Queridos irmãs e irmãos,

Sabem o que mais me comove nesta página do Evangelho de S. Marcos? É esta pergunta de Jesus que o deixa como que suspenso, como que inexplicavelmente hesitante: “A que havemos de comparar o Reino de Deus, em que parábola o havemos de apresentar?”

É o misterioso amor de Deus manifestado em Jesus que o leva, de facto, a esta espécie de dúvida em relação a si próprio, em relação ao modo, ao processo como a Sua revelação há de acontecer. Ele quer adequar a palavra de Deus e o anúncio de Deus àquilo que nós podemos efetivamente perceber, acolher. Por isso, também S. Marcos diz: “Ele contava muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender.”

No fundo, Deus não quer dizer coisas que nós não consigamos tocar, perceber, mas há um desejo de adequação em relação àquelas que são as nossas possibilidades, àquela que é a nossa hora concreta neste momento da nossa vida. Jesus não deixa o discurso messiânico, o discurso salvador como alguma coisa abstrata que, quer entendamos ou não, corre na mesma. Não, há um esforço de se fazer ouvir.

E esta pergunta “Como compararemos o Reino de Deus, a que parábola o havemos de comparar?”, para mim é um sinal muito grande do amor de Deus e da ternura tão revelada no próprio Jesus.

Que cada um sinta, mas sinta verdadeiramente, que no seu coração Deus fala e Deus fala de uma forma que nós podemos entender. Deus fala de uma forma que nós podemos captar o sentido. Deus fala a nossa língua, Deus fala com a nossa gramática, Deus adequa-se àquelas imagens que nós podemos tornar nossas. E por isso a poética do Reino de Deus nos lábios de Jesus é tão aberta, é tão franca.

Jesus tem uma linguagem até que não é teológica e em certa medida nem é religiosa como processo. Porque Jesus conta a história deste agricultor que semeia a semente no escuro da terra, no silêncio da terra e depois tem de abandonar, tem de deitar-se e levantar-se e deixar passar o tempo para que a semente possa fazer o seu trabalho.  Para entender esta parábola, não é preciso sermos religiosos ou sermos cristãos…é uma parábola que fala do tempo, do dar tempo para que as coisas possam acontecer. E na nossa vida espiritual nós precisamos também de dar tempo, dar tempo…

O Oscar Wilde dizia: “Na vida de todos nós há um momento marcado, que é o encontro com a pessoa de Jesus”. Eu penso que na vida de cada um de nós que estamos aqui em comunidade esse momento ou já foi sentido, ou está a ser sentido, ou ainda estamos à procura de sentir esse momento, mas esse momento está marcado. Precisamos de dar tempo, dar tempo… não viver na ansiedade de quem vai atrás esgravatar a semente, ver se cresceu mais… não! Confiar! Abandonar!

Esta atitude, no fundo, de deixar a semente que Deus plantou crescer em nós é a atitude da própria fé. Como a outra parábola extraordinária de confiarmos na força da própria semente e não apenas nas nossas forças. Porque Deus surpreende-nos, Deus surpreende-nos! Às vezes pensamos: “Mas é tão pequeno, é tão frágil, é tão incerto o destino de uma semente na terra seca do meu coração. Como é que eu posso confiar, conhecendo-me a mim como mulher, como homem, que esta palavra poderá ser fecunda, poderá dar fruto?”

Deixa! Confia! Acredita! Porque no caminho da fé não é apenas com a nossa força que nós contamos, é com a força da eficácia do próprio dom de Deus. Aquilo que Deus acende em nós e no nosso coração tem sempre a natureza de um milagre, de alguma coisa flagrante, tem sempre o inesperado, o imprevisível. A fé não é o caminho que nós já percorremos tantas vezes da mesma maneira, é uma abertura, é um rasgão, eu não sei o que vai acontecer, eu não sei como é que se vai dar… mas eu sei que vai acontecer, e sei que se vai dar em mim.

Santo Agostinho, na linha dos Padres da Igreja, dizia uma coisa tremenda. Ele dizia: “Porque é absurdo, eu acredito”. Às vezes nós desistimos muito facilmente da vida, da nossa própria vida, porque achamos que já não vamos a tempo, que os anos passaram, que perdemos as oportunidades certas e que já não há lugar para nós, ou perdemos a esperança nos outros, desistimos! É muito fácil isto acontecer.

Ora, Deus não desiste, e na fé nós sabemos que mesmo aquilo que nos parece impossível, mesmo aquilo que não está no plano das probabilidades acontecer, também acontece, também se dá a ver.

Porque é absurdo, eu acredito!” A fé põe-nos à prova: nós, crentes, somos mulheres e homens expostos à prova da confiança, à prova de uma esperança maior que a própria esperança! E que muitas vezes contraria o horizonte da própria esperança… Mas é este fulgor, é esta intensidade que Deus quer colocar no coração de cada um de nós.

Tão extraordinárias as palavras do Profeta Ezequiel que hoje nós lemos – e são palavras tão consoladoras! Porque é o próprio Deus a dizer: “Eu próprio vou arrancar um ramo novo, e vou plantá-lo num monte muito alto e ele lançará ramos e dará frutos, e tornar-se-á um cedro majestoso.”

Nós às vezes só vemos o deserto, só vemos a aridez, só vemos a secura, só vemos aquilo que está a ir declinando, a ir perdendo o seu vigor… Acreditemos naquilo que Deus nos diz: Ele próprio, o Senhor, vai arrancar da nossa vida um ramo novo e vamos ser esse cedro verdejante. O Senhor vela pela fecundidade das nossas próprias vidas.

Por isso, a Palavra de hoje é uma palavra de confiança. E não necessariamente nas nossas forças, que são sempre frágeis. Eu acho que quando fazemos o diagnóstico da nossa vida, estamos a ver bem: somos frágeis, somos fracos, há tanta coisa por purificar, há tanta coisa que nos transcende… É verdade, não estamos numa ilusão, é verdade! É um diagnóstico realista das nossas possibilidades, mas a vida não é só isso e a nossa força não é só a nossa força. Não é só aquela que temos em nós. É a força que Deus deposita, é o fulgor das Suas sementes, é a intensidade da Sua palavra, é a novidade do Seu gesto, é o envolvimento concreto de Deus com cada um de nós que se torna depois o garante, a certeza, a grande razão da esperança…

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XI do Tempo Comum

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