Queridos irmãs e irmãos,

Nós estamos a começar o Tempo Comum, hoje estamos no terceiro domingo. O Tempo Comum é aquele eixo fundamental que atravessa o nosso ano litúrgico. Temos o Advento e o Natal que celebram o mistério da encarnação de Jesus, temos a Quaresma e a Páscoa que nos centram no mistério da nossa Salvação. Mas, o Tempo Comum acaba por ser o grande leito por onde a nossa vida flui, onde as águas do nosso coração correm.

A começar, com o sabor de começo, há esta reflexão que a Palavra de Deus nos propõe sobre como é que havemos de viver, como é que há de ser o tempo da nossa vida e que coisa é o tempo do ponto de vista cristão. Porque, o Cristianismo não é apenas uma proposta para ser vivida no espaço individual das nossas vidas, tem também uma visão global da própria história. Não serve apenas para pessoas, tomadas singularmente, mas é uma visão do destino humano, uma visão da própria criação, da própria realidade que o Cristianismo apresenta. Nesse sentido, é muito importante este passo da Primeira Carta aos Coríntios que hoje nós lemos e que pode soar até um pouco estranho aquilo que Paulo diz. Iremos a isso e faremos desse texto a base da nossa meditação.

Mas ainda queria, em jeito de introdução, dizer que no século XIX, no século XX revisitou-se muito a origem do Cristianismo e leu-se muito o Cristianismo na chave apocalíptica. Olhava-se para os primeiros cristãos, para Pedro, João, Paulo, para os seus escritos e aquilo que se entendia era isto: os primeiros cristãos viviam numa expectativa do regresso de Jesus, mas um regresso iminente. Paulo estaria convencido que ele próprio ainda assistiria à última manifestação de Jesus. E depois, como Jesus se foi demorando, como a escatologia não se realizava, os cristãos e o Cristianismo adotaram uma espécie de real politique, uma espécie de pragmatismo histórico a dizer assim: nós não podemos ser apocalípticos toda a vida porque já vimos que isto vai demorar um bocado, não sabemos nem o tempo nem a hora, então, vamo-nos adaptar pelo menos neste mundo vivendo na lembrança e na expectativa sempre do que virá, do que será, do que se revelará.

Hoje nós percebemos os limites desta interpretação do Cristianismo, considerando-o como uma forma apocalíptica de religião. Porque, de facto, o Cristianismo não é apocalíptico, o Cristianismo é messiânico, e nós somos um Povo messiânico. E o messianismo olha para o tempo de uma outra forma, de uma outra maneira. S. Paulo ajuda-nos muito a perceber qual é a essência do tempo cristão. Ele começa, nesta leitura que nós lemos do capítulo VII da Primeira Carta aos Coríntios, com uma imagem muito forte, ele diz: “Irmãos, o tempo foi abreviado.”

O que é que ele quer dizer com isso? A palavra em grego é usada para duas coisas. É usada, por exemplo, quando um animal está para dar um salto e encolhe-se todo para depois se esticar no ar. Isso é o verbo que Paulo usa para dizer que o tempo foi abreviado. Ou então, quando nós baixamos uma vela para depois a voltar a erguer. Então, o tempo é breve não quer dizer que temos um tempo breve, o tempo é o que é. Mas o tempo foi abreviado no sentido em que o tempo foi transformado. A experiência que nós agora fazemos do tempo não é a mesma. Do tempo cronológico, hoje ser domingo, amanhã ser segunda, hoje ser quase meio-dia, depois haver a tarde e a noite. A maneira de vivermos o tempo é transformada, é outra. E é transformada como? Como é que nós vemos isso? É transformada porque agora o tempo é messiânico, porque agora nós contamos com a experiência de Jesus. Jesus já veio, Jesus já Se revelou como o Messias, o Messias de Israel e o Messias universal. E isso dá-nos um entendimento outro da vida. Jesus não está atrasado. Na visão apocalíptica podemos dizer: os cristãos tinham expectativas que não se cumpriam e depois adaptaram-se pragmaticamente à realidade. Não, Jesus não está atrasado, no sentido em que nós podemos dizer que um comboio está atrasado. Não, Ele vem a cada instante, Ele vem a cada minuto.

O filosofo Walter Benjamin dizia: “Cada instante é a pequena porta por onde entra o Messias.“ Então, cada segundo da nossa vida, cada momento é o lugar onde Ele vem, onde Ele Se manifesta, onde Ele chega. É interessante que Paulo, e encontramos isso também nos Evangelhos sinópticos, fala de Jesus como oerkomenos, que é um particípio presente em grego do verbo vir, que quer dizer vir. Jesus é aquele que vem, é aquele que chega, não é aquele que chegou é aquele que está a chegar, que  está chegando a cada instante da nossa vida. E isso, claro, tem consequências, tem de ter consequências na maneira como nós entendemos e vivemos a vida. E a consequência é uma espécie de revogação do modo habitual de viver. A forma da nossa existência que foi revogada. Por isso é que Paulo diz:” Os que têm esposas procedam como se não as tivessem, os que choram como se não chorassem, os que andam alegres como se não andassem, os que compram como se não possuíssem.” É uma revogação que acontece, mas uma revogação que diz: encontra na tua existência uma nova compreensão do teu lugar, encontra um novo uso para aquilo que és e vive a tua vida, vive o modo da tua existência oferecendo-lhe um outro significado.

