Queridos irmãs e irmãos,

A religião pode ser muita coisa, e muita coisa diferente, e muita coisa em contraste. A religião não começou com a Bíblia, a religião é própria do ser humano, começou com o primeiro Homem que habitou a terra, com este desejo, este não sei quê, esta vontade de uma relação não apenas com o visível mas com este vestígio de infinito que cada um de nós trás dentro de si. Isto começou cedo e de formas muito diferentes.

Nós colhemos um bocadinho da cultura clássica, um bocadinho do mundo egípcio, um bocadinho do mundo mesopotâmico. Todos aqueles grandes impérios e civilizações que rodeavam o pequenino Israel, todos aqueles povos eram profundamente religiosos. Dos Romanos dizia-se que eram os mais religiosos dos Homens. De maneira que a religião é uma experiência humana, antropológica muito difundida. E, de facto, pode ser muita coisa, e foi muita coisa ao longo do tempo. Quando nós olhamos para os livros de antropologia e tentamos perceber um bocadinho o que eram as religiões arcaicas, nós percebemos que o modelo dominante, é o modelo da rivalidade de deus com o Homem. Pensem, por exemplo, no mito de Prometeu. Prometeu que vai roubar o fogo aos deuses e que depois é castigado por isso. Os mitos gregos implicam desejo de autonomia do Homem e ao mesmo tempo o castigo que o divino impõe ao humano. É um esquema de rivalidade e de satisfação. Os deuses têm de estar satisfeitos. Por isso, a religião é também em grande medida uma religião de sacrifício. O modelo sacrificial é o modelo que acompanha religiões em geografias diferentes. É preciso imolar ao deus, imolar a própria humanidade, oferecer os sacrifícios, os holocaustos porque o deus tem de estar satisfeito e não sentir o Homem como uma ameaça.

O que é que é típico da religião bíblica, da revelação judaico-cristã? É o esvaziamento do esquema sacrificial. Porque Deus, mais do que os sacrifícios, está interessado em criar com o ser humano uma relação de amizade e de amor, uma relação de confiança, uma verdadeira aliança. Deus não quer a nossa pele, Deus não quer o nosso sofrimento, Deus não quer torturar-nos. Nós não somos escravos de Deus, nós somos filhos e Ele quer-nos para Si numa relação de amor, numa relação de amizade, numa verdadeira confiança. E temos esse texto paradigmático, um texto também fundamental, muito comentado ao longo dos séculos, que lemos nesta passagem do livro do Génesis que conta a subida de Abraão, pai de todos os crentes, ao monte y para sacrificar o filho Isaac. Deus diz: “Abraão, sacrifica-me o teu filho.” E ele aceita fazer esse caminho. É uma subida que nós podemos imaginar atordoada, noturna. Abraão sobe despedaçado, Isaac não percebe o que é que está a acontecer, mas sobem assim ao monte Moriá. E quando estão no alto do monte e Abraão está com a faca para cortar o pescoço de Isaac, o Anjo do Senhor pega-lhe na mão e diz: “Não é isso que eu quero.” Agora há uma coisa mais importante que o sacrifício e que esvazia a própria dinâmica sacrificial que é a aliança, que é a confiança. A fé não vai ser mais tu sacrificares ao Deus, mas vai ser tu fazeres um caminho na confiança com Deus e uma confiança que é paradoxal.

Porque é que Deus coloca Abraão naquela situação? É para que ele experimente que a confiança, a nossa confiança em Deus, é muitas vezes uma confiança no limite, uma confiança para lá daquilo que são as nossas expetativas, a nossa razão. É uma confiança que nos contradiz na nossa própria esperança. Esperar contra toda a esperança, a fé é isso. Uma relação de confiança absoluta, que é uma coisa que se calhar nem sabemos bem o que é, ficamos a tatear o que é mas é poder experimentar que Deus está mesmo no paradoxo – foi aquilo que Abraão experimentou.

Por exemplo, Madre Teresa de Calcutá dizia: “Eu creio em Deus não por aquilo que Ele me dá, mas por aquilo que Ele me tira.” Só uma grande crente pode dizer isto! Reparem: nós não dizemos isto sem as nossas entranhas se mexerem. Nós acreditarmos em Deus por aquilo que Ele nos dá é bom, é óbvio, é natural. Mas acreditarmos percebendo que mesmo o silêncio de Deus, mesmo a interrogação de Deus, mesmo este caminho que muitas vezes nós fazemos sentindo que ninguém nos acompanha, que Deus não nos vale, que Deus não nos ouve, mesmo fazendo este caminho na confiança e sentindo que essa é uma forma de aliança, que essa é uma forma de comunhão, não é fácil.

De maneira que o que é que Abraão representa para nós? Representa a fé esvaziada de sacrifício, que já não é o sacrifício mas que é uma relação de amizade, uma relação de confiança onde eu vou até ao paroxismo da própria confiança: “Eu vou para lá de tudo, eu sei que eu não vejo, eu não sinto, eu não compreendo, eu não entendo como é que isto vai ser mas eu sei que Tu estás aí.” E é, no fundo, esta a fé de Abraão e é uma fé que nos costura. O fundamento da nossa fé é a fé abraâmica.

