Queridos irmãs e irmãos,

Nós hoje lemos este capítulo 24 do Evangelho de S. Lucas, o capítulo final, uma das suas secções, a dos discípulos de Emaús, que é chamado o pequeno evangelho de Emaús. Porque, neste episódio tão bem contado pela maestria narrativa do narrador de Lucas, nós temos uma síntese do que é o Evangelho e do que é o caminho cristão.

E o que é o caminho cristão à luz deste relato? É aprender a ver. A Ressurreição, o impacto da Ressurreição de Cristo em nós, é isso, uma nova aprendizagem do olhar. Nós somos chamados a ver de outra maneira, a olhar, a que os nossos olhos se abram – os nossos olhos tantas vezes fechados, incapazes de ver o óbvio, aquilo que está a nosso lado, aquele que caminha connosco, o sentido profundo das Escrituras que lemos, a razão do pão que repartimos uns com os outros. Os nossos olhos incapazes de colher o sentido profundo são hoje chamados a abrir-se.

Há uma tradição muito bonita, popular do norte da Itália, da zona do Véneto: as pessoas vão aos rios, aos vaus, nesta manhã de Páscoa, lavar os olhos. E esta água batismal que nós recebemos sobre as nossas cabeças verdadeiramente é um colírio para os nossos olhos. A Páscoa é um colírio que cura a nossa visão das coisas. Nós somos chamados a construir uma nova visão sobre a realidade, a visão alargada pelo acontecimento do Ressuscitado.

Nós, muito viciados no empirismo, no positivismo, naquilo que nós podemos tatear (e com razão, porque nós também somos isto, somos esta matéria, mas não somos só isto) achamos que precisamos de ver para crer, só quando virmos é que vamos acreditar. Contudo, nós somos chamados a dar um salto e a Páscoa é esse salto da fé de que fala Kierkegaard, descrevendo o ato de acreditar que é sempre um salto, que é sempre uma aposta que nós fazemos, uma aposta sustentada numa relação de confiança, uma aposta garantida pelo acontecimento da Ressurreição. Para nós, mulheres e homens, é sempre uma aposta o ato de crer, esta aposta de rasgar os olhos e acreditando vendo.

É interessante como Jesus aceita fazer o caminho com cada um de nós. Estes dois discípulos de Emaús, que não têm nome porque eles chamam-se Tolentino e Manuel e Maria e Ana, chamam-se todos os nomes. Eles não têm nome, são mais um. Eles dois já estão fora de Jerusalém, vão já distantes do espaço sagrado e vão apenas com a sua história. A história de uma desilusão, a história de um desalento, a história de olhos fechados que não conseguiram ver nada. É a nossa história. Andamos assim, com os olhos colados aos sapatos, com os olhos colados àquilo que nós achamos que são as evidências ou que são as prioridades e não vemos a vida, não vemos a grandeza, não vemos o milagre da vida, não vemos. Porque estamos ali, com os olhos colados, com os olhos presos. E estes tinham os olhos presos a tudo aquilo em que tinham apostado, e que tinham visto no fundo falir, não acontecer. A experiência da perda e da desilusão, da imperfeição, do fim é a experiência que todos nós fazemos e eles levavam consigo essa experiência que lhes agarrava mais os olhos entre si.

E aparece este terceiro. E o terceiro é aquele que vem descolar-nos do fatalismo fusional. Nós e a nossa dor, nós e a nossa ilusão, nós e nós, nós e nós. O terceiro vem e começa a trabalhar outra coisa, outra possibilidade. Nós precisamos de um mestre, precisamos de um guia, precisamos de uma palavra para fazer o caminho da nossa vida. O caminho espiritual não se faz sozinho. Por isso nós estamos aqui, uns com os outros, mestres uns para os outros, a escutar esta Palavra que nos guia, cheios do Espírito Santo para podermos ser isto na vida uns dos outros: aqueles que ajudam a escutar. E Jesus começa por perguntar e por dar tempo a que cada um diga porque é que os seus olhos estão fechados. O que é que neste momento me faz serrar os olhos. Jesus está aqui, ao lado de cada um de nós a escutar isso e a fazer caminho com isso. E depois, vai trabalhando lentamente, porque os olhos talvez não se abram de um momento para o outro. Há uma instantaneidade na conversão, na transformação, no ver, na nova visão Pascal. Mas, ao mesmo, tempo há um processo, há um fazer, há um construir e o construir vai muito por esta escuta também que eu faço, depois de me sentir escutado, de sentir quem eu sou. Ele sabe quem eu sou, Ele sabe o que é que eu trago dentro de mim. Eles começam a escutar esta lição que Jesus faz começando em Moisés e passando pelos profetas, explicando-lhes tudo. Isto é, vai deixando a semente da Palavra nos seus corações. No coração de cada um de nós há tantas sementes!

É interessante que uma das imagens do Ressuscitado Maria Madalena confunde-o com um jardineiro. E a escritora Marguerite Yourcenar diz isto: “Que maravilhosa imagem para Jesus, Ele que acorda tantas sementes no nosso coração.” Dentro de nós há tantas sementes. Deixemos que o Jardineiro Divino seja capaz de acordar em nós essas sementes, esse jardim.

E Jesus continua com eles o caminho, e essa experiência de um caminho acompanhado é também a experiência Pascal. Nós não estamos sós na descoberta deste novo olhar, Ele está connosco. É porque Ele está connosco, é porque Ele vem caminhar ao nosso lado que esta transformação é capaz de acontecer.

E depois, dá-se isto: ontem, lendo o Evangelho de Marcos na Vigília Pascal, o homem vestido de branco diz às mulheres: ”A partir de agora Ele vai à vossa frente.” E de facto, Jesus vai à nossa frente como Ressuscitado. Mas os discípulos dizem: “Senhor, já é tarde, fica connosco, permanece connosco.” E Jesus, num gesto de amor, de condescendência amorosa diz: “Eu fico convosco. ”Este pedido, esta prece, esta oração, este grito tantas vezes fazemos na nossa vida. Senhor, fica connosco porque se faz tarde. Senhor, fica connosco porque a noite já desce. Senhor, fica connosco. É esta certeza de que Ele fica sempre connosco e Se senta à nossa mesa, na quotidianidade da nossa vida, no ordinário daquilo que somos. Aceita a nossa humanidade, senta-se à nossa mesa, come connosco. Mas é Ele que parte o pão.

E neste gesto do partir do pão, aqueles olhos estalam e eles compreendem que Ele está vivo. E deixam de O ver, mas deixar de O ver já não é um problema porque o importante foi eles fundarem a sua vida nesta nova visão. Por isso, vão a correr a Jerusalém dizer: nós vimos. E ouvir: o Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão, a primeira profissão da Igreja primitiva.

Queridos irmãos, hoje também nós vamos partir o pão. E que ao partir do pão se parta também o nosso olhar e descubramos uma nova visão das coisas, aquela visão que a fé é capaz de nos dar, que o sepulcro vazio é capaz de instituir em nós. Que é perceber que tudo não acaba aqui, perceber que não é só isto, que não é apenas isto; perceber que a Vítima é capaz de ser o grande transformador da história, de ser Aquele que inspira uma nova história. A Vítima não é apenas Aquele que ficou eliminado, Aquele que ficou descartado mas Ele vem ajudar-nos a escrever uma nova história. E que o dom de amor radical que é a hospitalidade de todos que Ele representa na cruz continua a ser para nós a grande lição, o grande caminho, a grande verdade, a verdadeira vida que nós somos chamados a viver.
Ao partir do pão que os nossos olhos se abram.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo de Páscoa

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