Queridos irmãs, queridos irmãos,

O verbo comer é um verbo que nos acompanha desde sempre. Tão antigo, tão necessário, tão presente, tão significativo na nossa vida.

Nós começamos a relação com o mundo pela nossa boca. Essa foi a primeira forma de comunicação, a primeira forma de inscrição neste mundo e também a primeira forma de amor, a primeira forma de compreensão de que há outra coisa, de que há uma sensibilidade que aprendemos – mas isso chegou-nos através da comida.

Pensemos no verbo comer (comer e dormir, dizem, para os bebés é a coisa mais importante, e para cada um de nós também foi) e a aprendizagem do que esse verbo significa ao longo de toda a nossa vida. Pensemos na quantidade de refeições que a nossa vida já experimentou, já viveu e como sem elas a nossa vida não seria, não seria igual, não existiria de todo. Porque há coisas importantes da vida, da vida material, da vida biológica, mas também da vida espiritual, da vida psicológica, da vida como projeto de existência que nos chegam, de facto, através deste verbo comer.

Comer não é apenas engolir coisas, comer é construir-se, comer é criar-se, comer é a capacidade de incorporar, a capacidade de ruminar e de digerir o mundo, comer é fazer uma nova síntese. Não é apenas juntar bocados de realidade externa que passam para o nosso mundo interno, é também um processo de combustão, um processo de transformação. Tudo isso nós tateamos de uma forma mais consciente ou mais inconsciente em torno ao verbo comer, que continua a ser um verbo decisivo, porque todos os dias nós comemos, e comemos de formas diferentes (comemos acompanhados e sozinhos, comemos em todas as horas). Mas comer tem uma coisa para nós humanos: mesmo quando nós o fazemos sozinhos é sempre um ato de relação, é sempre um ato social, se quisermos. Eu tenho uma amiga, a Adília Lopes, que diz: ”Eu como todos os dias sozinha na minha cozinha, mas quando eu como, eu lembro-me sempre que comer é um ato social e penso nos outros”. E, de facto, mesmo quando estamos sozinhos, a comida é um ato comunitário, porque supõe sempre no nosso horizonte o outro, desde o outro que ajudou a criar aquele alimento, aquilo que nos vai servir de comida, até ao outro com quem nós vamos estabelecendo o diálogo fundamental da nossa vida.

Por isso, o verbo comer é um verbo sagrado, é um verbo humaníssimo, é um verbo através do qual nos chegam tantas experiências, e não só experiências “gourmet”, não só experiências gastronómicas. Essas também, mas tantas outras experiências: de conhecimento, de autoconhecimento, de superação, de celebração, de mergulho profundo na vida… é um verbo completamente ordinário, completamente rotineiro e ao mesmo tempo é daqueles verbos que de facto moldam, constroem a vida.

Esta Festa do Corpo e do Sangue de Jesus é uma Festa ligada ao verbo comer que ilumina, talvez abrindo uma outra dimensão, um sentido para este verbo tão nosso, tão humano, tão das criaturas, tão comum.

Nós quando falamos da Páscoa dizemos “celebrar a Páscoa”, mas os judeus dizem “comer a Páscoa”. Porque a Páscoa é comida, porque a Páscoa é uma refeição, e de facto é preciso “comer a Páscoa”.

Nós dizemos “celebrar a Eucaristia“ mas também devíamos dizer “comer a Eucaristia”. E também dizemos: “vamos ouvir a Palavra” mas também devíamos dizer “comer a Palavra”. Porque é disso que se trata.

Nós somos uma comunidade que come, o que nós estamos aqui a fazer é nutrição, é alimentação. Nós viemos aqui para nos alimentarmos, não viemos aqui apenas para uma ritualidade que vai ficar no ar… não, isto tem de entrar dentro de nós, tem de ser incorporado por aquilo que somos. Jesus percebe claramente isso: “Onde é que queres que comamos a Páscoa?”. E Jesus indica o lugar: “Ide à cidade, virá ao vosso encontro um homem, ide atrás dele, e ele há de indicar-vos a sala onde vamos comer a Páscoa”. De maneira que Jesus aceita que o verbo comer é um verbo central, é o verbo da comunicação de qualquer coisa de essencial, de um processo do qual nós precisamos. E, de facto, a mesa abriu-se, eles prepararam o cordeiro, prepararam o pão, prepararam o copo com o vinho que vai passando na ceia judaica da Berachah, da bênção que eles partilham. Estava tudo preparado, mas quando Jesus parte o pão, Ele diz: “Este pão é o meu corpo. Tomai.” E quando Ele pega na taça com o vinho, Ele diz: “Este vinho é o meu sangue.”

Isto faz ou não sentido? O que é que Jesus quer dizer com estas palavras?

A nossa tradição católica quis muito levar à letra estas palavras. Tanto assim que muitas vezes o acento é colocado na materialidade da própria espécie: acreditar que o pão consagrado se torna mesmo o Corpo do Senhor, e por isso nós ajoelhamo-nos em adoração. Hoje pela cidade de Lisboa vamos transportar uma custódia com a Eucaristia e nós acreditamos que aquele pão é o Corpo do Senhor, e acreditamos que o vinho na consagração se transubstancia, isto é, passa a ser outra substância e em vez de vinho se torna Sangue.