É interessante que mesmo antes deste parágrafo que nós lemos do capítulo sétimo da primeira a Coríntios, S. Paulo está a dizer: “Se és escravo não desesperes com a tua situação mas percebe que como escravo também serás salvo, não desesperes porque também assim serás salvo.” Trata-se de percebermos que tudo aquilo que somos está como que marcado, assinalado por um significado outro. Se eu sou casado eu vivo o casamento com um significado outro, se sou celibatário vivo a minha condição com um significado outro, se as coisas me correm bem vivo o meu sucesso com um significado outro, se estou na tristeza, em momentos crucificantes vivo esses momentos de uma outra maneira dando um outro uso à minha vida. Quer dizer, não absolutizo as formas mas percebo que elas são apenas formas e que nelas eu tenho de encontrar as mediações de um uso novo. O Cristianismo não é o outro tempo, não é para nos preparar para o mundo que há de vir, mas é ajudar-nos a ver que Jesus é aquele que vem em cada instante, em cada momento. Por isso, nós não estamos à espera do fim dos tempos. Nós, no nosso presente histórico, já estamos a viver o tempo do fim.

Isto é, já ligamos cada instante, cada manifestação da nossa existência atual àquilo que é em plenitude o próprio Messias. Por isso, não estamos à espera daquele momento em que tudo vai acabar. Não, nós já vivemos o tempo do fim, já relacionamos cada parte da nossa existência a essa manifestação do próprio Senhor. Encontramos assim uma nova qualidade para o tempo da nossa vida e percebemos que não somos um povo desmobilizado. Pelo contrário, um povo messiânico é um povo mobilizado. Por isso, Jesus começa o seu anúncio, a sua vida pública também com uma palavra sobre o tempo. Jesus diz: “Cumpriu-se o tempo, o tempo encontrou a sua plenitude.” O tempo é o kairós, chronos é o kairós, o tempo é kairológico, o tempo é um momento oportuno. O tempo não é só tempo, não é este instante cego atrás de outro instante cego, este Chronos que devora os próprios filhos como é a experiência psicológica que tantas vezes nós fazemos do tempo, que não temos tempo e sentimo-nos devorados pela própria ideia de tempo. Não é isso, o tempo é um tempo kairológico, no sentido de que nos faz ver que este instante da nossa vida é o momento oportuno, é a oportunidade. Os cristãos olham para o tempo como uma oportunidade. Este momento das nossas vidas que estamos a viver é a oportunidade que Deus nos está a dar para vivermos plenamente o seu mistério, a sua relação com Ele, para acolhermos em plenitude, para o nosso coração ser a tal pequena porta por onde Ele entra.Faz-nos olhar para o tempo como um lugar onde o chamamento acontece. Por isso, queridos irmãs e irmãos, a nossa existência é vocacional. Nós somos mulheres e homens chamados, como Jesus passou à beira do lago e disse a Simão e André: “Vem comigo.” E disse a Tiago e a João: “Vem comigo.” Ele passa hoje na nossa vida e diz: “Vem comigo, vem comigo.” E é esse estar com Ele, esse fazer coincidir o nosso coração com o coração Dele que dá um outro sentido ao tempo da nossa vida.

Por isso, queridos irmãos, o Cristianismo não nos atira para lá da história. Não está interessado apenas nas razões últimas. O Cristianismo é muito interessado nas razões penúltimas, está muito interessado no aqui e no agora da nossa vida. Porque o tempo é um templo. O presente é já o futuro de Deus, é já o lugar teofânico, é já o lugar da irrupção desse grande encontro com o Senhor. Que esta compreensão do tempo nos mobilize, que este tempo comum não seja o anticlímax da nossa vida, dizendo: o tempo comum não é um tempo forte, é o mês de janeiro, é aquele mês para tentar recuperar forças e cabeças depois das loucuras todas de dezembro, depois fevereiro é para entrar um bocado na linha depois do Carnaval. Vivemos a vida um bocadinho como um anticlímax à espera dos momentos extraordinários. Não, a visão cristã do tempo não é essa. Cada momento do nosso presente é já a plenitude de Deus. Por isso, confiança, confiança, confiança. Por isso, vigilância naquilo que vivemos, por isso, compromisso com o Senhor que passa no aqui e no agora trémulo, inacabado, imperfeito, mas no agora Ele passa e dá um significado àquilo que vamos vivendo.

“O que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo abreviou-se.” O tempo abreviou-se, o tempo concentrou-se para poder dar o salto. Sintamos esta concentração, concentração do nosso coração, da nossa carne, dos nossos projetos, sintamos isso como desafio àquilo que somos, aos cristãos que somos. Porque Cristianismo vive no mundo com uma certa pretensão. Há coisas que nos fazem um bocadinho rir, não sabemos a origem das coisas. Por exemplo, a palavra “paróquia”. Nós dizemos: isso é paroquial. Olhamos para a paróquia como um velho uso que veio de séculos passados, que a gente não sabe o que é. Há dois verbos em grego para dizer os habitantes. Como hoje, há os cidadãos de pleno direito, que pagam os seus impostos ou nasceram aqui, ou de cidadania e, pronto, estão aqui, estáveis na cidade. E há aqueles que estão de passagem. Ou porque são turistas, têm um visto que vai expirar na data certa, ou porque são clandestinos. Esses são os de passagem e há os estáveis. A palavra “paróquia”, paroikos, quer dizer: “os de passagem”. Então, uma paróquia quer dizer a circunscrição daqueles que estão de passagem, daqueles que não são daqui, não estão aqui estavelmente. E de facto, nós somos esse povo. Esta pequena comunidade são pessoas que assumem a compreensão que estão de passagem, que não pertencemos aqui. Temos de viver qualificando o tempo de outra forma, à maneira de Jesus, seguindo-o à maneira destes que deixaram tudo e foram viver com Ele.

Sigamos Jesus. Ouçamos a Sua Palavra e façamos da Sua vida a oportunidade para a nossa própria vida.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III do Tempo Comum

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