Queridos irmãs e irmãos,

Estes dias tenho estado a ler os textos de um filósofo, Hobbes. É ao mesmo tempo terrível e evidente a marca que ele deixa no pensamento moderno, no pensamento contemporâneo. A ideia que ele tem da natureza é que a natureza é uma guerra generalizada de todos contra todos. Na sua autobiografia ele diz esta coisa intensa: “Quando eu nasci a minha mãe teve dois filhos, nasci eu e nasceu o medo.” Porque, para ele, aquilo que pode estruturar a sociedade, aquilo que nos pode orientar é o medo. E por isso, os Estados têm de ser Estados fortes, consolidados, em que o poder de nenhuma maneira pode ser posto em causa porque é o medo que nos governa, é o medo que protege a paz social. E isto ele desenvolve no famoso livro Leviatã, em que trata desta conceção de Estado.

É muito interessante porque, de certa forma, afastando-nos agora das teses do Hobbes. Se calhar também nós podemos dizer “quando eu nasci a minha mãe teve dois filhos, teve-me a mim e teve o medo.” Porque, quando pensamos em nós, nas categorias profundas da nossa vida, o medo é se calhar das coisas mais antigas, mais fortes, mais ambíguas que cada um de nós transporta. E mesmo na nossa relação com Deus o medo, infelizmente, acaba por estar tão presente. Nós que estamos aqui, porque é que estamos aqui? Eu não digo: de nenhuma maneira é por medo (se calhar mesmo numa visão pacificada, positiva, confiada com Deus). O fantasma do medo está lá sempre presente. Nós temos medo que Deus nos castigue, nós temos medo que isto não seja suficiente, nós temos medo de não estar a fazer as coisas bem. Nós temos medo, nós temos medo. E é tão importante nós ouvirmos a palavra de Jesus que nos diz: Não é o medo, é o Amor. “Eu sou o Bom Pastor, Aquele que vem falar do Amor, Aquele que vem revelar o Amor, Aquele que vem dizer: quando eu nasci a minha mãe teve dois filhos, teve-me a Mim e teve o Amor.”

Mas para isso tem de acontecer uma transformação na nossa vida, que não é de um momento para o outro, é o nosso caminho de vida cristã. Em lugar do medo e de pensar a nossa relação com Deus, a nossa relação com os outros, a nossa relação em sociedade, a nossa relação connosco próprios, em chave de medo, como tantas vezes nós pensamos, pensá-la em chave de Amor. Esta é a grande transformação que Jesus nos vem trazer. Ele hoje fala-nos do Amor e apresenta-nos como o Pastor Amoroso, Aquele que nos vem revelar o Amor de Deus.

As leituras todas nos explicitam detalhes sobre esta gramática do Amor que Jesus vem introduzir em nós. O primeiro é o discurso de S. Pedro em Jerusalém, quando Pedro diz: “Este homem e todos os homens são curados pelo nome de Jesus. Então, como é que nós podemos conhecer o Amor de Jesus? Podemos conhecer o Amor de Jesus porque ele nos cura. Ele não se conforma com o irremediável na nossa vida, a dizer: tu tens este defeito, tu tens esta imperfeição, isto não tem remédio. Não, para Jesus é sempre reversível a nossa vida, há sempre um remédio. Ele cura-nos, Ele transforma-nos, Ele é capaz de mudar o nosso feitio, o nosso temperamento. Porque a vida cristã é uma dinâmica também de cura, também terapêutica. Nós vemos nos Evangelhos tantos milagres, não é por acaso, é porque é nesse processo de transformação interior, de sanação interior que nós percebemos quem é Jesus, que nós tateamos o Seu Rosto. É na medida em que nós cristãos podemos dizer: eu mulher/eu homem fui curado, sou curado pelo Amor que Ele me dá, o Seu Amor cura as minhas feridas, transforma a dureza e a violência do meu coração, ensina-me a mansidão, ensina-me a paz, ensina-me o perdão. Ele cura-me, Ele transforma-me, Ele ensina-me. É na medida em que nós podemos dizer isso e dizer isto de uma forma objetiva, concreta, real que nós conhecemos o Amor de Deus.

