Esta celebração ajuda-nos a purificar a memória através da oração. Rezamos hoje particularmente na Eucaristia, pela mediação de Cristo ressuscitado, porque É Ele quem nos liga aos nossos mortos. Não há mediação física possível, não há contacto corpóreo. Mas há uma espécie de árvore que une todas as folhas e que nos alimenta, a nós e a eles que já partiram, da mesma vida, da mesma comunhão, do mesmo espírito que é Jesus Cristo ressuscitado. É por isso que aqui estamos, que recordamos as pessoas que amamos, nos construíram, que nos edificaram, pela cultura, pelos afetos, pela fé, pelos dons que partilharam connosco, e o maior de todos foi a vida.

Honrar os nossos mortos é honrar as nossas origens. Não caímos do céu, não vimos do nada, não aparecemos por acaso. Temos uma origem que se chama: pais. E estes pais têm também uma origem que se chama pais e por aí fora. A vida é esta cadeia de gerações que chega a nós. Para sermos quem nós somos, há um ato de memória e de honra: agradecer quem nos deu a vida, e quem nos deu com a vida tanto. E agradecemo-lo em Jesus Cristo que é fonte da vida.

Sabemos todos que as nossas relações são feitas constantemente de provas. São feitas de abraços e de conflitos. E, por vezes, a vida cumpre-se, as pessoas partem e deixam zangas. Há um equívoco que não se esclareceu, há uma ferida que não foi curada, há uma injustiça que não foi redimida. Há tantas memórias feridas. A Eucaristia de hoje (dos Fiéis Defuntos) é também o momento para nos elevarmos e, como dizia no princípio, rezarmos pelos nossos mortos. Desejar-lhes bem, pedir a paz e desejar-lhes a paz. Pedir o que a Liturgia hoje diz: “Que descansem em paz, dai-lhes o eterno descanso.” O eterno descanso passa pelo dom de Deus mas passa também pelo nosso descanso, pela nossa harmonia, pela nossa memória purificada com as heranças que eles nos deixaram. E porventura, poderá ter sido alguma herança mais conflituosa, mais fria. A Liturgia deste dia tem esta dimensão terapêutica de nos ajudar a curar, através da oração, as memórias, por vezes feridas, dos nossos familiares defuntos.

Uma palavra final: nós da morte não sabemos nada. É o maior enigma da condição humana. Nunca ninguém veio do lado de lá, ao lado de cá, a dizer como é que tinha atravessado a morte. Sobre a passagem que é a morte somos totalmente ignorantes. Mas temos uma certeza, uma certeza de fé. Se a morte nos escandaliza, nos repugna e introduz na nossa vida uma violência, há uma certeza de fé: Há Alguém que atravessa connosco o abismo da morte, Jesus Cristo, o Vivente. Como dizia S. Paulo na segunda leitura: “Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido.” Não sabemos nem conseguimos dizer mais do que isto. Da morte e do que está para além da morte somos ignorantes. Mas temos uma esperança que se torna fé em cada dia: com Cristo morremos, com Cristo ressuscitamos. É por isso que os nossos mortos estão vivos, e porque estão vivos, nós estamos com eles.

Pe. António Martins, Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

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PAUSA ESTIVAL

A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 15 de setembro.

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