus»; era um nome próprio muito comum no tempo. Poderia ter sido uma pessoa concreta. Mas Lucas está a escrever também para cada um de nós e a tratar-nos como «amigos de Deus». A frequência da Escritura é o lugar onde experimentamos e praticamos, no quotidiano da vida, a nossa amizade com Deus.

Lucas narra hoje uma ida de Jesus à sinagoga de Nazaré onde viveu. Encontramos uma comunidade crente judia, centrada na leitura, na escuta e na interpretação da Palavra. Entramos, como que em direto, na própria dinâmica celebrativa da comunidade: o leitor levanta-se, abre o livro, lê, os olhos dos ouvintes esperam a sua homilia/o seu comentário. Tudo isto nada tem de excecional: é a vida normal de uma comunidade celebrativa judia que dava aos visitantes, aos hóspedes, a honra de ler e comentar uma passagem da Escritura. E isto reenvia para a primeira leitura do Livro de Neemias. Aparece o levita Esdras que lê em público, durante uma manhã inteira, o Livro da Lei. O povo maravilha-se, emociona-se; a Palavra escutada suscita lágrimas. Pela voz de cada leitor, ainda hoje, a Palavra de Deus torna-se audível e visível.

Jesus é um leitor que proclama, na sua comunidade de origem, palavra do profeta Isaías: «Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura». Mas além de leitor é também um interprete. Como bom judeu, Jesus revela-se aqui como um crente familiarizado com a Palavra. Mas a nota de originalidade de Jesus é a apropriação pessoal, a interiorização da Palavra. Todos esperavam dele um comentário. Jesus cumpre a formalidade mas inova, acrescenta a sua experiência pessoal. Aquelas palavras lidas, Ele aplica-as a si. Interpreta-se nelas; melhor, através delas apresenta-se e cumpre-se como Messias: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Aquela passagem de Isaías é o seu programa, a expressão da sua missão de Messias e de Filho ao serviço do Homem. Jesus é a encarnação, o cumprimento das Escrituras.
«Hoje» é sempre a hora oportuna para escutar a Palavra de Deus: «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor…» (Sl 95,7-8). O hoje do momento da escuta é o momento da adesão ou da rejeição, do encontro ou da recusa. No momento da escuta decide-se o sentido e a radicalidade do nosso encontro com Cristo. No instante do momento concreto, Deus chama-me, dirige-me uma palavra pessoalíssima, concreta, direta. No hoje da escuta recomeça, continuamente, a vida cristã, renova-se a fé. Somos uma comunidade reunida à volta da Palavra, e isso a tradição cristã herdou da tradição judaica.

Lemos de novo a passagem, também nós para nos mais apropriarmos dela: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos». Cristo coloca-se ao serviço de Adão, de cada um de nós, em nossos limites, feridas, incapacidades, opressões, carências de liberdade, de força de viver. A missão de Jesus, como Ungido de Deus (Messias) é dar vida, libertar, curar, encorajar, consolar a humanidade ferida que somos nós.

Queremos ser uma comunidade que faz corpo com as limitações e as fragilidades de cada um, que se constrói com a humanidade própria de cada um de nós. S. Paulo, na segunda leitura, oferece-nos a metáfora tão realista da comunidade como corpo (corpo comunitário que integra as diferentes identidades corpóreas em sua profunda vulnerabilidade). Algumas vulnerabilidades nossas estão visivelmente expostas, sem disfarces; outras transportamo-las no silêncio da nossa interioridade, quais feridas permanente a proteger. Todos constituímos um só e único corpo de Cristo, com a diversidade e a singularidade própria das nossas existências pessoais, que não têm de ser normalizadas e padronizadas. A nossa identidade comum é a humanidade de Cristo, a sua carne em união/relação com a carne de cada um de nós Paulo é ousado. Diz que a comunidade de Corinto, cheia de tensões e de contradições, é corpo de Cristo e que os cristãos devem viver unidos uns aos outros: «Vós sois corpo de Cristo». Paulo ajuda-nos a perceber que cada pessoa tem o seu valor, tem o seu carisma, tem o seu lugar numa comunidade. Todos são chamados a colaborar para o bem de todos, cada um na sua missão própria, com a sua história de vida, sensibilidade, capacidades e até com as suas fragilidades. As nossas vulnerabilidades também têm um destino comunitário.

Para quebrar o nosso orgulho e as nossas pretensões, diz-nos Paulo: «os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários». A importância não está em quem sabe mais; a importância deve estar em que é mais vulnerável. Na vida empresarial e na vida universitária são os fortes que triunfam. As comunidades cristãs têm a missão profética de ser lugares de alternativa, de diferença, em que os mais frágeis estão no centro, são os mais importantes. É um desafio permanentemente a renovar, pois nunca está adquirido. Que as nossas comunidades cristãs, e a nossa comunidade do Rato, possam ser lugares de integração das fragilidades, com amor e respeito. Na fragilidade de cada história de vida há uma bênção, uma presença da misericórdia de Deus.

Que o Senhor nos ajude a formarmos este corpo que é a Igreja, a comunidade cristã, com as fragilidades de todos nós, que são também riquezas de uns para os outros.

Pe. António Martins, Domingo III do Tempo Comum

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