Querido João Pedro, tu hoje vais receber os Sacramentos de iniciação cristã. O mais importante é sentires que Deus te ama. Aquilo que Simone Weil dizia: “O mais importante não é termos fé em Deus mas é descobrirmos que Deus tem fé em nós.” E podemos dizer: o mais importante não é o amor que temos a Deus mas é descobrirmos com todas as forças da nossa vida o Amor que Deus tem por nós. Descobre o Amor que Deus tem por ti! Esse Amor incessante, esse Amor inconformado, esse Amor constante, esse Amor fiel, esse Amor permanente. Esse Amor que nunca diz: está derrotado, está acabado. Esse Amor que acende debaixo da cinza a possibilidade de fogo, a possibilidade de vida. Aconteça o que acontecer, sente na tua vida que és amado por Deus e faz disso a tua verdade, o teu ponto de partida, o teu caminho.

Depois, a Epístola de S. João abre-nos outro entendimento do Amor que Jesus nos vem revelar. Ele diz: “Jesus vem dizer-nos que somos filhos porque nos permite ver a Deus tal como Ele é.” Em Jesus nós vemos a Deus tal como Ele é. E de facto, nós, cristãos, nunca vimos Deus. O Evangelho de S. João e a Epístola de S. João há de lembrar a Deus nunca ninguém viu. Nós nunca vimos Deus, aquilo que nós vimos de Deus é o que nós contemplamos em Jesus. Aquilo que Jesus nos revela de Deus é a nossa sabedoria de Deus.

Por isso, coloquemos, e João Pedro coloca o teu olhar em Jesus. Faz Dele o Mestre da tua vida, o Mestre de todas as horas, Aquele que te revela ao Pai, Aquele que te conduz a cada momento ao Pai e te dá esta certeza de que não é o medo o companheiro da nossa vida mas é a confiança, mas é o Amor e que isso seja a alavanca necessária a cada momento para nos levantarmos do peso das coisas e vivermos como ressuscitados.

E depois, no Evangelho, nesta página extraordinária escrita por S. João. Jesus diz uma coisa curiosa, Jesus diz: “Eu sou o Bom Pastor.” Podemos traduzir assim. O adjetivo kalós . “Eu sou o Bom Pastor.” Mas, o primeiro sentido de kalós, não é o bom, é o belo. Eu sou o Belo Pastor. E nós estamos aqui porque Jesus sacia a nossa fome de bondade, é verdade; porque Jesus sacia a nossa fome de verdade, é certo. Mas também porque Jesus sacia a nossa fome e sede de beleza. Nele nós saciamos a nossa ânsia de beleza, de uma beleza que nos salve, de uma transparência, de uma consistência, de uma harmonia que tantas vezes nós não encontramos na vida e ficamos esfomeados dessa beleza, desse sentido. Que não seja só isto, que não seja só o que os nossos olhos veem mas seja essa outra coisa que nos ilumine, que nos fascine, que nos arrebate, que nos assombre, que seja também o nosso êxtase. Porque a vida tem de ser também êxtase. A vida tem de nos espantar, tem de nos fazer abrir a boca, tem de nos assombrar. A vida não é só o fazer as coisas certas. Claro que isso é bom e importante mas nós precisamos de um assombro. Como na tua vida, João Pedro, quando descobriste a Catarina com quem te vais casar. Foi um momento de assombro, de espanto. Porque, é alguma coisa que não estava em ti e de repente encontraste. Isso abriu a vida, deu um sentido novo à vida e estás disposto a mudar tudo por causa dessa beleza que descobriste.

E isso é assim no amor e é assim numa fome e numa sede fundamentais que nós humanos carregamos na nossa vida. Porque nós somos poeira mas poeira enamorada, precisamos de nos enamorar de alguma coisa, precisamos que a vida seja esse êxtase. E Jesus é o Pastor dessa fome do nosso coração porque Ele é o Belo Pastor. É Aquele que nos dá um espanto perante as coisas, perante a realidade. Esse espanto que é a nossa oração de cada dia, que nos dá um sentido de outra coisa que alimenta aquela fome, aquela inquietação indizível que o nosso coração transporta. Aquilo que Sto. Agostinho diz: “O meu coração andava inquieto, sem descanso enquanto não repousei em Ti.”

Querido João Pedro, tu também andavas inquieto e o teu coração também procurava em tantas perguntas até chegares a Jesus. Procura que seja Ele o Belo Pastor da tua vida e responda às questões mais amplas, mais decisivas, mais determinantes que o teu coração a cada momento fará. E que seja assim com todos nós.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo IV da Páscoa

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