Mas temos de entender o que é isto, não é apenas uma desmaterialização ou uma transubstanciação literal da matéria em si. É também um processo de ressignificação do ato de comer, porque se Jesus diz “Este pão não é só pão, é o meu corpo”, Jesus está a dizer até o óbvio, mas sabemos que o óbvio é o mais difícil de enxergar, é o mais difícil de aceitar. Jesus está a dizer o óbvio, e o óbvio é que o pão não é pão. Dizer que o pão é pão é uma coisa banal. Não, pão é vida partilhada, o pão é dádiva, o pão é dom, o pão é entrega que o outro faz, é o desejo que nós queremos que o outro viva. Por isso se inventou o pão. O pão inventou-se não apenas porque alguém estava esfomeado e encontrou alguma coisa para o seu problema, não! O pão foi inventado por alguém que queria que os outros vivessem, e então pensou: “não, é preciso inventar o pão”… porquê? Porque o alimento é o desejo que o outro viva, é o desejo que tu sejas, que tu existas, que tu possas subsistir e possas viver! E Jesus diz isto, não apenas do pão, não apenas dum alimento, mas Jesus diz isto do seu próprio Corpo.

A vida tem de ser dom, a vida tem de ser alimento. Nós temos de nos colocar numa oferta, num serviço à vida dos outros, para que eles possam existir. E o nosso vinho partilhado não é só sinal da festa, o nosso vinho é também o nosso sangue, isto é, é de facto a oferta radical de nós mesmos.

E é no fundo isso que Jesus faz, oferta de si, dizer: “Comam”. E dizer de forma reflexiva: “Comam a Vida que Eu sou. Devorem a Vida que Eu sou. Alimentem-se da Vida que Eu sou, incorporem a Vida que Eu sou, a Carne e o Sangue que Eu sou.” E diz isto de uma forma muito realista, falando de carne e falando de sangue…

Nós não estamos aqui a falar numa dimensão hiper-realista, mas estamos a falar do real mais vivo: sentados à volta desta mesa, de que é que nos alimentamos? Alimentamo-nos de Cristo, comemos Cristo – e não comemos um bocadinho de Cristo, nós estamos aqui para integrar Jesus na nossa vida. Para Lhe dizer: “Tu és o meu alimento, eu vivo de Ti, e és Tu que me trazes essa energia, essa força de que eu preciso para poder ser.”

Mas este exemplo, este testemunho que Cristo nos dá até ao fim dos tempos – e Ele quis que, de facto, a Sua memória fosse celebrada em torno a uma mesa e na repetição desta Sua última Ceia, destas suas palavras – é para que nós tenhamos a medida e o modelo da forma como habitamos o mundo e nos relacionamos uns com os outros.

Porque é assim, quando o bebé está no colo da mãe e está a mamar ele não está apenas a receber o leite maternal, ele está ligado ao peito da mãe e ao mesmo tempo tem os olhos no seu rosto ou fecha os olhos confiado e entrega-se, ele está a alimentar-se da mãe.

Como quando nós nos sentamos à mesa, não comemos só o que está ali materialmente, aquilo é tão pouco! Nós alimentamo-nos uns dos outros. E muitas vezes o alimento até é um pretexto, até é um símbolo, um sinal de alguma coisa muito mais profunda e muito mais decisiva que é a disponibilidade, a abertura que nós temos para nos tornarmos alimento uns para os outros, para fazermos da nossa vida dádiva…

No fundo, por isso é que nós não podemos viver sem a Eucaristia: a Eucaristia não é um momento mágico, não é magia sobrenatural, a Eucaristia é lição de vida, é ensinamento, a Eucaristia é aquilo que se passa na cozinha e na mesa, a Eucaristia é uma lição de nutrição. Porque a vida é isto e Jesus é muito claro.

A vida só se consuma quando ela aceita fazer-se dom, quando ela aceita gastar-se, quando ela aceita ser dádiva até ao fim, de forma tão incondicional que possamos segurar a nossa vida na mão e dizer: “Olha, a minha vida é tua. Tomai e comei! Alimenta-te disto! Alimenta-te do meu tempo, da minha energia, da minha sabedoria, da minha presença, dos meus bens, de tudo o que eu sou, alimenta-te, toma isto como alimento.”

 

É nesta antropofagia sacramental em que nos alimentamos verdadeiramente da vida uns dos outros que nós percebemos aquilo que Jesus faz connosco.

Quando eles acabam de comer, vão para o Monte das Oliveiras. Mas é esta Ceia que nos oferece a chave para interpretar aquilo que vai começar a acontecer no Monte das Oliveiras: a Paixão de Jesus e a morte de Jesus.

Queridos irmãs e irmãos, o Papa no final do Angelus diz sempre: “Buona Domenica e buon pranzo”. No almoço de Domingo ou no almoço dos dias especiais e no almoço dos dias não especiais, não podemos esquecer que na refeição se joga sempre o encontro, se joga sempre a dádiva mais profunda de nós próprios – e que é isto insistentemente que Jesus diz a cada um de nós.

Às vezes andamos à procura de uma solução mágica, uma coisa especial, uma mensagem do outro mundo e Jesus vem-nos dizer a mensagem mais simples, aquela que no fundo nós experimentamos desde o primeiro dia da nossa existência, isto é: faz da tua vida dom e vais alegrar-te por perceber que a vida se multiplica, que a vida não é passado mas é futuro, que a vida se torna o lugar fecundo da transformação, do encontro daquilo que nós julgamos impossível,  torna-se o lugar onde o Invisível se toca e se come.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade do Corpo de Deus

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