É interessante o texto que nós lemos da Carta aos Romanos, uma pequenina passagem do capítulo VIII que usa uma linguagem sacrificial e que muitas vezes nos confunde, nos baralha. Quer dizer, Deus não poupou o seu próprio Filho mas entregou-O à morte por nós. Nós ouvimos isto e caímos de lado. Mas como é que Deus pode ser assim, pode entregar a coisa mais preciosa que Ele tem, pode não poupá-Lo, quando nós, humanos, fazemos tudo para poupar os nossos filhos e Deus não poupa o seu próprio Filho? Como é que isto é possível?

É interessante perceber como nos Evangelhos (já o antigo Testamento faz isso, mas no Novo Testamento isso é muito claro) se usa uma linguagem ainda sacrificial, mas para esvaziar, para subverter radicalmente a teoria do sacrifício. Porque, o que é que é o sacrifício? As nossas sociedades, mesmo as nossas sociedades contemporâneas, que muitas vezes até se dizem sociedades pós-religiosas, sociedades secularizadas, são sociedades onde há uma lógica vitimária, há uma lógica de sacrifício. Há uma violência latente nas nossas sociedades que se cumpre ritualmente assim: para tudo encontra-se um bode-expiatório que carrega com as culpas de toda a gente, ele é imolado diante de todos – agora é imolado na praça pública – e nós respiramos de alívio porque encontramos uma vítima que tinha os pecados de toda a gente. As pessoas não assumem, não contamos mas ele carrega as culpas de toda a gente como se ele fosse o único culpado e ele torna-se a vítima sacrificada. A sociedade respira de alívio porque se libertou de uma fonte de mal, de uma coisa muito perniciosa. Agora podemos voltar à vida normal.

Este movimento de rivalidade e morte, que se traduz sempre no sacrifício do outro, é alguma coisa que as nossas sociedades vivem no coletivo e que nós vivemos individualmente. Porque também nós temos esta rivalidade mimética, esta rivalidade uns com os outros. Achando que o outro é que é o nosso problema, que o outro é que nos dá cabo da paciência, que se o outro não existisse a nossa vida seria muito melhor. Então, de uma maneira ou de outra, não chegamos a vias de facto, mas simbolicamente nós fazemos um ritual de sacrifício do outro. Afastamos o outro, cancelamos o outro, eliminando-o da nossa vida, e respiramos fundo porque o problema era o outro, não era o caminho que nós não fizemos, o percurso não cumprido em nós. O problema era o outro.

O que é que temos em Jesus? Jesus é o contrário da lógica vitimária. Porquê? Porque Ele faz da Sua vida dom, Ele diz: não vou ficar a rivalizar, eu ofereço-Me, eu Sou dom. E o que é que os Evangelhos dizem? Ao contrário daquilo que as sociedades dizem às cegas: aquele que é o bode-expiatório é o culpado, a vítima é sempre culpada. No Cristianismo nós dizemos: a vítima é inocente. Ele foi morto, Ele foi pendurado na cruz mas Ele é inocente, Ele é inocente. Então, nós colocamo-nos ao lado da vítima. E, em termos de civilização, em termos de cultura, em termos de humanidade, em termos de sociedade, em termos daquilo em que nós acreditamos é um salto total. Porque, um cristão tem de estar ao lado da vítima, um cristão tem de esvaziar as lógicas sacrificiais de todo o tipo, religiosas, políticas, económicas, humanas. Tem de esvaziar essas lógicas sacrificiais que estão metidas dentro de nós. Porque há uma violência que não é do mundo, é nossa, que nós carregamos dentro e precisamos de nós purificar dessa violência. E como é que nos purificamos dessa violência? É percebendo que a vítima é inocente e que o caminho de redenção não é o sacrifício mas é a dádiva, é o amor, é a oferta de si, é esta radical abertura, é este abraço que fica para sempre tatuado na cruz, é isto que nos salva.

Nós hoje, neste segundo domingo da Quaresma, lemos o texto da Transfiguração. É um texto muito belo, uma experiência espiritual forte que os Apóstolos tiveram no meio das suas dúvidas. Mas, eu só sublinho a conclusão dessa experiência espiritual da transfiguração. O texto de Marcos diz assim: ”De repente, olhando em redor, não viram ninguém a não ser Jesus.”

Queridos irmãos, o que é este caminho quaresmal que nós estamos a fazer? É isto, é desimpedir a nossa visão. Porque, na nossa visão, Jesus está lá dentro mas está tanta tralha. Jesus está aqui mas nós vemos através de tantos ramos, de tanta deformação, de tanta conveniência. Não, o olhar desimpedido: “Não viram mais ninguém a não ser Jesus com eles.” A experiência quaresmal, a experiência pascal, queridos irmãs e irmãos, é isto: cada um de nós sentir na vida concreta Jesus consigo. Mas olhando para Ele e entendendo-O. Entendendo o que significa Aquele que desarmou a lógica sacrificial, que Se oferece a Ele próprio como vítima, que está inocente mas faz a oferta de Si. Ele connosco a inspirar-nos, a dizer-nos qual é o caminho, isto é que é o itinerário quaresmal.

Vamos rezar ao Senhor, eu acho que há muito trabalho que precisamos fazer. Cada um de nós. Porque, um Cristianismo adulto pede de nós um conhecimento de Jesus percebendo o que é que está ali em causa. Porque a Cruz não é uma devoção. A devoção é bonita, mas a devoção tem de estar baseada num fundamento racional. E o fundamento racional é compreendermos o que é que este gesto significa de transformação, de mudança, de inversão do modelo, de paradigma e o novo modelo que a cruz representa.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo II da Quaresma

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