Minhas queridas Irmãs

Meus queridos Irmãos

A solenidade de Cristo-Rei foi instituída quando surgiam as ideologias ateias marxistas e fascistas querendo impor uma ordem contrária ao cristianismo. Na origem da solenidade de Cristo Rei havia uma nota de saudosismo de cristandade, de espírito de cruzada, de reconquista cristã, de recuperação de um império cristão. Esta dimensão saudosista continua presente ainda hoje num certo catolicismo integrista, em permanente luta contra o mundo e o evoluir da história, criando sempre inimigos a combater.

Os textos evangélicos da paixão oferecem o critério para interpretar o sentido desta festa: o Rei é um Crucificado; Jesus é proclamado rei no trono anti-realeza, anti-triunfo, anti-glória da cruz. O seu reino não é deste mundo, à maneira da lógica dos reinos da terra, expressão de poder, de força, de fausto, de conquista… É da ordem do silêncio, do despojamento, como a semente que cresce no interior da terra, ou como fermento que leveda a massa. O reinado de Cristo é de crescimento silencioso no íntimo dos corações e das consciências, criando relações pacificadas e reconciliadas. A sua conquista é através da sedução do amor.

O evangelho de João coloca frente-a-frente Pilatos, a expressão do poder organizado em estruturas opressoras políticas e militares, e Jesus, indefeso, exposto em toda a sua vulnerabilidade. Instituído em toda a autoridade como representante do Imperador, Pilatos é senhor do destino de vida ou de morte de Jesus. Frente-a-frente estão o poder e o anti-poder, a força e a vulnerabilidade, a violência organizada e a vítima silenciosa, um militar com os seus exércitos e um homem desarmado e manietado. Na audácia de S. João, Jesus é apresentado como rei ridicularizado, no grotesco de uma paródica, como se tratasse de uma farsa e de uma falsificação. Quem pode acreditar num rei assim tão vulnerável e indefeso, exposto ao ridículo?… Mas este que é humilhado, parodiado e escarnecido é acreditado como «o príncipe dos reis da terra», na linguagem subversiva do Apocalipse. Na suprema humilhação da Cruz, aí, precisamente aí nesse total despojamento, Cristo é exaltado, glorificado, reconhecido e acreditado como rei: «É como dizes: sou rei».

Proclamando Cristo crucificado rei, S. João apresenta-o como um rei ao contrário, como um rei que é a antítese dos reis e dos reinos deste mundo. A realeza de Cristo tem uma dimensão fraturante, é algo de desconstruído, virado do avesso, visto ao contrário. E isso é de uma tremenda e desconcertante audácia. A realeza e o reinado de Cristo, precisamente por não serem deste mundo, são portadores de uma tremenda e inesgotável profecia política. Todas as lógicas da força, da manipulação, de domínio sobre o outro indefeso, de conquista, de manipulação, estão aqui denunciadas. Na realeza do Crucificado, todas as vítimas da opressão de todos os impérios são glorificadas, resgatas do silêncio e do anonimato dos vencidos.  Perante as potências do mundo, o cristianismo nascente ousa despojar e relativizar o poder.

Podemos reforçar esta ideia com os textos da literatura apocalítica citados hoje. O livro de Daniel, cheio de visões e de imagens, foi escrito para consolar e encorajar os fiéis judeus num período de perseguição e de colonização forçada. No meio das vítimas da opressão caídas no solo pela espada dos senhores da guerra, proclama (vendo para além das nuvens) o profeta Daniel: «… sobre as nuvens do céu, veio alguém semelhante a um filho do homem»; «Foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram» (Dn). A última palavra não é a dos opressores, a do dos senhores da guerra, pertence a Deus: virá um rei a quem todas as nações hão-de servir. Ingenuidade e ilusão? Ou fermento de esperança e de resistência?…

No início das perseguições romanas aos cristãos surge o livro do Apocalipse, cheio visões e imagens fantasiosas, para fomentar em cada ouvinte/leitor a imaginação de uma resistência ativa: «Ei-l’O que vem entre as nuvens, e todos os olhos O verão, mesmo aqueles que O trespassaram». Os próprios agressores reconhecerão Cristo e a sua soberania. «Eu sou o Alfa e o Ómega», diz o Senhor Deus, «Aquele que é, que era e que há-de vir, o Senhor do Universo». Na linguagem também paradoxal do Apocalipse, o cordeiro imolado é o Senhor do universo. A vítima é o Senhor pela expansão da páscoa, da vida sem limites.

Celebrar hoje a Solenidade de Cristo Rei, é perguntarmo-nos: com que rei estamos? Em que reino queremos habitar? De quem queremos ser aliados: dos senhores da guerra, dos opressores, ou do Crucificado, das vítimas e dos indefesos? Na linguagem inaciana, qual bandeira queremos seguir? Porque, reconheçamos com verdade e humildade, seguir um indefeso não dá prestígio nem segurança. Coloca-nos nas margens, nas periferias, junto dos excluídos, ouvindo e acolhendo o seu grito. Bem sei, a começar por mim, que dentro de nós a fronteira entre um reino e outro nunca está definida. Por isso necessitamos, continuamente, de estar em alerta, em vigilância, em estado de discernimento.

Por isso rezamos continuamente, esperando e agindo nesse sentido: «Venha a nós o vosso reino». O seu reino é da ordem da espera, da procura, do fermento que se dilui, e não da conquista, do resultado quantificado, da organização e da eficácia asseguradas.

Pe. António Martins, Solenidade de Cristo Rei do Universo

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